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Entre desvios e muitos recuos, Bolsonaro já tem meio governo

Dois generais na Defesa, fã de Trump na Política Externa, suspeito de corrupção na Interna, juiz da Lava-Jato na Justiça, ultraliberal na Economia, líder da Bancada do Boi na Agricultura, astronauta na Ciência.

Jair Bolsonaro é o presidente eleito do Brasil.© Adriano Machado – Reuters
Não serão apenas 15 ministros, como foi prometido. Agricultura e Meio Ambiente não serão alvo de fusão, como se anunciou duas vezes. O Ministério do Trabalho não será extinto, como chegou a dizer-se. O general Augusto Heleno não ocupará a pasta da Defesa, cargo que lhe estava destinado há meses. Comércio e Indústria não sairão da tutela de Paulo Guedes, como esteve em cima da mesa. Nem Sérgio Moro vai gerir a controladoria-geral, ideia defendida inicialmente.

A construção do governo de Jair Bolsonaro é uma complexa obra de engenharia, plena de desvios de rota, de correções de trajetória, de inflexões, de curvas e de muitos recuos. Mas também avanços: três semanas depois de eleito, o novo presidente já confirmou oito nomes para oito ministérios. Dois generais, a que se juntam o vice-presidente Hamilton Mourão, o terceiro, e, muito provavelmente, Oswaldo Ferreira, o quarto, na área dos Transportes e Infraestrutura; um ultraliberal na Economia; um deputado apagado mas próximo do presidente na Política; um juiz que é a estrela da companhia; a chefe da Bancada do Boi no Congresso; um astronauta; e um diplomata que chama o PT de “partido terrorista”.

Ernesto Araújo, novo ministro das Relações Exteriores, com 51 anos de idade e 29 de carreira no Itamaraty, como também é conhecido o ministério que gere os negócios estrangeiros do Brasil, foi uma indicação pessoal do guru de Bolsonaro. Olavo de Carvalho, filósofo conservador a quem é atribuída a fundação da nova direita no país, recomendou através das suas influentes contas nas redes sociais o artigo “Trump e o Ocidente”, escrito em revista oficial do Itamaraty. No texto, Araújo compara Donald Trump a Winston Churchill e Ronald Reagan e exalta a recuperação de valores como Deus, pátria e família.

Matías Spektor, professor de Relações Internacionais da Faculdade Getúlio Vargas, escreveu que a escolha de Araújo reforça a ideia de que “Bolsonaro busca espaço no movimento transnacional antiglobalista encabeçado por Trump”. Mas não é o único vértice da política externa que o novo presidente pretende instituir, continua o professor: segurança, fronteiras, forças armadas e indústria das armas ficam a cargo dos generais, como o vice Mourão e Augusto Heleno, da Segurança Institucional, e Azevedo e Silva, da Defesa.

O terceiro vértice, pelo qual Bolsonaro pretende deixar marca internacional, passa pela economia. Paulo Guedes chamou a si o Comércio e a Indústria – e depois perdeu e depois voltou a ganhá-las novamente – para acabar com a política protecionista do país nesse sentido e rever todos os acordos comerciais internacionais. Uma ideia que pode chocar com o tal antiglobalismo do Itamaraty.

No plano exclusivamente interno, a nomeação para a Agricultura da deputada (e chefe dos produtores rurais no Congresso) Tereza Cristina, um dos rostos mais temidos pelos ambientalistas, deixa claras as intenções do novo presidente para o setor – com Ministério do Meio Ambiente atrelado ou não à pasta.

Sérgio Moro, o astro da Operação Lava-Jato, conduzirá o superministério da Justiça para “combater o crime organizado”, segundo o próprio, e manter a tom da luta contra a corrupção, iniciada por ele a partir do seu obscuro gabinete de Curitiba, há quatro anos. Terá de conviver nos Conselhos de Ministros com o chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni, acusado de receber duas doações ilegais de campanha da JBS, a mesma empresa cujo dono gravou o presidente cessante Michel Temer nos porões da sua residência oficial, e por isso com a sua proclamada capa de honestidade, no mínimo, manchada. E terá também de conviver – e pedir apoio para aprovar políticas e reformas – com congressistas acusados de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes no âmbito da Lava-Jato e demais operações.

Nas áreas sociais, o governo, que deve ter 18 pastas, mais do que as 15 prometidas, mas ainda assim bem menos do que as cerca de 30 de Temer e do segundo mandato de Dilma Rousseff, está mais atrasado. Além de Marcos Pontes, o astronauta, na Ciência e Tecnologia, faltam nomes para a Saúde e a Educação. No segundo caso, outro general, Ribeiro Souto, e uma psicóloga, Viviane Senna (irmã de Ayrton, mítico piloto de Fórmula 1), disputam a vaga. Souto, que acredita no criacionismo mas não crê na existência de uma ditadura militar, já disse que quer revolucionar a bibliografia das escolas. Nos próximos dias são esperados mais avanços – e novos recuos.

MINISTROS CONFIRMADOS

Paulo Guedes (Economia)

Ultraliberal da escola de Chicago, de 68 anos, vai conduzir um superministério que reúne Finanças, Plano, Comércio e Indústria.

Onyx Lorenzoni (Casa Civil

Citado em duas delações na Lava-Jato, o deputado de 64 anos controlará as relações do governo com o Congresso.

Sérgio Moro (Justiça)

O símbolo da Operação Lava-Jato, conhecido por ter mandado prender Lula, assume pasta reforçada com atribuições antes na área da segurança e da economia.

Ernesto Araújo (Relações Exteriores)

Indicação pessoal de Olavo de Carvalho, ideólogo do bolsonarismo, é um diplomata de 51 anos, 29 dos quais no ministério, adepto de Donald Trump.

Augusto Heleno (Segurança Institucional)

O general mais próximo de Bolsonaro, 71 anos, ia para a Defesa mas acabou desviado para um ministério física e politicamente mais perto do Planalto.

Azevedo e Silva (Defesa)

General, até então assessor do presidente do Supremo Tribunal Federal, substitui Heleno na Defesa.

Tereza Cristina (Agricultura)

Deputada, é líder da chamada Bancada do Boi, que defende o interesse dos grandes produtores no Congresso.

Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia)

O primeiro astronauta brasileiro a viajar no espaço é engenheiro e tenente-coronel. (Diário de Notícias)

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