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Uma declaração de guerra de Luís Montenegro

O ex-líder parlamentar sai da Assembleia e apresentou um autêntico discurso de ‘pré-candidatura’, aplaudido de pé.

“Não deixe que o PSD se transforme no grupo de amigos de Rui Rio ou na agremiação dos amigos de Rui Rio”. A frase tem menos de horas mas ainda ecoa no pavilhão da antiga FIL, em Lisboa. Foi Luís Montenegro que a proferiu. E o destinatário que ouviu bem alto o apelo a um PSD longe dos “interesses dos seus amigo” era mesmo Rui Rio.

No dia em que o líder eleito do PSD passou a ser líder propriamente dito, Montenegro anunciou que renuncia ao mandato como deputado. Deixará a Assembleia da República a partir do dia de hoje, mas não deixará a política ativa – falou nos seus programas semanais na rádio e na televisão – e muito menos tenciona deixar o PSD. Não pedirá “licença a ninguém” no dia em que decidir avançar, nem aceita “lições” de qualquer um.

Montenegro ripostou assim às afirmações que Rio deixara no ar durante as diretas, sobre aqueles que não haviam “tido coragem para avançar”. “Não fui eu que estive dez anos à espera de disputar a liderança do PSD entre desejos de ser primeiro-ministro e presidente da República”, disparou de volta Luís Montenegro. O homem que liderou o grupo parlamentar na maioria do consulado de Passos Coelho defendeu a sua opção “livre” de “não avançar” já.

“Se [a essa opção] quiserem dar um selo de calculismo, podem dar. Mas há aqui alguém que tem a caderneta cheia”, insistiu, de alvo bem fixo no percurso político de Rui Rio.

O aplauso da sala às palavras de Montenegro foi tal que Rio se terá sentido obrigado a intervir a seguir, em vez do antes agendado Paulo Rangel, para anunciar os nomes da sua Comissão Política Nacional. Os aplausos para isso, todavia, foram menores. Bem menores. O abraço entre ambos, a meio caminho, saiu frouxo. A tentativa de Rio recuperar a audiência também.

A intervenção de Montenegro – posicionado como favorito caso Rio não vingue na liderança – não mandou recados: a intervenção de Montenegro respondeu e avisou diretamente Rui Rio. Foi, em tudo, um discurso protótipo de um discurso de líder: não abdicou da defesa da livre-iniciativa contra os excessos do Estado, não esqueceu as prioridades europeias que caracterizam a agenda dos primeiros-ministros – no PS ou no PSD –, mas deixou patente o seu distanciamento incondicional ao Partido Socialista; mais concretamente a este PS, que chama “PS bloquista”.

“Será o mesmo PS bloquista antes das eleições [legislativas] e o mesmo PS depois dessas eleições”, considerou. Dito de outro modo: entendimentos com António Costa têm a sua oposição seja qual for o resultado do PSD em 2019. “Precisa o país de um Bloco Central de partidos? Precisa o partido de um Bloco Central de interesses?”. Montenegro diz que não. Tanto o PCP como o Bloco de Esquerda estão, para ele, nos antípodas do PSD. E o PS de hoje também. “Não podemos capitular”, advertiu, lembrando também que o próprio Rio dissera no dia anterior que as eleições “são para ganhar”. E a citação saiu como prazo de validade.

Era o momento mais aguardado do dia – talvez até do congresso – e Luís Montenegro não desapontou. O congresso levantou-se todo. Excetuando, claro, Rui Rio e os que ladeavam na primeira fila. Maria Luís Albuquerque e Teresa Leal Coelho, que foram vice-presidentes de Passos Coelho, e deputados do grupo parlamentar que antes foi de Montenegro entraram na sala para ouvi-lo e saíram depois com ele.

Ainda que tenha prometido não “ser oposição a Rui Rio”, a promessa de “não abandonar o combate” foi, até agora, o momento mais aceso do congresso. Apoios não lhe parecem faltar. (Sol)

por Sebastião Bugalho

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