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Relação de Portugal com Brasil seria “necessariamente má” com Bolsonaro no poder

O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira considera que se o candidato extrema-direita brasileira vencer as eleições, as relações entre os dois países vão degradar-se.

O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB), Francisco Murteira Nabo, diz que a relação entre Portugal e o Brasil, com o candidato de extrema-direita brasileira, Jair Bolsonaro, no poder, “terá de ser necessariamente má”.

“Eu não sei o que vai acontecer em Portugal nos próximos anos, mas hoje é dos países mais evoluídos democraticamente na Europa, portanto uma relação deste Governo, ou de outro qualquer em Portugal, com o Brasil com Bolsonaro [que lidera as intenções de voto das eleições presidenciais brasileiras marcadas para Outubro] no poder terá de ser necessariamente má”, afirmou Murteira Nabo, ex-ministro de executivos do Partido Socialista e ex-presidente da Portugal Telecom, em entrevista à Lusa.

O agora presidente da CCILB diz estar “muito preocupado com o Brasil em termos políticos”, mas também em termos económicos, pelo que defende que os candidatos às presidenciais brasileiras com algumas afinidades políticas se deveriam juntar, para fazer convergir votos e evitar uma eleição de Jair Bolsonaro.

“Acho que seria bom que os candidatos à presidência do Brasil, que têm alguma afinidade se juntassem e evitassem a vitória do Bolsonaro, porque se este ganhar é um desastre para a América Latina e para o Brasil”, defendeu.

Considerando que o risco do candidato da extrema-direita vencer no Brasil tem a ver com a dispersão dos votos, Murteira Nabo, refere que qualquer dos candidatos de centro-esquerda a “ganharem a liderança” podem permitir “uma solução combinada de sustentabilidade e distribuição de riqueza”, que o Brasil precisa.

Bolsonaro no poder “seria um perigo, é a vitória do nacionalismo. Já há ‘bolsonaros’ noutros países da América Latina e se a gente deixa que os líderes nacionalistas se espalhem por toda a América Latina é o fim da América Latina”, afirmou.

O presidente da comissão executiva da CCILB lembra uma “época de grande prosperidade do Brasil, que foi a do Presidente Fernando Henrique Cardoso”: “Instalou uma grande estabilidade no país, que permitiu que ele crescesse”.

Hoje, considera, o Brasil vive uma situação de “insegurança e de instabilidade política tal, que já tem efeitos na economia”.

“O Brasil já (…) não está a crescer. O comércio externo, que era superavitário, passou a deficitário este ano, o desemprego é de 12% e a insegurança é brutal”, afirma.

Portanto, considera, “ou o Brasil consegue alcançar uma situação estável que garanta que o país pode voltar a ser encarado como um sítio onde as pessoas podem voltar a trabalhar ou a investir, ou “o Brasil vai continuar nesta situação, muito grave, que poderá levar, infelizmente, a (…) um regime autoritário”.

Na opinião do ex-ministro de governos socialistas, “era preciso que o Presidente eleito e o Governo futuro garantissem duas coisas: sustentabilidade económica simultaneamente com uma política de distribuição de riqueza grande. Na Europa isso chama-se social democracia tipo nórdica”.

Acrescenta que os países emergentes, dentro de 30 anos, vão representar 50% do Produto Interno Bruto mundial e os dos ocidente cerca de 20%, pelo que o tempo é de mudança: “Vai inverter-se a tendência actual. E na economia de blocos, o bloco que tem maior potencial de desenvolvimento e crescimento é o da América Latina”, conclui.
Câmara de Comércio Luso-Brasileira recebe dois a três empresários brasileiros por dia

O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, Francisco Murteira Nabo, diz que aquela entidade está a receber, em Portugal, diariamente, dois a três empresários vindos do Brasil à procura de oportunidades de negócio e parceiros portugueses.

Em entrevista à agência Lusa, Murteira Nabo defende tratar-se de uma oportunidade para Portugal, e para a câmara, se a conseguirem agarrar. “Há aqui uma oportunidade, se conseguirmos agarrá-la, para desenvolver outro tipo de investimentos”, que Portugal precisa, salienta o também antigo gestor de grandes empresas portuguesas.

Contudo, reconhece, “até agora, a maior parte dos empresários que tem vindo é à procura de soluções pouco concretizadas e mais na área da comercialização de produtos produzidos no Brasil e não de investimento”, com valor acrescentado. Porém, na sua opinião, “é uma oportunidade única para conseguir fixar em Portugal investimentos.”

Para isso, defende, é preciso que haja estímulos, como fundos comunitários: “Eles procuram soluções que tenham acesso a fundos europeus, por isso se aliam preferencialmente a empresas fora de Lisboa, com mais facilidade de acesso aos fundos europeus. E, por outro lado, é preciso que a nível político se faça uma coisa, que é falada de vez em quando, que é ver como podemos reter estes dinheiros cá, ou seja, que projectos lhes podemos dar de forma a que invistam cá”, explica.

Quanto ao investimento com “valor acrescentado”, em termos de indústria, “ainda vai demorar algum tempo”, admite.

Agora, recorda, “houve uma altura em que as relações económicas eram muito Portugal/Brasil, de grandes investimentos portugueses no Brasil, e este país nunca foi um grande investidor externo”.

Neste momento, afirma, “é ao contrário. Por razões de insegurança (…), por razões de crise política no Brasil, que teve consequências a nível económico, hoje grandes e pequenos empresários brasileiros estão a vir a Portugal procurando fazer aqui uma base para poderem internacionalizar as suas empresas”.

Segundo o também antigo presidente de empresas como a Portugal Telecom e a Galp, duas das primeiras a fazer investimentos naquele mercado na década de 90, “algumas grandes marcas brasileiras que nós não conhecemos, como de cosméticos e também da agro-indústria, por exemplo, que disputam grandes mercados, querem vir para cá”.

A grande maioria dos empresários que procuram a câmara, diz, por razões de segurança, trazem a família, os seus recursos e procuram uma parceria em Portugal para constituírem no mercado nacional uma subsidiária ou uma base comercial, e depois exportar para a Europa, usando fundos comunitários para desenvolver negócios na Europa, “o que é uma coisa relativamente nova”.

“Nós estamos a receber na câmara por dia dois a três empresários à procura de soluções de parcerias, procuram-nos como uma porta para tentarem saberem quem pode ser um parceiro, uma rede de contactos”, afirma.

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira está ligada à AICEP — Agência para o Comércio Externo de Portugal e às embaixadas, por isso funciona como uma rede de contactos. Por outro lado, está também ligada às Câmaras de Comércio Portugal Brasil que existem naquele país da América Latina (uma por cada estado brasileiro) e à Federação das Câmaras de Comércio. Há ainda uma rede de câmaras Brasil – países europeus, sediada em Amesterdão, explica o presidente da CCILB.

Mas, refere, “a Câmara de Comércio aqui não tem tido capacidade de resposta até agora para tanta solicitação. Tem 70 anos, é pequena e estava relativamente parada porque não havia grandes contactos entre Portugal e o Brasil que a obrigassem a ter uma atitude maior. Neste momento, a câmara não consegue responder. A câmara são duas pessoas”.

“O que estamos a fazer é a tentar arranjar uma forma de as pessoas não saírem frustradas da tentativa de contacto connosco, usando soluções para o que nos pedem, e isto significa parecerias com os nossos associados. Estamos a criar comissões de associados para vários sectores. Na área do imobiliário temos uma comissão, para a banca outra, por exemplo, lideradas pela nossa secretária-geral, para darem resposta aos pedidos que nos aparecem”, esclarece.

Murteira Nabo diz que a CCILB “está a viver um momento alto em termos de câmara”, mas que precisava de ter mais receitas, por contar apenas com as quotas dos seus 150 associados.

Ao mesmo tempo, a câmara vai reforçar a sua estrutura para responder a esta vaga de solicitações, porque, diz, “se não o fizermos rapidamente há uma frustração dos empresários e vão desaparecendo. Isso seria a pior coisa que nos podia acontecer, porque esta é uma oportunidade única para a câmara se desenvolver”, considera. (Observador)

por Lusa

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