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França reconhece tortura e morte durante a guerra da Argélia

O Presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu formalmente esta quinta-feira, “a responsabilidade do Estado” no desaparecimento de um militante comunista anti-colonialista durante a Guerra da Argélia, em 1957.

Macron visitou ao fim da manhã Josette Audin, viúva de Maurice Audin para “reconhecer a verdade”, como referiu Cédric Villani, matemático e deputado, que tem defendido a causa do reconhecimento das responsabilidades do Estado francês enquanto poder colonial.

“Ele vai reconhecer que a verdade é que Maurice Audin fazia parte de todos aqueles que foram vítimas do sistema”, disse Villani, próximo dos Audin, horas antes da visita de Macron.

Em comunicado, o Eliseu revelou a intenção de Macron, “tomada após vários meses de reflexão”.

“O Presidente da República decidiu que já era tempo da Nação reconhecer a verdade sobre o assunto”, refere o texto.

“Ele reconhece, em nome da República Francesa, que Maurice Audin foi torturado e depois executado ou torturado até à morte por militares que o prenderam em sua casa”, acrescenta.
Reconhecimento

Através deste caso, Macron reconhece o uso sistemático de tortura por parte do seu sistema militar durante a Guerra da Argélia nas décadas de 50 e de 60 do século XX, autorizada pelo Estado.

“Se a morte [de Maurice Audin] é, em última análise, a ação de alguns, ela foi possível graças a um sistema legalmente instituído: o sistema de prisão-detenção, implementado em apoio aos poderes especiais confiados por via legal às Forças Armadas de então”, refere o Eliseu.

O Presidente francês ordenou ainda que os arquivos relativos a todos os desaparecidos sejam tornados públicos, para que as famílias e os historiadores saibam o que lhes aconteceu.

“Uma autorização geral por decreto ministerial será dada para que todos – historiadores, famílias, associações – possam consultar os arquivos de todos os que desapareceram na Argélia”, refere o texto divulgado pelo Eliseu. “Estamos a colocar no centro a questão dos desaparecidos”, acrescenta.
O caso Audin

Maurice foi levado de casa em 11 de junho de 1957 durante a batalha de Argel, por paraquedistas. A detenção ocorreu diante da sua mulher e dos três filhos, com três anos, com 11 meses e com 1 mês.

O jovem francês tinha 25 anos, era matemático e assistente na Universidade de Argel, um militante comunista francês comprometido com a independência argelina e suspeito de abrigar membros da célula do Partido Comunista argelino.

Foi “raptado, sequestrado, torturado e executado”, afirmou Emmanuel Macron. A tortura realizou-se em El Biar, um edifício em construção em Argel que os militares tinham convertido em centro de interrogatórios.

Dez dias depois de ser levado, a sua mulher, Josette, foi informada que ele se tinha evadido durante uma transferência, uma história denunciada um ano depois por pesquisadores.

Essa foi a versão oficial até 2014, altura em que o então Presidente francês François Hollande, reconheceu que “o sr Audin não se evadiu”, mas que tinha “morrido sob detenção”.

Hollande, socialista, não quis ir mais longe. Nicolas Sarkozy nunca respondeu à carta enviada ao Eliseu por Josette, hoje com 87 anos.

Jacques Chirac, voluntário da Guerra da Argélia, e François Miterrand, ministro da Justiça no Governo Guy Mollet na altura do “desaparecimento” do matemático, guardaram igualmente silêncio.

O desaparecimento de Maurice Audin foi um dos mais misteriosos da Guerra da Argélia e tornou-se símbolo de todos os desaparecidos de então após detenção militar.
A revolta da Argélia

Macron tem revelado vontade de mexer nas memórias das relações franco-argelinas, um dos assuntos mais sensíveis da História francesa do século XX.

Conquistada pela França em 1837, a Argélia era uma colónia e parte integral do Estado francês. Em 1950 era habitada por milhões de cidadãos oriundos de França. Mesmo depois de abdicar dos seus territórios na África Ocidental e no Sudoeste Asiático, os Governos franceses retiveram a Argélia.

Quando se iniciou a luta pela independência em 1954, num contexto de Guerra Fria, a repressão foi extremamente dura.

Já em fevereiro de 2017, numa visita à Argélia enquanto candidato presidencial, Emmanuel Macron referiu-se ao colonialismo francês como “um crime contra a humanidade”, uma expressão que provocou um enorme debate nacional. (RTP)

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