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A vida no Hospital Prisão de São Paulo

Há quase dois anos que o Hospital Prisão de São Paulo, no distrito do Rangel, em Luanda, não conhecia movimento igual ao dos últimos dias. Na altura, estavam, naquele local, alguns presos do chamado processo 15+2.

Hoje é a “casa” do ex-presidente do Fundo Soberano de Angola, José Filomeno dos Santos (Zenu), do ex-ministro dos Transportes, Augusto Tomás, do director-geral do Conselho Nacional de Carregadores (CNC), Manuel António Paulo, e seu adjunto, Rui Moita, entre outros. Mais antigo “inquilino” é Quim Ribeiro, ex-comandante da Polícia Nacional em Luanda. Ismael Diogo, presidende da FESA, tornou-se até ontem no mais recente “morador” (ver última página).

A acalmia do local é interrompida às 10h00. Várias pessoas concentram-se no portão principal. É momento da visita, que vai até às 12H30. Antes, o visitante passa por um ritual rotineiro: entrega o Bilhete de Identidade, que é levado para o detido confirmar se conhece e se está disposto a recebê-lo. Se confirmado, o visitante paga 150 kwanzas e pode entrar. O tempo de permanência no interior é determinado pelo visitado e depende do número de pessoas a receber durante as duas horas e meia.

Com capacidade para internamento de 200 pessoas, a instituição presta atenção primordial aos reclusos com problemas de saúde. É o que aconteceu com as quatro últimas figuras que deram entrada ao Hospital Prisão com problemas de hipertensão. Uma fonte da unidade afirma que o quadro pode ter sido agravado pela crise emocional, devido ao impacto resultante da condição de recluso.

“Quando o detido tem uma crise emocional, isso acontece”, afirma a fonte. Acrescenta que funcionários da cadeia procuram algum preso mais próximo para levantar o moral de quem está mal.

O Hospital Prisão de São Paulo está dividido em três blocos: A, B e C. Zenu dos Santos, Augusto Tomás, Rui Moita, ex-director adjunto para a área Técnica do CNC, e Manuel António Paulo, director da mesma instituição, estão no Bloco C, que é também a área mais controlada e com segurança reforçada. Nem todos os funcionários chegam aos reclusos. A ideia, segundo a fonte do Jornal de Angola, é evitar, por exemplo, fotografias ou vídeos. Os funcionários que interagem com os reclusos são indicados pela direcção da cadeia.

Um detido ordeiro

As celas do Bloco C têm capacidade para albergar quatro reclusos cada, mas, nas que acomodam os “presos mediáticos”, apenas estão duas pessoas. Cada cela tem um televisor. O aparelho é desligado às 21H00, através de um centralizador, uma regra da cadeia, por se entender que, a partir dessa hora, o espaço precisa de silêncio absoluto.

As casas de banho das celas estão desactivadas, razão pela qual os detidos aproveitam a hora do banho de sol, cujo período é das 10H00 às 12H00 e das 16H00 às 18H00, para fazerem as necessidades fisiológicas. O recluso é quem decide o tempo que deseja ficar com o visitante. Se decidir por ficar apenas com uma pessoa das 10 às 12, pode fazê-lo. A escolha é dele.

A cadeia garante as três principais refeições, mas o recluso pode optar pela comida que vem da família. Apesar de colocados no mesmo bloco, Zenu dos Santos, Augusto Tomás, Rui Moita e Manuel António Paulo estão em celas diferentes.

A de Zenu dos Santos é contígua à de Augusto Tomás, mas não se cruzam. Quando acordam, fazem exercício matinal, tomam o pequeno-almoço e vão para o banho de sol. Mas nesse período não se encontram, porque cada um fica na sua área reservada, em função das disposições das celas. Todos estão sem a farda prisional.

A fonte do hospital fala em escassez de uniformes em todo o sistema penitenciário. “A cadeia de São Paulo não tem fardas, mas o problema é nacional”, explicou a fonte. Por isso, os quatro usam, sobretudo, roupa desportiva, ténis sem atadores e, às vezes, chinelos. Desde que deu entrada, Zenu dos Santos quase não fala com ninguém.

É o que mais visitas dispensa. É visto como um recluso reservado, de poucas palavras, mas cumpridor das orientações dadas pela direcção da cadeia. “Obedece a tudo e só fica a ler”, conta a fonte. Zenu optou pela restrição de visitas, tendo, por exemplo, se recusado a receber alguns primos.“Há muitas pessoas, algumas das quais ele não conhece, incluindo religiosos, a solicitarem visitas a Zenu. Mas ele não quer contacto com muita gente”, disse a fonte ao Jornal de Angola.

Quando tomou conhecimento das condições da cadeia, no dia em que deu entrada, foi lacónico e só dizia “sim”, “ok”, “tudo bem”, “para mim, tanto faz”. Em relação à comida, Zenu disse que podia comer a refeição da cadeia ou a que vem da família. Aproveita o período de banho de sol para ler. Recebeu da família dois livros, roupas e cobertores.

Consolo entre detidos

Por seu lado, Augusto Tomás, ex-ministro dos Transportes, faz exercício pela manhã, acompanhado de um médico, para baixar a pressão arterial. Da lista dos reclusos mediáticos é quem se apresenta mais disponível a receber todas as visitas. É também o mais conversador. No primeiro dia, enquanto criavam as condições na sua cela (colocação de um beliche e de um televisor), o ex-ministro dos Transportes ficou algumas horas na cela do músico Robertinho, este, entretanto, agora em prisão domiciliária.

Rui Moita e Manuel Paulo deram entrada com os níveis de tensão muito altos. O primeiro tinha inclusive as pernas inflamadas e a crise emocional afectou-o tanto, que chegou mesmo a ter desmaios, no primeiro dia, conta a fonte.
“Quando recuperou os sentidos, perguntou onde é que estava”. Por isso, tem recebido um atendimento médico redobrado. Os funcionários também foram pacientes a explicar-lhe que estava na cadeia. O ex-ministro dos Transportes, a pedido de funcionários, esteve ao lado de Rui Moita até este recuperar.

Manuel Paulo também tem atendimento redobrado, devido à pressão e à idade avançada, 68 anos. Por isso, a esposa pediu aos funcionários que reduzissem o número de visitas.
De acordo com um ex-recluso, sábado é dia de pelada. Durante algumas horas, os detidos formam equipas e jogam uma pelada tipo futebol de salão, para descontrair e exercitar. Portanto, hoje há jogo.

Uma cadeia cheia de “memórias”

Construída na década de 1960, pela administração colonial, a Cadeia de São Paulo foi um dos alvos da acção anti-colonial do 4 de Fevereiro de 1961, onde havia vários nacionalistas presos. Anos mais tarde, já com o país independente, a cadeia voltaria a ser muito falada, por albergar o grupo de mercenários estrangeiros que foi capturado nos confrontos pré-independência. Na altura, estiveram igualmente detidos vários membros da chamada Revolta Activa. Depois dos acontecimentos do 27 de Maio, a cadeia foi o local para onde foram encaminhados muitos dos chamados fraccionistas.

Reinaugurado em Dezembro de 2011, pelo então Vice-Presidente da República, Fernando da Piedade Dias dos Santos, depois de dois anos de reabilitação e ampliação, como Hospital Prisão de São Paulo, o estabelecimento está localizado no Município do Rangel e recebe reclusos de todas as unidades penitenciárias do país. Mediáticos foram, também, os detidos do conhecido processo 15+2, há cerca de dois anos.

Depois das obras iniciadas em 2009, o Hospital Prisão de São Paulo conta agora com novas áreas para as direcções Clínica e de Enfermagem, salas de Urgência, Raio X, Bloco Operatório, Laboratório de Análises Clínicas e Farmácia.
Os serviços, nesta unidade, são assegurados por 114 técnicos de saúde, nove médicos, 10 psicólogos clínicos, 87 técnicos de enfermagem e 15 de diagnóstico terapêutico. O Hospital Prisão de São Paulo dispõe de seis gabinetes para Consultas Externas e dois para as Urgências e área de internamento para funcionários. (Jornal de Angola)

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