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Angolanos cruzam todos os dias a fronteira para estudar na Namíbia

Centenas de crianças angolanas cruzam diariamente, logo às primeiras horas da manhã, a fronteira de Santa Clara, em Namacunde, na província do Cunene, para estudarem nas escolas da vizinha Namíbia, devido às condições e ao ensino do inglês.

Junta à linha de fronteira, a agência Lusa encontrou Edvânia Domingos, angolana de 15 anos que estuda na oitava classe do Mennonite Brethren Community School, em Omafo, na Namíbia.

Regressa a casa ao início da tarde, juntamente com algumas dezenas de colegas angolanas da mesma escola namibiana, da igreja evangélica dos Menonitas.

“O ensino é muito educativo, as pessoas aprendem mais, é diferente de Angola”, explica a estudante, que todos os dias tem de apanhar um táxi, já do outro lado da fronteira, para chegar à escola, a quase 10 quilómetros de distância de Santa Clara.

“É muito distante, não vamos conseguir chegar lá a pé. Apanhamos um táxi”, conta.

Em Omafo, província namibiana de Ohangwena, os estudantes angolanos aprendem desde logo o inglês, como língua principal, oficial na Namíbia, mas também kwanhama, língua nacional angolana, do sul, igualmente falada no norte da Namíbia.

“Queremos aprender o inglês e trazer um bom futuro para Angola”, acrescenta Edvânia.

Contudo, é nas disciplinas de história que estes alunos mais sentem as diferenças, aprendendo a história da luta de libertação da Namíbia, que só em 1990 conquistou a independência do regime do apartheid da África do Sul, tendo antes sido colonizada pela Alemanha.

Para trás fica a história da luta anticolonial, contra a ocupação portuguesa, que culminou com a proclamação da independência de Angola, em 1975, que estes alunos apenas aprenderam na primária.

“Aprendemos quase tudo o que ensinam aqui [em Angola], só a História é que não é igual”, conta Rosalina Fernandes, outra destas estudantes, a frequentar a oitava classe da mesma escola.

Tal como as colegas, passa todos os dias a fronteira, num ritual que se tornou normal, até para as polícias dos dois lados, tendo em conta os acordos bilaterais em matéria migratória, com um praticamente livre movimento entre residentes naquela área transfronteiriça: “Não pedem [vistos ou passaportes], identificam-nos com este carimbo aqui da escola”, diz Rosalina.

Argumentos partilhados pela angolana Sheila Dissame, que desde a terceira classe que frequenta a mesma escola, em Omafa. Já lá vão cinco anos, tendo bastado, para tal, apresentar a sua cédula para garantir a inscrição: “Lá ensinam bem e tem-se boa educação. Mas a História é diferente”, explica, garantindo que o objetivo é chegar pelo menos à décima classe na Namíbia.

Segundo as autoridades angolanas, há também registo de namibianos que regularmente cruzam a fronteira para estudar em escolas e institutos de Ondjiva, a capital da província do Cunene. (Sapo 24)

por Lusa

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