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Prestígio musical e nobre distinção de Waldemar Bastos

Quando contava apenas seis anos de idade, Waldemar Bastos foi surpreendido pelos pais a trautear canções de adultos, uma prática que foi revelando a sua prematura propensão para a música.

A condição profissional do seu pai, Carlos de Almeida Bastos, enfermeiro, provocou constantes transferências e deslocações da família para diversas províncias de Angola na época colonial. Por esta razão, o cantor e compositor viveu em Mbanza Kongo, Luanda, Cabinda e Huambo, locais onde foi possível o contacto e absorção de várias aprendizagens culturais, factores que se revelaram de suma importância no processo de criação artística e construção da sua longa carreira musical.

De facto, a absorção da cultura musical luandense, plasmada em canções emblemáticas como “Velha Chica” e “Mungueno”, foi possível graças a frequência, no início dos anos sessenta, nos ambientes de tertúlia dos bairros Marçal e Indígena. Deste tempo, Waldemar Bastos recorda com visível nostalgia, a velha Maricota, a Chiló, uma mulher que jogava futebol de bairro e os mais velhos Sá Lemos, Lutero da Popa, Pedro Benje e Mário Campos, os dois últimos muito chegados, pela amizade, ao seu pai.

Estávamos numa época de forte repressão colonial, 1961, e Waldemar Bastos ainda tem gravadas na memória as rusgas, prisões e deportações dos nacionalistas angolanos, factos que despertaram nele, enquanto compositor, um forte sentimento de pertença aos pressupostos culturais da angolanidade e de emancipação à cultura portuguesa.

Em Cabinda, com oito anos e, curiosamente, num processo de auto- aprendizagem, Waldemar Bastos tomou contacto, primeiro com a concertina, instrumento diatónico gaulês cuja construção é semelhante a de um acordeão, note-se que o pai foi acordeonista e organista no seminário católico, depois com o acordeon, levando a optar, definitivamente, pela popularidade da guitarra eléctrica, formando a banda “Jovial” com Carlitos Freitas, guitarra ritmo, Lúcio Bastos, baixo, Faísca, bateria, e Fernanda Gomes, guitarra ritmo, seu primeiro grupo musical com alguma consistência artística.

Influências
Waldemar dos Santos de Almeida Bastos, nascido a 4 de Janeiro de 1954, pode ser considerado, numa visão distante e inclusiva, produto da genealogia musical de Mbanza Kongo, que, além da tradição artística de São Salvador do Congo, que vem de Manuel de Oliveira, passa pelas tertúlias musicais dos musseques de Luanda, dos contagiantes ritmos de Cabinda, do lirismo poético da musicalidade do Huambo, pelos movimentos “rockificados” dos então denominados “Conjuntos de Música Moderna”, incluindo as influências das sublevações estudantis pacifistas de Maio de 1968.

Destaque também para as influências da soul music com os Jacksons Five, The Shadows, Nat King Cole e Otis Reding, Waldemar Bastos recebeu do pai a influência da música sacra, visível no registo expressivo da sua portentosa voz, que depois a veio emprestar, ainda em Cabinda, ao grupo “The Kings”. No Huambo, em 1968, tocou com o Zé Maria e Rui Carlos, pai da jovem cantora angolana Bruna, nas bandas “Quarta Dimensão”, “Orquestra do Ferrovia” e “Outra face”.

Prisão
Em 1972 Waldemar Bastos foi preso pela PIDE, aos 17 anos de idade, sob acusação de “actividades subversivas e mau comportamento”, comentou, angustiado, o músico. Os pais presos e os irmãos na frente de combate, durante o recuo para Luanda em consequência da guerra no Huambo, e o apelo da avó, mãe do pai, autora dos versos “Filho não fala política, cuidado onde vais…”, foram ingredientes mais que suficientes para a criação da canção, “Velha Chica”, um tema que viria a ser gravado no seu primeiro álbum, “Estamos juntos” (1983).

Quarteto
A necessidade de ressuscitar a dimensão telúrica da musicalidade luandense, e a partilha de uma estética concretizada na trova, foram os principais motivos do surgimento de um quarteto de cordas (quatro guitarras), em 1976, com os guitarristas Massangano, Quental e Marito. Foram sucessos deste quarteto, as canções “Velha Chica e “Mungueno”, de Waldemar Bastos, e clássicos conhecidos da Música Popular Angolana.

Projecção
Waldemar Bastos ganhou, em 1977, o grande Prémio da Canção, num concurso promovido pelo Ministério da Cultura de Angola e participou em diversos festivais realizados em países do leste europeu e em Cuba. Integrado, em 1982, numa delegação artística angolana ao FITEI, Festival Internacional de Expressão Ibérica, em Portugal, Waldemar decidiu permanecer em Lisboa e depois em Berlim, acabando por gravar, no Brasil, o álbum em vinil “Estamos juntos”, apadrinhado pelo cantor e compositor brasileiro Chico Buarque de Holanda, com participação dos cantores João do Vale e Martinho da Vila, músicos que estiveram em Angola integrados no Projecto Kalunga, em 1981, a maior caravana de músicos brasileiros vinda a Angola. De volta à Europa, passou por França, país que, segundo Waldemar, é o mais acolhedor para a música proveniente do universo linguístico africano, sobretudo o francófono. Na sequência, decidiu permanecer em Portugal “onde fica a capinar sentado”, palavras de Waldemar Bastos, até que gravou os álbuns “Angola, minha namorada”, 1990, e “Pitanga Madura”, 1992, dois discos editados pela Valentim de Carvalho, “Pretaluz” (LuakaBop, 1997), “Renascence” (WorldConnection, 2004, “Loveisblindness”, 2008, “Classicsofmy soul”, 2012.

Internacionalização
Milagrosamente surgiu o cantor norte-americano David Byrne, ex-Talking Heads, que se apaixonou primeiro pela capa do CD “Angola, minha namorada” e depois pela música “Ngana”. Era o início de uma nova caminhada e motivo suficiente para gravação, nos Estados Unidos da América, do álbum “Pretaluz”, 1998, pela editora LuakaBop, de David Byrne, com produção de Arto Lindsay. Questões ligadas a uma deficiente promoção e distribuição do CD “Pretaluz”, estiveram na causa da rescisão do contrato com a LuakaBop. Na sequência, Waldemar Bastos abraçou os préstimos da editora “World Connection”, e gravou o CD “Renascence” que, segundo Wademar, “é um álbum que revela a profundidade da alma africana e, consequentemente, angolana”. (Jornal de Angola)

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