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Paulo Flores partilha amor no palco do Show do Mês

As palavras o vento leva, na voragem do tempo que não espera por ninguém. Mas essas foram confirmadas pelos fãs, nas noites de quinta, sexta e sábado, no Royal Plaza Hotel: “as pessoas têm confiança na forma como exponho a nossa dor, a nossa mágoa e a nossa esperança”.

Assim, no embalo de uma cumplicidade de três décadas, Paulo Flores partilhou amor no palco do Show do Mês.
Como sempre, chegou tímido, no brilho do seu “Kandongueiro Voador”. Só não precisou de muito exercício para se aconchegar e embalar nos braços de uma plateia de todas as idades e várias gerações, que num forte aplauso fez ecoar na sala uma onda gigante a desbravar caminho, nas sonoridades do canto alojado na alma e no coração.

No “Semba da Bênção e da Consolação”, soltou a lágrima da saudade de momentos vividos de forma intensa. Lembrou Cabé, o pai que o mostrou, ainda menino, o caminho hoje transformado em sucesso. Assim, “como quem chega devagar e diz/posso falar Bairro da Peça/São João/-Bairro Benfica/Benguela que sempre purifica…”, fez uma vénia à terra das acácias e aos seus encantos.

“O meu pai era dali/da Peça/bairro antigo de Benguela/Finocas/Gabriel do Escondidinho/pra escola fazem caminho/bom dia na avó Boneca/bom dia avó/o meu pai era o Cabé/o amigo dos amigos mazé/não me peçam pra esquecer essa essência/nem mudo a minha consciência para honrar meu pai”, cantou Paulo Flores, no silêncio da plateia expedita no amparo da estrela que, por instantes, se deixou levar e, no amor, mostrou o seu lado frágil. Ouviram-se palmas para o “discotequero”, pintado como estrela no céu, pelo talento e mestria de um filho que diz: “só quero ver as pessoas felizes”.

Estava lançado o mote para a visita guiada de sucessos registados nos 17 discos que sustentam a sua carreira. “Semba Vadio” foi a segunda música do alinhamento, numa viagem curta até ao “Bolo de Aniversário”. Depois surgiu a rapsódia “Coisas da Terra”, “Coração Farrapo” e “Reencontro”, aqui um desafio ao conhecimento da geografia de Angola, pois quem viu a Serra da Leba em Luanda, vai ouvir Afonso Quintas dizer no “Viagem ao Passado”, a pedido de Paulo Flores, que eram as “Luzes Amarelas”, no Eixo Viário.

“Kunanga no Amor” e “Cabelos da Moda” chamaram “Clarice”, canção escrita para Tito Paris, hoje menina dos olhos no seu vasto repertório, com mais de 60 músicas à espera de serem gravadas. Uma em cada noite, Car-la Moreno, Yadira Cabañas e Raquel Lisboa, as vozes do coro, ouviram o galanteio tocado em serenata pelos mestres Teddy Nsingui, Manecas Costa e Pirica Duia. As guitarras falaram e o público aplaudiu o momento do “chacho”.

No compasso do Semba, o roteiro seguiu até ao bairro Cassenda. Para trás ficaram exactos 20 anos, desde que o encontro no estúdio de Eduardo Paim “Marechal Kambuengo”, fez nascer “Perto do Fim”, provavelmente o disco de maior su-cesso, que mereceu inclusive autógrafo em cópias piratas, em São Tome e Moçambique. “Dinheiro não Chega”, “Serenata a Angola” e “Como vai Mana Chiquita” foram os temas escolhidos.

O “Festão” interrompeu, momentaneamente, as re-cordações, para dar lugar a “Baju”, tema algo polémico à nascença, que acabou por virar hino na boca do povo. “Samba em Prelúdio”, “Nza-ji”, obra-prima do cancioneiro angolano, assinada por Fontes Pereira “Fontinhas”, e “Ainda o País Que Nasceu Meu Pai” assinalaram a presença de Aline Frazão, convidada especial de Paulo Flores, anfitrião que cantou igualmente em dueto “Si Bu Sta Dianti da luta”, de José Carlos Schwarz, e “Xica Feia de Angola”, Bonga, com Manecas Costa, chamado depois a interpretar “Mandela” e o ícone “Chamo-me Menino”, lembrança do Top dos Cinco arrebatado por Mamborró, em 1987, na Cidadela.

Afectos de mãe condicionam a preferência na criação artística

Da mesma forma que uma mãe não revela por que filho nutre mais simpatia, os músicos procuram tratar as suas criações por igual. Mas, na carreira do filho do Pai Cabé, “Minha Velha” tem lugar cativo: “existem músicas que nos fazem”, confessou a estrela da noite, antes de continuar a viagem que trouxe “Makalakato”, “Poema do Semba” e “Boda”, canção vencedora, em 2011, do Top dos Mais Queridos da Rádio Nacional de Angola.

Chegados ao ponto de partida, bem no tempo do “Lá menor”, de “Kapuete Kamundanda”, disco de estreia, em Agosto de 1988, foi extraído “Cherry”, a primeira de todas as composições de Paulo Flores. “Garina”, a lembrar o período revolucionário da “Kizomba”, encetado ao lado de Ruca Van-Dúnem e Ricardo Abreu, ambos presentes na plateia, e “Processos da Banda”, das mãos mágicas de Eduardo Paim, levaram a sala ao rubro. Os ministros Carolina Cerqueira (Cultura) e João Melo (Comunicação Social), Euclides da Lomba e Celso Malavoloneke marcaram presença na sexta-feira.

Para descomprimir, foi proposto “Farrar”, do “Bolo de Aniversário”, mas logo a seguir os fãs voltaram a “entrar em erupção”, ao som de “Inocenti”. Em uníssono, o público roubou a cena ao cantor: “…o que esperam de mim miúdo de rua/de rua sem nome ahhhh/de lição estudada na beira da estrada que não tem saída… mas se vos consolariam-se de mim fechem-me a porta na cara vou perguntar ao meu coração se não tem uma chave para abrir essa porta/que dá para o outro lado do mundo/esse mundo que há-de ser meu-sem a dor de um qualquer pau nas costas sem mais mãos pra pegar neste pau/… e quem achar que não está certo/disser que eu não tenho direitos aqui eu não posso ficaaaar/que venha/me olhe nos olhos/e pegue na primeira pedra ou então que se cale para sempre…”

As sessões do Show do Mês começam pontualmente às 21h00 e terminam às 23h00. Com Paulo Flores houve lugar para uma excepção que confirmou a regra. “O Povo”, “Canto de Rua”, “Isso é Boda” e “Ngulupé” levaram o concerto para muito perto da meia-noite. Salu Gonçalves, o mestre de cerimónia do projecto da Nova Energia, teve de aguardar que se fizesse silêncio, por trás do pano, e assim anunciar Mito Gaspar como o cartaz da terceira estação da quinta temporada, nos dias 27 e 28 de Abril. (Jornal de Angola)

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