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UAN afasta chefe de departamento e professora de matemática por imposição dos alunos, que a acusam de ser demasiado exigente

A Reitoria da Universidade Agostinho Neto (UAN) exonerou, por despacho, a chefe de departamento do curso de matemática da Faculdade de Ciências, Maria da Natividade, que, 24 horas depois, acabou por ser suspensa de todas actividades académicas pela decana da instituição, cedendo, assim, às exigências dos alunos, que exigiam a demissão da professora, acusando-a de ser “arrogante e demasiado exigente”.

A professora suspensa, que também se formou na UAN e dava aulas na instituição há 23 anos, está incrédula e diz que a sua luta é pelo curso em que se formou, e, por isso, quer formar bons matemáticos, “porque quem aprende bem, ensina bem”.

A exoneração e suspensão da docente, a única doutorada de matemática formada em Angola, surge depois de os alunos do curso protestarem e exigirem a demissão imediata da professora, no passado mês de Outubro.

“É dada por finda a comissão de serviço que Maria de Natividade, professora auxiliar em regime integral, vinha exercendo nas funções de chefe de departamento de Ensino Matemático da Faculdade de Ciências, para as quais havia sido nomeada por despacho”, lê-se no documento a que o NJOnline teve acesso.

Num outro documento, assinado esta quinta-feira, 15, pela Decana da Faculdade de Ciências, Suzaneth da Costa, a que o NJOnline também teve acesso, Maria da Natividade é suspensa de todas actividades docentes na Faculdade de Ciências e obrigada a indicar os professores que a vão substituir temporariamente, e a entregar todos os materiais relacionados com a gestão das disciplinas que ministrava.

De acordo com a ordem de suspensão, a professora Maria da Natividade deverá, durante o período em que estiver suspensa, apresentar-se regularmente no departamento de recursos humanos para assinatura do livro de ponto e garantir a sua efectividade para o pagamento dos selários.

A professora e ex-chefe do departamento do curso de matemática da Faculdade de Ciências confessou ao NJOnline nunca ter visto uma situação do género em nenhuma universidade do mundo e disse acreditar que a instituição está apenas a tentar agradar aos estudantes, mesmo sabendo de todas insuficiências académicas dos alunos do curso de matemática.

“Eu fui exonerada como chefe de departamento do curso de matemática e agora suspensa de todas actividades docentes, mas os estudantes querem a minha expulsão da UAN, e, infelizmente, a direcção vai atender às reivindicações deles”, disse.

Segundo Natividade, a decana, Suzaneth da Costa, colocou no seu lugar três outros professores, e, “um dos quais não pertence ao departamento”.

“Fui suspensa sem nunca me notificarem nem avaliarem, porque eu tinha que ser avaliada para decidirem se sirvo ou não como docente, não suspenderem-me sem justificação concreta”, contou.

“Sinto pena, porque estávamos a começar as bases para termos de facto uma licenciatura em matemática. Como é que se explica que, nos 50 anos que o curso tem, só se tenha doutorado uma pessoa?”, questiona-se a professora, que dava aulas na instituição há 23 anos.

“Quando as pessoas saem do País para fazer uma pós-graduação em matemática e não conseguem, é porque não têm bases e acabam por fazer outra coisa. E quando chegam aqui são consideradas mestres ou doutores em matemática quando no exterior não fizeram isso”, declarou.

“Com o meu rigor, na verdade, já estávamos a ter resultados. Temos estudantes que já têm bases e estão a fazer pós-graduação. Há um aluno que já fez o mestrado na Inglaterra, e cujo trabalho foi publicado na Revista Springer uma das melhores revistas inglesas da especialidade. Isso é devido às exigências que têm sido implementadas”, explicou.

O curso de matemática tem 34 disciplinas, contou a docente, e eu não estou em condições de ministrar as 34, mas todas as pautas do curso de matemática, do 1.º ao 5.º ano, estão a vermelho.

” Se eu não sirvo como professora, então ninguém mais serve, porque a maioria das notas na faculdade não é validada. Na disciplina de Probabilidade I, da noite, nenhum aluno tirou positiva, e não sou eu que ministro a disciplina. Os estudantes querem safar-se e a Decana está a permitir”, lamentou.

“Fui exonerada e suspensa sem saber qual é a minha infracção. Não ganho nada como chefe de departamento, não tenho nenhum subsídio de chefia, e não estou a lutar pelo cargo, apenas quero ensinar, porque em Angola não há matemáticos, por isso é que sou a única doutora em matemática, formada no País, em 50 anos de existência do curso na Faculdade de Ciências, e a minha luta é pelo curso em que me formei, por isso quero formar bons matemáticos, porque quem aprende bem ensina bem”, salientou.

Maria da Natividade disse também que respondeu a todas as questões que lhe foram colocadas pela comissão de inquérito, nomeadamente sobre as pautas vermelhas existentes no curso.

“Eu respondi a todas as questões inerentes às fracas notas dos estudantes e não deixei dúvida alguma, porque as justifiquei de A a Z. Se a comissão chegou à conclusão de que eu tinha que ser exonerada, só mostra que está a fazer a vontade dos alunos”, referiu.

“O curso de matemática na Faculdade de Ciências vai voltar ao ponto inicial, em que não havia regras, qualidade e rigor. Os estudantes vão formar-se assim e não teremos boas gerações para ensinar o que é a matemática”, lamentou.

Segundo a docente, a matemática é o suporte da Faculdade de Ciências, e, em todos os outros cursos existe a cadeira de matemática.

“A matemática é a base da ciência e da tecnologia, o mundo hoje é digital porque teve bons matemáticos. Não existe investigação em ciência e tecnologia sem matemática e nunca vai existir”, salienta.

A ex-chefe de departamento do curso de matemática, agora professora suspensa, contou ao NJOnline que também foi ameaçada a pedir a demissão da instituição.

“Eu fui ameaçada pela vice-decana para a área académica, para pedir demissão, mas não aceitei. Por sua vez, ela disse-me: Como não aceitas pedir demissão, então fica a saber que a tua carreira acabou a partir de hoje. Alguns colegas avisaram-me que a minha vida está em risco e não vamos tentar tapar o sol com a peneira. Aqui em Angola ainda é assim, infelizmente quem trabalha com regras é mal visto”.

“Assim, nunca teremos qualidade de ensino no nosso País, porque as pessoas não querem combater às más práticas e os maus hábitos para melhorar a qualidade do ensino”, lamentou a única doutora em matemática em Angola.

Maria de Natividade fez saber que em Abril de 2019, Angola vai organizar um espaço de educação matemática, no âmbito da União Africana de Matemática, onde ela é a coordenadora.

“A União africana vem falar sobre a matemática em África. E também por isso estou preocupada com o curso de matemática que se vai estragar. Não existe, no mundo, universidade que goste de baixar o nível da qualidade de ensino, mas, infelizmente, em Angola isso aconteceu”, lamentou a também secretaria da Comissão de Educação Matemática em Africa da União Africana de Matemática. (Novo Jornal Online)

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