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Teorias da conspiração sobre Soros tornaram-se um fenómeno global

Cartaz do Governo húngaro contra George Soros em Budapeste. (LASZLO BALOGH REUTERS)

O gestor financeiro e filantropo é alvo de múltiplas campanhas, cada vez maiores, que o apresentam como líder de uma suposta ameaça liberal e migratória

Bastava uma palavra para que o comentário corresse como pólvora pelo Twitter há um mês das eleições legislativas nos Estados Unidos: Soros. As mensagens têm um link para um artigo do jornal The Washington Post sobre a caravana de migrantes de Honduras, mas são parecidas com outras espalhadas já em março com a hashtag #GeorgeSoros. As histórias que circulam pelas redes sobre o magnata de origem húngara não têm precedentes. Contas como as de LorettadeProle, WhoWolfe, LibertyBell100, OneNewsNow, WorldNetDaily e [your]NEWS alimentam essa voragem de mentiras que o apontam como o ogro que orquestra a “força invasora”.

Seguindo o rasto dos tuítes encontramos outros usuários que apresentam o octogenário megainvestidor como um antigo colaborador nazista para dizer que está por trás do protesto de Colin Kaepernick, o jogador de futebol americano que se ajoelhou enquanto era tocado o hino do país em 2017, ou que financia as manifestações contra Donald Trump. As mensagens, potencializadas pelo alto-falante dos comentaristas da Fox News e pelo próprio presidente, retratam Soros como uma força diabólica que alimenta as causas progressistas.

No Brasil, Soros já foi criticado por correntes antagónicas. A esquerda o via com desconfiança por sua atuação como especulador em moedas internacionais. Já os ativistas de direita o acusam de ser “esquerdista” por financiar ONGs de defesa de direitos humanos, como os institutos Sou da Paz e Igarapé, e veículos de investigação jornalística, como a Agência Pública.

O presidente Donald Trump chegou a tuitar, sem apresentar provas, que as mulheres que protestaram contra os senadores na recente e polémica nomeação de Brett Kavanaugh como juiz da Suprema Corte foram “pagas por Soros”. Essas histórias, amplificadas por congressistas como os republicanos Louie Gohmert e Matt Gaetz, levaram Cesar Sayoc a incluir Soros na lista de destinatários das cartas-bombas que enviou durante a última campanha eleitoral. Algo similar aconteceu com Robert Bowers, o autor do massacre em uma sinagoga de Pittsburgh, que afirmou que o filantropo judeu era um dos que apoiavam a caravana de migrantes.

No Facebook, circularam nos últimos dias em grupos considerados pró-Trump comentários que sugeriam que George Soros deveria ser classificado de terrorista. As redes sociais transformaram assim a tênue brisa que corria pelos cantos mais sombrios da Internet em um furacão. Bastaram cinco dias para que a manipulação alcançasse grande parte da opinião pública.

E tudo isso ganha corpo coincidindo com o aumento das mensagens antissemitas na Europa e nos EUA. Ser sobrevivente do Holocausto não eximiu Soros de ser alvo de comentários que o acusam de ter virado as costas para os judeus quando era adolescente, para assim poder escapar para o Reino Unido (nascido com o nome de György Schwartz em Budapeste, em agosto de 1930, o próprio Soros contou que sua família falsificou sua identidade para evitar os campos de concentração).

Por que toda esta fúria concentrada em uma só pessoa? A voracidade especulativa que permitiu que Soros acumulasse uma fortuna familiar calculada em 25 biliões de dólares (93 biliões de reais) o colocou no centro de todo tipo de teorias da conspiração. Ele tirou proveito de momentos de grande tensão nos mercados. Dessa forma, tornou-se mundialmente conhecido ao pôr de joelhos o Banco da Inglaterra com seu ataque à libra esterlina, em 1992. Também é acusado é ter alimentado a crise financeira que castigou a Ásia cinco anos depois.

Especulador e filantropo~

Pela sua maneira de explorar o grande casino do capitalismo, o fundador do Quantum Fund é considerado o segundo melhor gestor de todos os tempos em Wall Street. Mas também cultivou um lado filantrópico. Seu papel como mecenas começou em 1979 com a criação da organização sem fins lucrativos Open Society Foundations, cuja primeira ação foi dar bolsas a estudantes negros na África do Sul. Soros canalizou centenas de milhões de dólares para campanhas de oposição a ditadores e autocratas da África, Ásia e Europa Oriental. Também se comprometeu a apoiar programas que ajudam a pessoas como ele, que tiveram de escapar da opressão.

O seu ativismo o colocou como alvo de muitos conservadores no mundo todo. Durante os anos noventa, começou a atuar também nos EUA, onde suas ações em defesa do aborto, da legalização da liamba para uso medicinal, do casamento gay e das políticas contra a mudança climática lhe renderam mais de um inimigo. Suas posições políticas, abertamente contrárias a George W. Bush e Donald Trump, e seu apoio à campanha de Hillary Clinton também não lhe trouxeram muitas amizades.

A Open Society nega que George Soros tenha qualquer ligação com a caravana hondurenha. Além disso, lembra que o ativista e filantropo é a favor de reduzir a imigração ilegal reforçando as fronteiras externas e estabelecendo cotas anuais de refugiados, algo que expressou em alguns artigos que publicou durante a crise migratória europeia. “A retórica de ódio que domina a política alimenta o extremismo e a violência”, afirma a fundação. Seu presidente, Patrick Gaspard, diz que George Soros se ofereceu para ir à Fox News para rebater essas acusações, mas a TV não aceitou. “É desmoralizante, mas não paralisante”, afirma Gaspard.

Na Europa, Soros também foi acusado de estar por trás da chegada de migrantes. “Ele é um dos exemplos mais fortes daqueles que apoiam tudo que enfraquece os Estados-nação”, disse o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, em entrevista a uma rádio em 2015. “Esses ativistas que apoiam os imigrantes se tornam, inadvertidamente, parte das redes de tráfico de seres humanos”, acrescentou. O Governo da Hungria, de tendência autoritária, aponta Soros como um dos grandes males do país porque, segundo Budapeste, ele quer intervir na polícia interna.

Utopia liberal
Soros foi acusado de tentar “islamizar” a Europa com sua utopia liberal. O Governo húngaro promoveu até uma campanha em que Soros aparecia em montagens fotográficas como “amigo” dos políticos da oposição. Além disso, a mudança de uma lei forçou a Central European University, uma instituição de prestígio financiada por Soros em Budapeste, a transferir grande parte de seus cursos para Viena. Na Rússia, sua fundação foi expulsa em 2015, após ser classificada de “indesejável”.

O certo é que Soros está acostumado às conspirações. A Internet está cheia de publicações que afirmam que ele esteve por trás da Primavera Árabe, do Occupy Wall Street, da Revolução de Maidan, na Ucrânia… O locutor de rádio americano Alex Jones, um dos favoritos de Trump, vinculou o megainvestidor com “a tomada do Ocidente pelos muçulmanos”. Mas essas conspirações nunca estiveram tão no centro do poder político como agora. (El País)

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