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Cancro da mama assusta mulheres e exige resposta rápida

Os números assustam os especialistas no país, mas a resposta é cada vez mais urgente para travar a incidência do cancro da mama. O caso não é para menos: cinco em cada 70 mulheres consultadas em Angola são diagnosticadas com esta patologia silenciosa.

Segundo o Instituto Angolano do Controlo do Cancro, novecentas e quarenta e nove mil 284 mulheres do universo de 13 milhões 289 mil 983 têm cancro da mama. As autoridades sanitárias reconhecem que os números oficiais não reflectem sobre a realidade do país, face às dificuldades e à falta de informação da sociedade acerca das formas de rastreio e acompanhamento da doença.

Em 2017, o Instituto registou 262 casos novos de cancro da mama e, desde o início deste ano, a lista já inclui 195 mulheres. Enquanto as autoridades buscam respostas para travar um dos principais “pesadelos” do género feminino no presente século, o passado deixa um alerta.

Só nos últimos cinco anos, a instituição registou mil 286 novos casos, o que representa 21 por cento de todos os atendidos na unidade de nível terciário. Hoje, esta doença é a responsável principal da morte precoce de mulheres abaixo de 60 anos.

Exemplos de superação e fé

O medo do resultado dos exames e a resposta da sociedade, além da quebra da auto-estima, assombram as decisões de quem por ironia do destino está no caminho de encarar a verdade indesejada.

Foi assim que Verónica Pemba, funcionária pública de 37 anos, descobriu a doença durante uma consulta de ginecologia, num exame de rotina. A médica identificou um nódulo na mama esquerda e, para certificar do que se passava, solicitou biopsia.

Mas, por medo do resultado, Verónica levou três meses até ganhar coragem para realizar o exame. Poderia ter sido pior para ela, devido a esta atitude errada (de muitas anónimas em Angola e no mundo), já que os especialistas recomendam que, quanto mais cedo se diagnosticar, maior é a possibilidade de cura.

“O que hoje sei é que foi um grande erro da minha parte, porque, quanto antes iniciarmos o tratamento, as hipóteses de cura são maiores”, reconhece.

Chegou a pensar no suicídio, após receber os resultados positivos. Venceu há sete anos o cancro e superou os momentos da angústia. Firme, acredita no tratamento, nos cuidados e nas informações dos médicos sobre a enfermidade.

Determinada, Verónica conseguiu graças ao suporte espiritual e familiar, aliada à cirurgia de sectorização e à retirada de um nódulo sentinela na axila.

Conta que a fase mais visível foi a de quimioterapia, acompanhada pela queda de cabelo. “Depois de tanto sofrimento, venci o cancro. Só foi possível porque o diagnóstico ocorreu precocemente. Aconselho as mulheres, em caso de suspeita, a procurarem imediatamente por médico”.

Exemplo de vitória também teve a ex-empregada doméstica Antónia Bernardo, de 40 anos, que há seis anos enfrentou o mal, devido a uma alteração do bico da sua mama.

“As informações vinham homeopaticamente. Quando se detectou a doença, foi uma tristeza. Fiquei sem chão e pensei em morte, na hora”, confessa.

Preocupada com a vaidade abalada, viu-se embaraçada, sem a mama direita e, para piorar, o cabelo caiu. “Eu tinha o meu corpo completo e os cabelos imensos. E, de repente, perdi-os! Revoltada, segui e procurei conviver com isso”, revela.

A família e os amigos foram fundamentais para ter força interior e lutar pela vida, bem como cuidar dos filhos. “Tinha de ficar de pé pelos meus filhos que precisam da minha ajuda. Por isso, enfrentei momentos de muitas dores, no silêncio”.

Antónia Bernardo ficou sem andar, por falta de força nas pernas. “Estava com constantes vómitos, porque a quimioterapia é uma acção muito forte, elimina as células de rápido crescimento e afecta as saudáveis”, relata, acrescentando que teve sorte no tratamento e agora está sob alerta para qualquer alteração no corpo.

Batalha contra pesadelo

Confiantes em desfecho feliz, estão sob acompanhamento e tratamento do cancro da mama outras mulheres, dentre as quais Djanira Weza (55 anos), Kátia Andrade (32) e Frausia Cacueta (38).

Djanira, aposentada, descobriu a doença há mais de oito meses e é seguida há quatro. Já fez a cirurgia e perdeu a mama. Sente-se estranha e não consegue vestir-se diante do seu parceiro.

“Sinto-me mutilada, mas tenho todo o apoio e compreensão do meu marido. Felizmente, ajuda-me e acompanha-me no tratamento”, emociona-se.

Por sua vez, as estudantes universitárias Kátia e Frausia vivem “momento desesperador”. As duas estão na fase de quimioterapia, após a cirurgia que retirou a mama.

A descoberta cruel aconteceu há poucas semanas, mas possuem uma história de sofrimento comum. Kátia e Frausia temem o pior. Consideram que estão na fase inicial do tratamento e ainda não perderam o cabelo.

Em contrapartida, no meio dessas sensações de medo, sobretudo com a possível queda do cabelo, estão preparadas. “O pior está por vir. Estou pronta para o que der”, desafia Kátia, enquanto Frausia remata: “o importante é ficar curada”.

Sensibilização e diagnóstico precoce

A oncologista Albertina Manaça, do Instituto Angolano do Controlo do Cancro, defende que a sensibilização e a disseminação da informação sobre a importância da prevenção e diagnóstico precoce são os melhores métodos para evitar o pior.

Outubro é o mês dedicado às acções de prevenção, sensibilização e divulgação de mais informações sobre o cancro da mama. “Se o diagnóstico for feito cedo, há muitas possibilidades de o curar”, aponta Albertina Manaça.

A implementação destas medidas tem demonstrado a redução das mortes causadas pela doença, e os especialistas sugerem que a sua execução requer o envolvimento do Governo e da sociedade civil.

Quanto ao aumento de casos novos, a especialista recomenda às mulheres em idade fértil para apalparem regularmente as mamas, a fim de identificar nódulos que podem indiciar o aparecimento do cancro.

Na perspectiva da médica, o auto-exame ajuda a diagnosticar precocemente o cancro da mama e pode evitar a evolução. Apesar dos apelos, a realidade mostra comportamento oposto das mulheres.

A maioria chega ao Instituto já em estado muito avançado, o que fragiliza o sucesso da intervenção médica.

Para mudar o cenário actual, mormente em Outubro, as autoridades intensificam as campanhas de sensibilização e mobilização a todos os níveis, através de palestras nas igrejas, empresas, mercados e nos locais de maior concentração populacional.

A esperança passa por vencer este conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células invasoras dos tecidos e órgãos, podendo evitar que se espalhem para as outras regiões do corpo.

Em contrapartida, a especialista tranquiliza a sociedade. Afinal, nem tudo é maligno. Nalguns casos, o que se regista é a presença de tumor benigno (massa localizada de células que se multiplicam e se assemelham ao seu tecido original), sem representar necessariamente risco de morte.

Albertina Manaça explica que a maioria dos casos de cancro (80 por cento) está relacionada com o meio ambiente. Encontra-se um grande número de factores de risco, provocado pelo próprio homem, cujos hábitos e estilo de vida adoptados podem determinar diferentes tipos de cancro, nomeadamente o tabagismo, o alcoolismo, os hábitos alimentares, sexuais, medicamentos, ocupacionais, entre outros.

Alimentação saudável na prevenção

O combate a este mal junta várias forças, entre as quais a alimentação saudável, defendida pela nutricionista Denise Sampaio, do Hospital do Prenda. E mais…não basta só o auto-exame.

“É necessário também um cuidado especial com a alimentação, para prevenir o carcinoma mamário. E o primeiro passo é manter uma dieta equilibrada”, reforça.

Considera importante o consumo de vegetais, frutas, grãos integrais, gorduras saudáveis, carnes magras e evitar produtos industrializados, designadamente, gorduras saturadas e ingestão de bebidas alcoólicas.

Segundo a nutricionista, o estilo de vida influencia, é um factor de risco no desenvolvimento da doença e cerca de 30 a 40 por cento dos casos estão directamente ligados à alimentação inadequada, à falta de actividade física, ao excesso de peso e a agentes químicos, como o tabaco.

Estudos mostram que uma dieta pobre em grãos, vegetais, frutas e peixes e em carne processada tem impacto no desenvolvimento do cancro da mama. Os dados apontam para o facto de que esta doença poderia ser evitada com mudanças simples no estilo de vida.

Mas atenção: “nenhum alimento sozinho é capaz de evitar o cancro, mas a combinação de uma alimentação equilibrada, com alguns alimentos antioxidantes, pode estimular o sistema imunológico para a sua prevenção”, adverte Denise Sampaio.

Atenção prioritária das autoridades

A magnitude da doença já constitui “problema de saúde pública”, e as autoridades reconhecem que o assunto merece “atenção prioritária”. Isilda Neves, directora Nacional da Saúde Pública, defende o programa de controlo do cancro ligado aos já existentes para a prevenção da doença, sobretudo orientações técnicas para apoiar as unidades sanitárias.

Reconhece o dever do Governo na melhoria das condições dos cidadãos, mas sublinha que o combate do cancro está nas mãos de cada um, com recurso a métodos preventivos.

Enquanto as autoridades procuram soluções para impedir a progressão da pandemia, com o despertar das mentalidades da sociedade, aponta-se a falta de especialistas para atender à procura. O acesso rápido dos doentes ao tratamento encontra entraves por exiguidade de quadros.

O Instituto Angolano do Controlo do Cancro possui 20 especialistas em Oncologia (para mais de 25 milhões de habitantes do país). E, a propósito disso, o presidente do Conselho Nacional de Especialização e Pós-Graduação, Mateus Miguel, diz que o número não responde às necessidades actuais.

O responsável sugere a criação de um programa de cadastramento para se saber exactamente o número de especialistas em Angola, bem como a admissão de mais médicos neste sector.

Dados recentes indicam que o cancro da mama em África mata pelo menos 450 mil pessoas anualmente, e as previsões da Organização Mundial da Saúde (OMS) são pessimistas. Estima-se que até 2030 este número chegará a um milhão.

O Uganda, com 46 por cento, a África do Sul e Angola (21) e a Gâmbia (12) estão entre os países africanos com maior percentagem de cancro da mama.

A OMS, para diminuir o impacto negativo desta enfermidade, passou a recomendar a todos os países a necessidade de implementarem programas de prevenção e controlo, baseados na redução da exposição aos factores de risco, rastreio pela mamografia, exames clínicos e auto-exame. (Angop)

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