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Mulheres negras unem-se em Portugal para arrasar preconceitos, com “ponte” para Angola e apelo à resistência africana

(DR)

Vinte e sete mulheres, alinhadas por oito áreas de intervenção social, uniram-se para mudar a rotina de invisibilidade, silenciamento e marginalização que dizem marcar o dia-a-dia das negras em Portugal, transformando-as em protagonistas do espaço público. O NJOnline foi conhecer a sua história, que se escreve a partir da acção do recém-nascido INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal. Com “ponte” para Angola e apelo à resistência africana.

Falam mal português, têm baixas habilitações, não possuem qualquer tipo de ambição, e nasceram para ser empregadas de limpeza, domésticas ou cozinheiras. A narrativa reproduz alguns dos preconceitos que desfazem a identidade das negras em Portugal, e que fazem do INMUNE uma prioridade, pelo menos para as 27 mulheres criadoras do movimento.

“Unidas vamos arrasar com esses estereótipos”, acredita Joacine Moreira Katar, que, só com o seu cartão-de-visita, descola uma série de rótulos: é doutorada em Estudos Africanos, investigadora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, bem-falante, e ambiciosa que baste para ser fundadora e presidenta do recém-criado Instituto da Mulher Negra em Portugal.

Apresentado no passado dia 20 de Outubro na capital portuguesa, o INMUNE nasceu para contrariar a narrativa de desvalorização e subalternização das mulheres negras, africanas e afrodescendentes, transformando-as em protagonistas do espaço público.

A missão cumpre-se com uma “ponte” para Angola e um apelo à resistência africana. “As nossas irmãs angolanas da Ondjango Feminista são uma das referências do Instituto”, conta Joacine, sublinhando que apesar de o INMUNE estar implantado em Portugal move-se na africanidade.

“Queremos estar inseridas nos movimentos feministas em África, criar uma âncora para receber conhecimentos, orientações e ópticas de análise africanas, e para partilhar experiências e estratégias de resistência”, concretiza a presidenta do Instituto, que se define como uma entidade feminista anti-racista e interseccional, característica bem vincada na diversidade profissional que congrega.

“Somos engenheiras, actrizes, realizadoras, psicólogas, historiadoras, assistentes sociais, etc, e estamos empenhadas em colocar as nossas capacidades técnicas, formações e experiências ao serviço da comunidade”, assinala Joacine.

Para além do compromisso de romper com a rotina de invisibilidade, silenciamento e marginalização que marca o dia-a-dia das negras em Portugal, o Instituto propõe-se fazer a diferença pela forma de intervenção.

A mulher negra é quase desumana

“O INMUNE não faz da mulher negra objecto de estudo, mas sim sujeito de acção e conhecimento, não faz dela periférica, mas sim o centro da acção”, explica a presidenta, que aponta como exemplo distintivo dessa abordagem o trabalho em curso na área da Saúde Mental.

“Historicamente houve a construção da mulher negra como uma pessoa quase desumana, que aguenta tudo: esforço físico, oito filhos, o abandono sistemático pelos companheiros, oito horas de trabalho num sítio, quatro noutro e ainda horas extra ao fim-de-semana”, ilustra Joacine, alertando para a urgência de humanizar esse papel, trabalho que está a ser desenvolvido no Departamento da Sororidade e Entreajuda do INMUNE, dirigido por Shenia Karlsson.

“Não há nada em relação à saúde mental na mulher negra”, lamenta a directora e psicóloga clínica e social, empenhada em preencher esse vazio.

“As universidades não oferecem currículos com disciplinas que consideram as peculiariedades do sujeito negro. Dentro da clínica da Psicologia prevalece um carácter hegemónico eurocêntrico dos indivíduos, construído a partir de narrativas que não contemplam a diversidade”, especifica a responsável, que, no Brasil, seu país de origem, comprovou no terreno essa desconsideração.

“Quando, por exemplo, se tenta trazer o racismo para o ambiente terapêutico, há uma tendência de desvalorização do tema com perguntas como “Você não acha que está imaginando? Isso não é coisa da sua cabeça?””, diz a directora do Departamento da Sororidade e Entreajuda do INMUNE, alertando para o efeito dessa rejeição.

“Constantemente sofremos de transtornos de ansiedade, de depressão generalizada e não temos a consciência de que precisamos de ajuda porque o social passa a mensagem de que não precisamos nos cuidar nesse sentido. Passa a mensagem de que fomos “construídas” para produzir, e se não o fizermos não temos função social”.

Mais do que perpetuar uma ideia de desumanização, a desvalorização das necessidades psicológicas específicas da comunidade negra acentua a sua invisibilidade, favorecendo “o sentimento de “ninguém me nota””, sublinha Shenia, que a partir do INMUNE não só acolhe como promove a diferença.

Resgatar o poder de acção negro

“Quando fazemos acções para contemplar a população negra, há sempre um carácter assistencialista, que anula a ideia de que os sujeitos são agentes e têm recursos internos para poder fazer a construção do seu futuro, da sua vida, das suas narrativas. Por isso desconstruir esse carácter assistencialista é fundamental, para que a gente possa trazer esse reconhecimento do povo negro enquanto potencialidade, enquanto movimento”, defende Shenia.

Nesse caminho de resgate do poder de acção negro, o INMUNE assume a sua personalidade interseccional “atacando” oito grandes áreas de intervenção, agrupadas em departamentos: Educação, Formação e Ciência; Infância e Juventude; Artes, Cultura e Espectáculos; Comunicação e Relações Internacionais; Sororidade e Entreajuda; de Género, Feminismos e Questões LGBTQI; Eventos e Jurídico.

“A partir de 2019, teremos iniciativas de intervenção social objectivas para cada uma das áreas, e, para além das intervenções sociais e comunitárias, iremos efectuar imensa produção de conteúdos”, antecipa a presidenta Joaciane, na apresentação de outra face da identidade INMUNE.

“Não somos unicamente agentes de acção e operacionalização, somos agentes de conhecimento”, salienta, de agenda aberta para o lançamento série de iniciativas, que incluem a escrita de artigos científicos, a publicação de obras infantis e a presença em colóquios.

Até lá o Instituto quer dar-se mais a conhecer, por um lado abrindo-se à entrada de associadas, inscritas mediante o pagamento de uma quota anual de 12 euros – negociável em caso de impossibilidade financeira – e, por outro lado, dinamizando eventos. Como a realização, neste sábado, 17, da primeira Feira de Inverno INMUNE, criada para aconchegar os dias mais frios, com a oferta de roupa, calçado e agasalhos a baixos preços, definidos à medida do bolso das destinatários das intervenções do Instituto.

A iniciativa, a decorrer entre as 11h e as 19h no Clube Recreativo União Raposense, no Monte da Caparica – margem Sul de Lisboa -, vai incluir, entre outras actividades, uma roda de conversa sobre o feminismo negro e o autocuidado. Ao encontro da vocação do INMUNE de reflectir entre pares, para que se crie, nas palavras de Joacine Moreira, “um espaço de partilha de experiências, de irmandade e fortalecimento das mulheres negras”. (Novo Jornal Online)

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