Notícias de Angola - Toda a informação sobre Angola, notícias, desporto, amizade, imóveis, mulher, saúde, classificados, auto, musica, videos, turismo, leilões, fotos

O drama dos “inquilinos” do Lar Kuzola

O rapaz, trajado de calção azul e camisola desportiva em tom verde claro, continua a historieta, enquanto mistura na conversa alguns toques de dança. Isso lhe vale alguns aplausos, até que outro interveniente toma conta da cena.

Sílvio senta-se e dá espaço ao amigo. Nesse momento, o rapaz eleva as mãos à cabeça e coça o cabelo repetidas vezes. O semblante alegre e de bom contador de histórias dá lugar a um manto de tristeza. Não se sabe o que lhe veio à mente, mas vê-se que está preso em si e distante de tudo à sua volta.

Cinco minutos depois, a equipa de reportagem deste jornal o interpela. Convida-o para um bate-papo. Desafio aceite e Sílvio retoma a forma inicial. Está de novo alegre e conta algumas coisas da sua vida. Ele sabe muito pouco do seu passado, da sua família, principalmente, porque esta o abandonou aos dois anos, daí ter ido parar ao Lar Kuzola.

Agora, com 14 anos, o rapaz de boa fala, tem o rosto enleio de vergonha. Não é fácil destapar a vida para jornalistas munidos de “caça palavras” e câmara fotográfica, pensamos. Mas, embora meio tímido, Sílvio solta-se aos poucos e mostra aos repórteres que aprendeu cedo demais que “a vida é para os fortes”.

Nessa altura, o diálogo flui, mas vêmo-lo com as mãos trémulas, que é obrigado a lançar os braços vezes sem conta para trás das nádegas como que a tentar escondê-los. Depois cruza as pernas, que se afogam numa “dança” de vai e vem, que dá um colorido à conversa, aliás, ajudado pelas chinelas, cada pé com uma cor diferente.

Aluno da 7ª classe, numa das salas que funciona nas instalações do Instituto Médio Comercial de Luanda, o adolescente é uma referência da classe anterior, com notas fabulosas, principalmente nas cadeiras de Língua Portuguesa, Geografia e Ciências da Natureza, suas grandes paixões. Quando terminar o primeiro ciclo do ensino segundo secundário, Sílvio quer se formar em Jornalismo ou Comunicação Social. “Também gosto de Informática, mas o meu grande sonho é ser jornalista de televisão”, afirma, para assegurar que vai redobrar a leitura no sentido de aperfeiçoar cada vez mais a fala e a escrita.

O adolescente, que vive, há 12 anos, no Lar de Infância Kuzola, lamenta o facto de ter sido abandonado aos dois anos pelos progenitores e luta para apagar essa imagem triste da sua vida. É uma luta diária, difícil, mas necessária. “Preciso seguir em frente com ou sem os meus pais biológicos”, desabafa.

O rosto deprimido de Sílvio não exprime sentimento algum de vingança, embora tenha um coração magoado. “Quero um dia conhecer os meus pais, quando for grande, para mostrá-los o sucesso que terei na televisão. Gostaria que eles me vissem como apresentador”, anseia.

Como Sílvio, o Lar de Infância Kuzola alberga outras centenas de meninos e uns já adultos, abandonados pelos próprios pais, familiares próximos e outras tantas que fogem de casa, por alegadas agressões físicas constantes e outros maus-tratos, com destaque para os menores queimados pelos progenitores. São meninos com almas feridas, mas com sonhos, como fez crer a directora do centro, a pedagoga Engrácia do Céu, que lamenta a falta de amor nas famílias. Com muita tristeza, a gestora fala em casos de bebés deixados à porta da instituição e em contentores, ainda com o cordão umbilical por tratar. Só no ano findo, a instituição recebeu 17 casos deste tipo.

O caso mais caricato deu-se há dias, quando uma mãe foi detida pela Polícia Nacional acusada de estar a vender uma recém-nascida por míseros 1.500 kwanzas, com possibilidades de baixar o preço. A bebé está agora sob os cuidados do lar, também.
Muitas dessas crianças acabam por não resistir ao drama e morrem dias ou horas depois. Outras se aguentam por alguns anos, mas o sofrimento em demasia as faz abandonar a vida. No ano passado, por exemplo, a instituição registou dois óbitos de crianças e igual número de adultos, por doença.

Os óbitos assolam o Lar Kuzola, há já algum tempo. Com a crise financeira, a situação complica-se cada vez mais, deixando a instituição incapaz de acudir a uma série de casos, refere Engrácia do Céu, que viu morrer um total de 39 crianças com menos de cinco anos, entre 2011 e 2016, com este último período a registar 14 falecimentos.

O centro tem uma pequena enfermaria, mas esta funciona sem médico, há dois anos. Os quatro técnicos de enfermagem dão o melhor de si, embora a falta de alguns medicamentos e de equipamentos inviabilizem as melhores respostas para os casos
registados.

Neste momento, no Lar Kuzola há muitas crianças com várias enfermidades, algumas graves. A directora queixa-se da pouca atenção que se dá a pequenos com problemas de tuberculose, malformação congénita, VIH e Sida e outras tantas que chegam desnutridas.

Outra das grandes preocupações da unidade de acolhimento de menores tem a ver com o excesso de adultos ali hospedados.
O centro foi criado para acolher crianças dos zero aos 14 anos, mas tem, actualmente, mais de 30 homens e mulheres com idades entre os 18 e 36 anos, que convivem diariamente com os pequenos. A maioria desses crescidos sofre de problemas mentais e o Hospital Psiquiátrico de Luanda não os recebe.

Em função disso, o centro é obrigado a redobrar os esforços, numa altura em que não dispõe de técnicos especializados para dar assistência aos doentes mentais, alguns dos quais com características muito agressivas, o que se afigura um perigo para os pequenos e para os poucos funcionários.

Com uma capacidade instalada para albergar 250 crianças, o lar hospeda, actualmente, mais de 300 pessoas, número que aumenta a cada semana, uma vez que a instituição recebe sempre novos inquilinos. Os casos de violência doméstica, com destaque às fugas à paternidade e à maternidade, gravidez precoce, assim como a falta de amor, têm contribuído para esse cenário.

“Embora nunca nenhuma delas ficasse sem as refeições essenciais, estamos privados de servir certo tipo de alimentos para todos. Por exemplo, tirando os bebés, outras crianças não mais tomam leite, porque não temos capacidade para dar esse produto diariamente a mais de 300 pessoas”, lamenta.

Assolada por uma carência de verbas financeiras, o lar, tutelado pelo Governo Provincial de Luanda, tem contado com o auxílio de gente de boa fé, que colmata as lacunas deixadas pelo patrocínio governamental, que, há anos, não disponibiliza as verbas aprovadas no OGE (Orçamento Geral do Estado).

A petrolífera Total é uma das principais financiadoras dos bens e serviços da instituição, por meio de um acordo com a Fundação Lwini, a gestora do centro.

Apesar dos problemas que vive, a pedagoga acredita que as centenas de crianças encontram no lar o amor que as famílias
consanguíneas rejeitaram oferecê-las. “Por isso, acredito que estas crianças e jovens, como o Sílvio, vão continuar a sonhar que amanhã o mundo será melhor para eles”.

Reinseridas mais de duzentas crianças no seio familiar

“O lugar da criança é na família”. É com esse lema que os responsáveis do centro Kuzola têm envidado esforços para que os pequenos consigam retomar os seus verdadeiros lares. Nesta batalha, a instituição conseguiu, no ano transacto, reintegrar no seio familiar mais de 233 pequenos.

A directora Engrácia do Céu fez também referência a um projecto de colocação de famílias substitutas para a adopção de crianças. Este programa permitiu que, entre 2015 e 2016, outros mais de 108 menores ganhassem novas famílias, num processo que começa no Gabinete de Acção Social e passa pelo Julgado de Menores, e pode durar até dois anos. Em 2017, deu novos lares a nove meninos.

Outro ganho que o centro alcançou tem a ver com a colaboração de pessoas preocupadas com o desaparecimento dos filhos, que envolveu 340 progenitores.

O lar devolveu 162 menores aos seus pais, além de outras tantas levadas às suas casas pelas equipas de localização familiar, alegra-se a directora.

No capítulo da Educação, neste momento, o centro tem um aluno a frequentar o terceiro ano do Instituto de Petróleos do Zaire e conseguiu inserir 78 crianças nas escolas de ensino primário e secundário da província de Luanda, onde deixam bons indicadores.

O centro montou uma estratégia para ajudar os meninos com mais de 14 anos e que estão fora do sistema escolar.
Em 2015, enviou 15 meninos para a Escola Agrária de Catofe, no Cuanza-Sul, para fazer formação em Agricultura, e outras dez, no ano seguinte.

Em Catete, através do Centro Dom Bosco, estão seis adolescentes e jovens a frequentar cursos diversos ministrados na instituição. (Jornal de Angola)

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está bem com isso, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar Leia mais

Translate »