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Brasil sem capacidade para absorver exportações de soja dos EUA para a China

O académico brasileiro Gustavo Oliveira considerou que sazonalidade e limitações estruturais inviabilizam que o Brasil absorva a quota dos Estados Unidos no fornecimento de soja à China, numa altura de fricções comerciais entre Washington e Pequim.

“Não há alternativa: a China vai ter de importar pelo menos uma parte da soja dos Estados Unidos”, disse à agência Lusa, em Pequim, Gustavo Oliveira, professor de Estudos Ambientais na faculdade norte-americana de Swarthmore, e cuja tese de doutoramento focou-se no investimento chinês no agronegócio brasileiro.

A soja é um ponto-chave nas disputas comerciais entre EUA e China: representa 10% do conjunto das exportações norte-americanas para o país asiático e é um setor vital para a América rural, onde estão concentrados muitos dos eleitores do presidente norte-americano, Donald Trump.

O país asiático deve importar 97 milhões de toneladas de soja este ano, segundo previsões do setor, mas cancelou já contratos de encomenda de centenas de milhares de toneladas de soja norte-americana, em retaliação contra as taxas alfandegárias de 25%, que hoje entram hoje em vigor nos EUA, sobre um total de 34.000 milhões de dólares (29 mil milhões de euros) de produtos chineses.

O Brasil, que exporta já 80% da sua soja para o mercado chinês, surge assim como um terceiro ator nas disputas entre as duas maiores economias do mundo, por ser o único país capaz de substituir parte do fornecimento norte-americano para a China.

Em maio, o país sul-americano exportou 9,76 milhões de toneladas de soja para a China, valor que supera o anterior recorde mensal em 1,4 milhões de toneladas, refletindo já a tensão entre Pequim e Washington.

Gustavo Oliveira considerou, no entanto, que esta situação não é viável a curto prazo.

“Entre março e julho, a maioria das importações chinesas são, de qualquer forma, oriundas do Brasil, porque nesse período a soja brasileira já foi colhida e está a ser exportada”, lembrou.

“Já a soja norte-americana começa a ser colhida agora para ser exportada entre meados de setembro e novembro”, explicou o académico brasileiro. “É a partir desse período que os importadores chineses passam a depender principalmente da produção norte-americana”, acrescentou.

Por outro lado, os portos no sudeste do Brasil atingiram já o limite de capacidade, levando empresas chinesas a desenvolver portos e hidrovias para escoar a soja através da bacia amazónica.

Oliveira lembrou, porém, que “qualquer iniciativa de expansão de infraestrutura para aumentar a capacidade de exportar a produção brasileira leva alguns anos a ser desenvolvida”, enquanto as disputas comerciais entre Washington e Pequim “dizem respeito a um contexto temporário muito curto”.

O académico considerou que a retaliação chinesa fará vítimas entre os importadores chineses e os agricultores norte-americanos, mas que o contexto “não é necessariamente mau” para os grandes grupos de comércio de soja.

“Essas empresas não só têm operações em vários lugares, como têm um conhecimento do mercado superior ao dos Estados e estão bem posicionadas para lucrar, independentemente do que acontecer”, defendeu Gustavo Oliveira.

O académico brasileiro considerou, por isso, ser “muito frustrante” que nas disputas comerciais se fale de países como “indivíduos com interesses únicos”.

“O interesse de um setor ou de algumas empresas não é igual ao interesse nacional: muitas vezes, o que é bom para as empresas de agronegócio, é mau para os agricultores”, diz.

No caso do Brasil, lamentou que a dependência do país da exportação de soja o torne “refém” das grandes empresas do setor, da cotação do dólar ou da bolsa de Chicago e das políticas do Estado chinês.

“Nada disso é democrático”, afirma. “Nada disso tem em conta o interesse nacional do Brasil”.

O professor de Estudos Ambientais avisou para os possíveis impactos ambientais e sociais caso o Brasil decida aumentar a produção de soja em 10% ou 15%, para responder à procura chinesa.

“Quantos milhares de hectares vão ser desflorestados na Amazónia; quantos milhares de famílias serão expulsos das suas terras para expansão das quintas agrícolas”, questionou. (RTP)

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