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Missão Ébola: portugueses e guineenses na guerra ao vírus

Técnicos do Instituto Doutor Ricardo Jorge apoiam equipa de Bissau no combate às doenças infetocontagiosas.

Isabel tem 39 anos e descobriu a Guiné em março de 2015, em pleno surto de ébola na África Ocidental, que causou 11 mil mortes. “Fiz parte da primeira equipa portuguesa que veio fazer a montagem do laboratório móvel”, conta a investigadora do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Nuno, de 45 anos, veio meses depois, continuava o vírus a matar na vizinha Guiné-Conacri. Tornou-se também visitante habitual: “É a minha quinta vez.”

Conversamos numa salinha do Laboratório Nacional de Saúde Pública, nos arredores de Bissau, acanhada por ter tanta maquinaria dentro, mas de higiene exemplar, o que orgulha a equipa guineense que nela trabalha. São eles Serifo Monteiro, o diretor, Sábado Fernandes, João Dinis e Mário Monteiro. Já os portugueses do Ricardo Jorge respondem pelos nomes de Isabel Lopes de Carvalho, investigadora, e Nuno Verdasca, técnico superior de saúde.

“Foi quando se começou a falar do ébola que percebemos que não tínhamos capacidade se aparecesse um caso no hospital para o diagnosticar. Antes da vinda da equipa portuguesa não tínhamos”, explica o diretor guineense, microbiologista formado em Cuba. Mas se foi o ébola o susto que levou a esta cooperação entre portugueses e guineenses, a verdade é que em Bissau passou a haver meios para diagnosticar em termos moleculares várias doenças, como o zika, a dengue, a febre amarela ou até o paludismo, antes identificado por técnicas tradicionais. “Agora temos a capacidade de diagnosticar todas estas doenças, desde que tenhamos reagentes e consumíveis”, sublinha Serifo Monteiro, vestido com uma camisa salmão, bem adequada ao calor tropical.

Já os dois portugueses usam polos brancos, onde se destacam as bandeiras nacional e da UE. Curiosamente, explica Isabel Lopes de Carvalho, o financiamento atual do projeto vem do CDC – Centers for Disease Control and Prevention dos EUA. “Mas foi Portugal que montou tudo ainda no Hospital Simão Mendes e depois em dezembro de 2015 doou os equipamentos ao Laboratório Nacional de Saúde Pública.”

Os biólogos Isabel e Nuno podem ser os heróis portugueses desta história, tal como os colegas do Ricardo Jorge que os vão revezar, mas a equipa de Serifo Monteiro é a garantia de um futuro melhor para a Guiné em termos de saúde pública. E por isso percebe-se bem a satisfação com que o diretor informa que os seus três técnicos fizeram já todos a licenciatura no Instituto Piaget.

Sábado, a única mulher do grupo guineense, chegou a ir a Portugal para formação no transporte de substâncias infecciosas. “Graças a essa experiência sinto-me mais confiante para responder aos desafios”, diz.

Mário Monteiro e João Dinis confirmam que a cooperação com os portugueses lhes tem ensinado muito. “Antes não tínhamos a possibilidade de fazer-vos diagnóstico molecular e hoje já temos e isso é muito bom”, sublinha Mário Monteiro, acompanhado pelo acenar de cabeça concordante do outro Monteiro, encostado a uma arca frigorífica onde saltam à vista caracteres chineses.

“O diagnóstico molecular permite-nos identificar o genoma de um determinado organismo. No caso do ébola, pode não ser o mais importante para o tratamento, mas é vital em termos epidemiológicos, para sabermos o tipo de vírus em circulação”, explica Isabel Lopes de Carvalho. Em 2015, chegou a vir seis vezes à Guiné. Tem ligação familiar a terras africanas, pois a mãe nasceu no Congo Belga, onde o avô tinha plantações de café, e o pai fez a tropa em Moçambique. Já o pai de Nuno foi requisitado como médico para Angola nos anos 60.

O ar condicionado ajuda a manter agradável a conversa no laboratório. Da janela veem-se umas cabras a comer ervas e também lixo, o que torna um oásis estas instalações apoiadas pelo tal CDC americano e pelo Ricardo Jorge. Pergunto a Serifo Monteiro se alguma vez sentiu problema em aprender com os portugueses, que até 1974 governaram o país.

“Quem não conhece a história pode sentir-se mal, mas a colonização foi no século passado, na Guiné como em toda a África. O regime era completamente diferente. E, de qualquer forma, para nós guineenses a vantagem de Portugal é a língua. Quem vai estudar para o Senegal é como ir para França: chega e tem de se adaptar à língua e não é fácil.

Às vezes recebemos aqui pessoas que falam francês ou inglês mas todo o público que está inserido numa sessão de formação sente dificuldade. Se for com um consultor português não tem de se fazer a tradução”, explica o diretor guineense. E há ainda o conhecimento acumulado por Portugal no combate às doenças tropicais, por razões históricas. Para aproveitar. (Diário de Notícias)

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