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Angola é modelo na transição política em África – general “Kamorteiro”

Geraldo Abreu Muhengo Ukwachitembo “Kamorteiro”, vice-chefe do Estado Maior General das FAA para a Logística e Infraestruturas e um dos subscritores do Acordo de Paz de 2002, afirma que são raras as vezes que no continente berço se consegue alcançar uma paz real e negociada exclusivamente pelos africanos, mas os angolanos conseguiram

É um dos subscritores do acordo que, em definitivo, acabou com a guerra. Como é que sentiu o peso da responsabilidade que teve naquele exacto momento?

Já tinha desempenhado inúmeras funções quer nas ex-Forças Militares da UNITA, que eram de responsabilidade de suma importância. Mas o 4 de Abril foi um dia inédito, pois estávamos diante de figuras mais conspícuas da Nação angolana e também da comunidade internacional. Foi um acto muito emotivo e de muito sentido.

Como é que foi escolhido entre os generais da UNITA para assinar o acordo?

Desde o dia 30 de Março, aquando da assinatura do Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, na ci-dade do Luena, o Governo e a direcção da UNITA tinham concordado que, a 4 de Abril, o chefe do Estado-Maior Ge-neral das FAA e o então chefe do Estado Maior General das FALA ha-veriam de rubricar o cessar-fogo definitivo, ou seja, o Acordo de Paz.

Como é que começaram as negociações no Moxico? Quem deu o primeiro sinal e o que começou logo a ser negociado?

Depois da morte do Dr. Jonas Savimbi e do seu vice presidente, eng. António Sebastião Dembo, os membros do partido tinham decidido criar uma Comissão de Gestão chefiada por Lukamba Gato, que era o terceiro homem na hierarquia do partido, na época secretário-geral.

No dia 4 de Março, o chefe da Comissão de Gestão tinha comunicado aos militares e coordenadores de acção política sobre a existência deste órgão, referindo que dias antes houve contactos exploratórios entre a direcção da UNITA e o Governo. Ambos tinham entendido que havia essa possibilidade de uma aproximação e foi assim que a 15 de Março de 2002, o Governo e a UNITA mandataram as suas delegações, que se encontraram na margem esquerda do rio Luzi, a norte de Kassanga, no Moxico.

Neste primeiro encontro, por sinal muito importante, porque na época havia necessidade de se estancar as hostilidades, em definitivo, embora de forma exploratória, foi muito importante e as delegações foram chefiadas, da parte do Governo, por Geraldo Sachipengo Nunda, então chefe do Estado-Maior General adjunto das FAA, e outra parte chefiada por mim. Daí, os passos subsequentes deram-se no Lu-ena, até que a 30 de Março assinou-se o Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka. Este foi o processo que nos levou ao 4 de Abril, porque as coisas tinham sido dirimidas.

Quem tinha dado o primeiro passo na época e o que começou por ser negociado?

A primeira coisa que foi negociada foi mesmo o cessar-fogo, pois era importante que não houvesse mais tiros pelo país adentro. Quanto a quem se deve a iniciativa, houve uma coincidência total, pois depois da morte do Dr. Savimbi, o Governo entendeu que não convinha prosseguir com acções militares e a UNITA precisava reorganizar-se, não mais para o combate armado, mas para poder negociar, de forma mais assertiva, com o Governo e foi assim que a situação ou o processo começou.

Até porque antes do dia 4 de Março, o general Nunda tinha visitado a base onde se encontrava parte da direcção da UNITA, inclusive o general Lukamba Gato e o Brigadeiro Marciel Dachala, Isaías Chitombe, brigadeiro Diote, entre outros. Houve muito movimento exploratório para que se chegasse à conclusão de que era possível chegar a uma boa plataforma de entendimento.

Que avaliação faz dos acordos assinados?

As transformações históricas nunca surgem de forma meteórica. 16 anos depois digo, de cabeça bem erguida, que Angola tem vindo a galgar em passos seguros e é um dos modelos em África. Raras vezes em África se consegue alcançar uma paz real e negociada exclusivamente por africanos e angolanos conseguiram isso. Hoje temos um país cada vez mais unido e creio que pode haver uma dificuldade ali e acolá, mas, no geral o país ganhou.

Como militar idóneo, tendo em conta os meus 43 anos nas Forças Armadas, tenho a certeza que não haverá mais guerra entre os angolanos. Temos vindo a enfrentar outros desafios, olhando um pouco mais para o exterior a ver se alguém provoca Angola. Porque, felizmente os países vizinhos são todos amigos, mas não devemos descurar que há sempre amizade aleatória e tudo que chama amizade faz-se por interesse e quando o interesse deixa de existir acabou a amizade.

Quais são os grandes desafios que hoje recaem sobre as FAA?

O mundo de hoje é bastante volátil e ambíguo e debate-se com problemas de terrorismo. No caso de Angola, em particular, há um fenómeno irritante que é a imigração ilegal, um problema que talvez algumas pessoas analisem de forma simplista, mas é uma questão muito séria porque desestabiliza. Quando os imigrantes ilegais vêm para aqui para usurparem os nossos bens, vêm com todo tipo de vícios, o que belisca sempre a economia do país.

Além da economia, mexe com a política e a questão social e mexe com tudo, é um grande desafio. Reconheço os esforços da Polícia Nacional que tudo tem feito para pôr as coisas em ordem, mas a nossa fronteira é bastante extensa e vimos que quase todos os dias são repatriados 30 ou mais cidadãos ilegais da capital, para não falar de outras províncias, que também são áreas potencialmente ricas em minérios, sobretudo diamantes.

É um fenómeno muito sério. Angola tem amizade com todos os países vizinhos mas não deve esquecer que tem de estar
sempre alerta e cuidar dessas amizades para que um dia não nos decepcionem.

Passados 16 anos, acredita que o acordo está a ser cumprido tal como se pretendia?

Sem dúvida, pois as FAA estão cada vez mais coesas e são hoje o barómetro da unidade nacional. Não têm faltado vozes sectaristas, mas no geral a situação é salutar. Angola é um ente uno, indivisível o que deve ser o nosso lema.

Há ex-militares da UNITA que alegam ter ficado de fora do processo de desmobilização e sem subsídios. Como é que pensa que essa situação deve ser resolvida?

A questão da desmobilização foi abordada desde o primeiro dia das conversações em 2002. Existem sim casos de ex-militares que não recebem os seus subsídios e este é um processo que não deve ser abordado de forma simplista.
A verdade é que muitos militares estiveram em países vizinhos e outros na fase de registo apresentaram-se com determinados nomes e quando trataram os bilhetes de identidade acrescentavam um nome, o que ocasionou diversos constrangimentos.

Na sua maioria, os que estão nesta situação receberam as suas cédulas em 2014 e deviam começar a receber os subsídios em 2015. Infelizmente foi no segundo semestre de 2014 que o país viu-se mergulhado na crise económica e financeira, por causa da baixa do preço do “ouro negro” e, daí para cá, nunca mais se orçamentou esta questão referente aos ex-militares que ainda não tinham começado a receber os seus subsídios.

O problema existe mas se encontra parado, mas acredito que tão logo a economia conheça algumas melhorias o processo será retomado.

Depois de tantos anos sente que valeu a pena a assinatura deste grande acordo?

Foi a melhor coisa que o país fez, porque depois da independência ninguém conheceu a paz em Angola. Até o 11 de Novembro foi celebrado debaixo dos tiros. Na época já era militar e me encontrava numa povoação a 22 quilómetros da cidade do Luena, ao longo do caminho-de-ferro, onde fazíamos tiros ao ar a festejar a independência. Isto é festa? em Luanda celebrou-se no Primeiro de Maio. Poucos dias antes, as ex-FAPLA e o ex-ELNA (exército da FNLA) tinham se concentrado em Kifangondo, tinha havido confrontos em muitas partes de Angola e daí nunca mais conhecemos paz.

Tentou-se em 1991, foi uma paz efémera que durou apenas um ano e poucos meses.
Para a paz efectiva, desta vez os angolanos reflectiram melhor. Em 1991 as coisas pareciam muito pacíficas, mas, profundamente, as coisas não tinham um período definido para que se realizassem eleições, muita coisa estava por se consolidar.

Assiste-se a uma mudança pacífica no país

Que apelo faz para os seus companheiros das FAA?

Uma palavra de alento para os meus correligionários da FAA de Cabinda ao Cunene: devem continuar a ser o espelho da unidade e da reconciliação nacional. Para todos os concidadãos, devemos consolidar, não a paz militar, mas sim a paz social, porque a paz militar já não faz sentido abordá-la hoje, pois a paz social é fundamental para o momento que vivemos.

Hoje a luta é de ideias, mas tem de ser uma luta civilizada, feita na diferença, pois sem diferença não haverá progresso. Sem o contraditório não há progressos e hoje as pessoas têm um pouco de receio de falar sobre a “lei da unidade dos contrários”. Mas nos tempos em que se abordava o materialismo dialéctico sem receio dizia-se que “o movimento é a vida e a vida é movimento”.

Que avaliação faz do momento que o país vive, com um novo Presidente da República e o grande desafio do combate à corrupção?

Angola tem vindo a marcar passos pela positiva, onde se assiste a uma transição pacífica, um fenómeno raro em África, pois são poucos os países que se contam aos dedos os que transitaram de forma pacífica. Foi bom ver na quinta feira (22 de Março), o ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, no Conselho da República. Muitos podem não conseguir avaliar o peso da sua presença, mas foi muito importante e um gesto que galvaniza os corações dos angolanos, um gesto muito bonito.

O que diz sobre o combate à corrupção?

É bom que Angola deixe de figurar na lista de países corruptos e a luta que se começou é positiva porque Angola tem potencial para dispensar a corrupção, pois o país não precisa.

O que precisa é gerir bem os seus recursos e transformá-los em riqueza para que os cidadãos deixem de gritar e é possível. A corrupção é um fenómeno quase universal, cada país tem os seus corruptos, com níveis diferentes e Angola tem figurado em níveis alarmantes. O mais importante não é o nível de corrupção que atingimos mas sim sairmos desta lista de corruptos, porque Angola não tem razões para tal.

O país tem recursos, até dormentes, que ainda não foram mexidos. Ninguém está a explorar o ouro como tal, o ferro está aí a dormir a espera de quem o vá explorar. Kassinga não é a única área com ferro, temos aí o norte do país, o Bié nas áreas do Andulo há muita coisa para se explorar.

Todos devem colaborar para que a corrupção seja combatida. É um fenómeno que dá vergonha. Se não tivermos cuidado podemos até ser corrompidos por aqueles que vêm de fora, porque em muitos casos muitos foram corrompidos por forças externas e a dado momento adaptaram-se ao sistema e começaram a galgar assim. Mas não é um fenómeno hodierno, mas antigo desde os tempos coloniais, que agora atingiu proporções alarmantes. Todos temos de lutar e apoiar o Governo a lutar contra a corrupção. (Jornal de Angola)

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