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Dança: fonte de diálogo na tradição Côkwe

A dança é uma arte espiritual, sensível e com significado profundo, que une o corpo, o espírito, a mente, o passado e o presente, bem como promove a identidade cultural de determinado povo.

Para o povo Lunda, as danças tradicionais são veículos culturais criados para trazer equilíbrio, cura, felicidade e alegria à comunidade, ao mesmo tempo que o liga aos poderes sobrenaturais.

Na cultura Côkwe, esta arte é o espelho da vida comunitária e do além, pois permite o diálogo com os espíritos sobre sentimentos e reflexões, bem como joga papel crucial na protecção dos descendentes desta etnia, quando abordada de forma apropriada, através de máscaras e pintura.

Muanangana Muatxicuata, regedor e instrutor de dança folclórica, afirma que, para o efeito, se recorre ao Ngoma, Ndjimba, Txissaji, Txikuvu (tambores/batuque).

Puita e Calialia são os principais instrumentos musicais utilizados pelos grupos tradicionais de dança e música, usados para as cerimónias religiosas, fúnebres, recreativas e comemorativas.

Os tocadores destes instrumentos, que são aquecidos periodicamente ao fogo para retesar a pele, imprimem um ritmo frenético que resulta num som contagiante, arrastando os bailarinos, sobretudo as mulheres, para os maiores excessos de sensualidade, desdobrando em formas corporais provocantes de movimentos circulares.

Os Akixi/Muquixi (palhaços), também indispensáveis, são as figuras mais importantes para qualquer cerimónia ritual ou manifestação cultural.

Dentre as danças tradicionais na região Lunda, destacam-se Miting, Txichimba, Tchianda, Tchissela, Ulengo, Macopo, Chombe e Mungongue, presentes em cerimónias de simples diversão, magia e em diversos rituais.

Tchianda: dança que caracteriza e identifica etnia Côkwe

Segundo Adolfo Muetxeno, executor de Ngoma e professor de dança profissional no Mucanda, a Tchianda é uma dança recreativa e comemorativa, usada para a recepção de grandes entidades governamentais ou tradicionais, em determinada aldeia, como forma de saudação, agradecimento e demonstração da felicidade da comunidade visitada.

Ela é também praticada durante a festa do Mucanda, ou seja, no dia da saída dos adolescentes da circuncisão, uma festa na comunidade para a recepção dos rapazes que ficam um ano fora dos pais, acampados na mata, sob controlo do tchumba cambungo (guardião do Mucanda).

Foi criada pelas mulheres, com o Txissela e o Ulengo (outras danças comemorativas e recreativas), para celebrar a maturidade do filho que passa da adolescência para a fase adulta, cujos bailarinos usam na cintura a Mafunha e o Mwia (panos enrolados), bem como mazombo.

Danças para cerimónia fúnebre do rei Lunda

Quando um rei morre, de acordo com o soba Alberto Muatxixi, utiliza-se o Muxeta e Mungonge, para afugentar os maus espíritos, num ritual em que os bailarinos, seminus, se manifestam com os rostos maquilhados com argila e carvão.

Muxeta e Mungongue: utilizadas para expulsão de demónios/feitiço

Estas duas danças, segundo Muanangana Muatxicuata, são utilizadas pelos kimbandeiros “tchimbanda”, para receber feitiço.

Durante o ritual público, o tchimbanda é acompanhado dos seus pupilos com uma coreografia, aliada à dança e às canções, a fim de forçar o feiticeiro, através dos espíritos invisíveis, a entregar a bruxaria.

Txiqueno e Catxatxa

O também regedor do bairro Txizainga disse tratar-se de danças utilizadas por grandes soberanos em festas tradicionais, como a investidura do rei, Mucanda e outras.

Cultura Côkwe: passado e presente

No passado, conforme a historiadora Maria Baza, os eventos mais importantes na comunidade Côkwe ocorriam duas vezes por ano, um festival de máscaras interpretado pelos muquixi (palhaços), seguidos de mulheres e crianças, vestidos com panos e com o corpo pintado.

O responsável acrescenta que antigamente as autoridades tradicionais promoviam, nas comunidades, noites de lazer denominada “txissela”, para preservar o folclórico Lunda, durante a qual, numa grande roda, ao som do Ngoma, Ndjimba, Txissaji, Txikuvu (tambores/batuque), Puita e Calialia, homens e mulheres se desdobravam em formas corporais provocantes de movimentos circulares.

Outros aspectos artísticos de grande dimensão cultural do povo Côkwe, de acordo com a historiadora, eram a exibição do Muquíxi Txikuza e Muquíxi wa Muanangana (ligados às cerimónias de investidura dos grandes chefes tradicionais).

Actualmente, fruto da globalização e aculturação, estes actos de manifestação cultural deixaram de ser praticados nas comunidades rurais, por ausência do Mucanda, jangos e outros espaços.

A académica lamenta o facto de as danças tradicionais estarem a desaparecer nos últimos tempos, como consequência de as autoridades afins deixarem de desempenhar os seus verdadeiros papéis nas comunidades, que é a transmissão de conhecimentos aos jovens.

Maria Baza defende a necessidade de se reactivar os “tchotas”, jangos e Mucanda (circuncisão), por serem escolas profissionais onde os adolescentes, ao longo de um ano, aprendem artes e ofícios, como dançar, tocar e fabricar instrumentos musicais, entre outras.

Considerou, igualmente, necessária a promoção de festivais de danças e músicas tradicionais, para o resgate da mística do povo Lunda, em termos culturais.

Papel da Casa de Cultura

Para melhor responder às necessidades dos agentes culturais e das comunidades, o Gabinete Provincial da Cultura poderá contar, brevemente, com uma Casa da Cultura que comportará galerias para a exposição de peças artesanais, materiais de música rústica/tradicionais, uma sala de teatro, três para aulas de artes, um estúdio de gravação regional e uma área de lazer para os alunos e visitantes.

Para promover, valorizar e divulgar mais os ritmos da região, o Governo local, através do Gabinete da Cultura, perspectiva ainda a construção de uma escola para a formação de artistas, criação de um festival regional de música e dança folclórica.

O sector prevê, ao mesmo tempo, promover actividades culturais nas comunidades, incentivar os executores e fabricadores dos instrumentos tradicionais, bem como reactivar os “Tchotas” (jangos) e o Mucanda (principal escola de arte tradicional do povo Lunda). (Angop)

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