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Barceló de Carvalho “Bonga” nos estudos culturais universitários

Bonga é um fenómeno de inequívoca notabilidade histórica e contínua preservação das origens da Música Popular Angolana. Artista convicto dos seus ideais, a sua música incorpora, no íntimo, o estigma e afirmação de uma filosofia cultural identitária e está assente em valores, cuja absorção teve os seus contornos estéticos na efervescência artística dos musseques de Luanda, no princípio dos anos cinquenta.

A música do Bonga actualiza o passado da Massemba, vibra a profundidade dos antigos carnavais, e, só na aparência, pode traduzir uma arte de pendor simplista. Barceló de Carvalho, como também é conhecido, possui o superlativo mérito de ter levado a pulsação rítmica do semba nas grandes salas da África, Europa e Estados Unidos da América e de ter dado a conhecer uma cultura que, de outra forma, teria uma circulação confinada ao consumo doméstico.

Filho de Pedro Moreira de Carvalho e de Ana Raquel, José Adelino Barceló de Carvalho nasceu no dia 5 de Setembro de 1942, em Porto Kipiri, Província do Bengo. É o terceiro filho de uma família de nove irmãos e acompanhava o pai nas tertúlias dos musseques, ocasiões em que foi cultivando o gosto pela música de matriz popular: “O meu pai tocava acordeão em casa e num grupo de rebita e nós tínhamos que aprender os passos de dança.

Dos nove irmãos, eu acompanhava o meu pai com a dikanza e isso foi o pontapé de saída para tudo o que se seguiu depois”, recorda nostálgico, o cantor e compositor, numa longa entrevista, que nos concedeu, publicada no Jornal de Angola, na edição do dia 19 de Novembro de 2000.

A família trata-o carinhosamente por Zeca e passou a sua infância no bairro dos Coqueiros, Ingombotas, Bairro Operário, Rangel e Marçal. Bonga integrou, em 1957, o conjunto “Kimbandas do ritmo”, com o Manuelito, e os “Kissueias do ritmo”, em 1958, com Carlos Lamartine, António José de Carvalho e Nelito Soares. É desta época a canção “Ueji”, a sua primeira composição musical.

Portugal

A prática do atletismo foi o motivo que o levou a Portugal, contudo, trazia consigo a nostalgia e a poética musical dos musseques. Quando jovem, Bonga teve a fama de ser muito rápido e começou a correr, oficialmente, no S. Paulo do Bairro Operário, rotulado pejorativamente como o “club dos pretos”, tendo ingressado, depois, no Clube Atlético de Luanda. Em Portugal foi o reencontro com Teta Lando, Eleutério Sanches, Lilly Tchiumba, Duo Ouro Negro e Rui Mingas, em 1966, com os quais manteve uma relação que resultou em experiências musicais históricas.

Bonga chegou a formar um duo, com Teta Lando, que acompanhou a cantora angolana Lilly Tchiumba. Ainda em Portugal o duo, Bonga e Teta Lando, acompanhou o cantor Elias diá Kimuezo na gravação das canções, “Mualunga” e “Ressurreição”, dois clássicos do Rei da música angolana. Em 1972, Bonga opta pelo exílio voluntário na Holanda e grava, no mesmo ano, o seu primeiro álbum, “Angola 72”, com o angolano Mário Rui e o cabo-verdiano Humberto Bettencourt.

No LP “Angola 72”, obra paradigmática da sua carreira, Bonga interpreta textos do cabo-verdiano, Junga de Biluka – o patrão da editora Morabeza.

“Na Holanda, lembra o cantor, encontrei as condições técnicas e artísticas para expressar a minha alma do musseque, coisa que não encontrei em Portugal”. Com o guitarrista baiano, Sebastião Perazzo (Tião) surgem os discos Angola 74, Angola 76 e Raízes. Em 1974, Bonga conhece o saxofonista Jô Maka, em França, músico que participa na gravação dos álbuns, “ Angola 74” e “Raízes”. Paris Lisboa e Luanda, são as cidades que mais frequenta, actualmente, e com as quais tem uma relação apaixonada.

Masters

Com o “Semba Masters”, Bonga iniciou um novo ciclo musical, facto que deu azo a profundas alterações estéticas, a nível da concepção instrumental da sua obra. Com Betinho Feijó, o emblemático guitarrista dos “Merengues”, Carlos Tchiemba, um atento baixista que contorna, sem par, o fraseado do semba, Lito Graça, o baterista que conjuga humor e música, Lanterna, um músico que optou pela sonoridade do acordeão para estar mais próximo das origens da rebita, e Chalana, herdeiro da versão, mais jovem, da percussão angolana.

Periodização
Julgamos razoável, do ponto de vista metodológico, estabelecer um paralelo entre os principais momentos da carreira do Bonga e as grandes transformações políticas de Angola, ocorridas nos últimos quarenta e cinco anos. O primeiro momento, em pleno período colonial, caracteriza-se pelas tertúlias e a passagem pelos “Kissueias do Ritmo” (1958), com músicas marcadas pelo cancioneiro popular, até a sua primeira composição, “Uejia”.

O segundo momento foi marcado pela gravação do primeiro disco “Angola 72”, com canções que acusam a nostalgia da sua terra, a influência do cancioneiro popular angolano, e paixão pela música de Cabo-Verde, com a canção “Pisa na fulô”. Um terceiro momento, com os “Semba Master’s”, ficou marcado pela sátira social e política, no período da guerra (1980-1992), com canções como “Uma lágrima no canto do olho” e “Água rara”, e um quarto momento, o dos nossos dias, caracterizado pelo retorno ao enaltecimento de figuras típicas dos musseques luandenses, com “Maiorais” (2006), e tendências do pitoresco bairrista, com o CD “Bairro” (2011), “Kaxexe” (2004), “Hora Kota” (2011) e “Recados de fora” (2016).

Livro
No seu livro “Marcas da Oralidade Angolana nas Músicas de Bonga”, Filomeno Pascoal orienta a sua investigação em domínios pouco explorados, estabelecendo uma relação de diálogo entre os textos musicais e os preceitos da oralidade, tendo como base do seu trabalho a reutilização de documentos, depoimentos, cartas e referências da imprensa.

Neste sentido, julgamos pertinente o surgimento desta obra, enquanto contributo aos estudos culturais angolanos, porque o autor consegue estabelecer um paralelo entre os principais momentos da carreira do Bonga e as grandes transformações políticas ocorridas em Angola, nos últimos cinquenta anos. (Jornal de Angola)

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