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” Pintar e fazer arte liberta-me”

A afirmação é do pintor angolano Cristiano Mangovo Bras. Nasceu em Cabinda em 1982 e licenciou-se em Pintura na Faculdade Belas Artes de Kinshasa e estagiou com Naciso Nsimambote. Participou em várias exposições individuais e colectivas em vários países do mundo, como África do Sul, França, Itália, Portugal e Zimbabwe. Pelo seu trabalho já recebeu vários prémios, nomeadamente o Prémio Mirella Antognoli da Embaixada de Itália em Angola, da Aliança Francesa e o Prémio ENSARTE. Com a instalação ” Sementes da Memória” esteve presente por Angola na ExpoMilão. O seu trabalho mais recente foi apoiado pela Infecting the City Festival da Cidade do Cabo, na África do Sul. Agora, está representado nesta Exposição Colectiva de Artistas Plásticos Angolana ” Artes Mirablis ” com duas obras, intiuladas como ” Transformada ” e ” Um Africano na Líbia “. É um defensou da condição humana e do ambiente e nas ruas de Luanda recolhe muitas vezes materiais para transformar os mesmos em obras de Arte. Nesta conversa exclusiva com o Portal de Angola, Cristiano Mangovo Bras  referiu e citamos que a ” arte é uma forma pacífica e a simbiose de expressar o pensamento de um artista ou de qualquer pessoa mesmo que não seja artista”. Até ao próximo dia 4 de Abril se visitar a sede da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa em Lisboa, descobre o imaginário do Pintor angolano Cristiano Mangovo Bras e mais 54 outros Artistas Plásticos de Angola em diferentes perspectivas e em múltiplos estados de alma.

Portal de Angola: Que significado tem a Arte para  o pintor Cristiano Mangovo?
Cristiano Mangovo:  A Arte para mim tem vários significados que não conseguirei citar todas delas, porque cada vez que vivemos, a arte acompanha-nos e ganha um novo significado. A arte é uma das forma e o meio de vincular mensagens codificadas ou descodificadas. A arte é uma forma pacífica e simbiose de expressar o pensamento de um artista ou de qualquer pessoa mesmo que não seja artista. A arte é a beleza que nos acompanha, e que é uma grande companheira de cada ser vivo.  A arte pode reunir pessoas e pode também provocar a guerra, e oferecer a paz. Ela é como uma mulher linda que desperta atenção do espectador.
PA: O que sente quando pinta?
CM:Quando pinto, sinto-me livre, consciente e inconsciente. No inicio sou eu a controlar tudo, e depois tenho sido guiado pela espontaneidade, acautelando um olhar à procura da estética e beleza.Sinto-me um pequeno deus, tendo sempre vontade para criar as minhas próprias personagens, buscando a inspiração na natureza, paisagens e no místico da imaginação. Tenho sentido umas vozes dentro do meu coração e da minha imaginação enquanto pinto, e o resultado é a pintura cuja personagem expressionista e surrealista com duas bocas e olhos estranhos, que é uma forma de falar da liberdade de expressão e olhos muito abertos que é uma forma de interpelar e motivar uma geração africanos e não só, a viver atento, e procurar a melhorar as suas condições de vida nos momentos presentes para oferecer um futuro melhor às gerações vindouras.
PA: Como olha para esta Exposição de que também é parte integrante?
CM: A exposição Arte Mirabilis é uma primeira maior amostra nacional em Portugal que até agora aconteceu  e actualmente abrange  os mais antigos mestres considerados como protagonistas das artes angolanas e alguns deles já falecidos infelizmente. Os artistas da segunda geração e os da nova geração de pintores e artistas. Lembro que são alguns de cada geração porque nem todos os artistas foram apresentados nesta exposição, porque a maioria das obras expostas foram emprestadas por coleccionadores privados e de alguns galeristas de Lisboa e as outras obras são dos restantes de artistas presentes pertencem a eles próprios, que na sua maioria são da Diáspora. A Diáspora tem muito para dizer. Esta exposição é uma forma de divulgar as artes angolanas numa melhor escala, porque nem toda a Europa tem conhecimento da criatividade angolana ao nível das artes em geral e desse modo  é uma possibilidade que o povo europeu tem para interagir pessoalmente junto das obras pois apreciar a obra ao vivo sempre tem uma sensação e emoção diferente da imagem ou em frente do computador. E poderia ser uma iniciativa que pode ser realizada duma forma bienal para maior divulgação das artes angolanas. Desejo que esta exposição possa percorrer outras cidades portuguesas e europeias como do mundo inteiro como afirmou a senhora Ministra da Cultura.
PA: Nasceu em Cabinda.Estou em Kinshasa e vive entre Luanda e outras capitais do Mundo. O que retira desta experiência?
CM:Com isso consigo perceber os modos de vida e as realidades de cada cidades onde tenho passado. A vivência em cada cidade é uma forma de aprendizagem. Aprender é preciso.
PA: Das 2 obras que cedeu para esta Exposição, uma tem como título ” Transformada ” e a outra ” Um Africano na Líbia “. O que é se pode transformar na sua óptica e o conflito na Síria é algo que em seu entender pode comportar outras formas de negociação ou a Arte do diálogo político e diplomático mais intenso podiam resolver tão grave problema?
CM: Sim. ” Um Africano na Líbia” é  uma obra pela qual expresso as condições desumanas e que os imigrantes da África subsariana têm sofrido na Líbia. A “Transformada” é aquela mulher africana que no tempo colonial ficava a cozer e fazer trabalhos de casa, mas hoje ela transformou-se numa outra percepção da igualdade e com maior consciência para a sua emancipação. A arte e a cultura unem os povos e as nações. A arte é um espaço aberto a todas intervenções estéticas. Nós os artistas também temos responsabilidades sociais e políticas e devemos ser promotores da paz. A Síria como a tragédia dos refugiados no mundo e os conflitos noutros lugares do planeta deviam terminar.
PA: Como sente no seu todo este Olhar de várias gerações nesta Exposição “Artes Mirablis” ?
CM: Sinto um olhar de várias perspectivas de pensamento Sinto me ser um dos jovens que se preocupa para dar o seu contributo pela evolução das artes angolanas em maior escala e com maior dimensão. Mas igualmente contente por estar no meio dos Mais Velhos.
PA:O que pode e deve ser feito para internacionalizar cada vez mais a Arte e a Cultura angolana?
CM:É realizar frequentemente exposições colectivas, individuais, residências artísticas, seminários, falando das nossas culturas e artes. Não podemos ficar parados. Além de que deveriam existir ainda mais apoios para todos os criadores angolanos. É preciso dar a conhecer cada vez ao mundo inteiro as artes e a cultura de Angola.
PA: Na ExpoMilão em 2015 apresentou o trabalho ” Sementes de Memória “. Que significado teve este trabalho? Foi um apelo à Memória?
CM: Sim, foi. Foi uma instalação de 4 esculturas feitas de materiais reciclados apanhados e recolhidos nas ruas de Luanda, com objectivo de apelar o ser humano nos 4 pólos (Norte, sul, leste e oeste ) para relembrar da protecção e reunificação, sem conflito, sem descriminação. Foi por isso que durante a performance tive que saltar o mosquiteiro pendurado em cima da cada escultura para cobrir-nos. Não podemos evoluir sem um sentido sincero de união e de reconciliação. O ser humano deveria ser mais respeitado e todos deviam ter essa consciência. Porque tudo passa. O que conta são as boas atitudes. Os bons gestos. O respeito pela condição humana. No nosso país temos muito que trabalhar a questão da condição humana e dos direitos humanos. Todos os angolanos são necessários para a reconciliação e reconstrução do país.Não podemos esquecer a importância da memória.
PA: Em termos provinciais e no caso de Angola como olha para o trabalho que possa estar a ser feito em termos artísticos e culturais?
CM: Tem sido feito algum trabalho. A guerra não permitiu muitas vezes um grande crescimento. Mas agora que estamos em paz devemos apostar cada vez na cultura e nas artes em geral. Criar mais escolas e centros de artes, como também criarmos em Luanda e nas outras províncias do país, estruturas modernas para atrair mais jovens e outras gerações para a importância da cultura e do trabalho artístico. E também estar abertos ao que se passa no mundo e no nosso continente. Luanda precisa de um grande centro cultural como eu tive oportunidade de ver aqui em Lisboa, em Paris, em Milão e sem complexos mostrar ao povo o que é também o mundo. O nosso povo precisa de ver o que de bom existe noutros lugares do mundo.
PA: Defende a Escultura contemporânea como forma de intervenção ambiental. De que modo desenvolve esse trabalho?
CM:Recolho as carcaças de mota ou kupapata. Todo o material que encontro nas ruas e nos lixos, tais como, plásticos (tampas de garra fitas, bidão), chapas ferros… Faço armadura de ferro e madeira, soldando e passo a vestir as esculturas de plástico fundidos.  A rua tem arte e nas ruas de Luanda encontramos muita inspiração para criar. Por outro lado eu defendo o ambiente porque uma cidade poluída não é saudável. E hoje o ambiente é uma preocupação mundial. E nosso país essa consciência tem que aumentar cada vez mais. Então eu transformo o que recolho em arte. Contribuo dessa maneira. E nas escolas devia existir esse trabalho de sensibilização, como também no seio da sociedade angolana em geral.
PA: Como está a defesa do Ambiente em Angola?
CM: O ambiente em Angola depende da cada bairro. Há bairros com o potencial de materiais a reciclar e outro menos. A maioria das vezes as zonas perto da cidade são um pouco complicado encontrar nomeadamente nos arredores da cidade. Em cada bairro de Luanda, nas províncias e em todo os lugares, as pessoas deveriam estar conscientes que continuarem a deitar lixo nas ruas vão ter muitos problemas com a saúde pública. Deviam existir mais organizações ou comissões de bairro para mobilizar as pessoas a limpar e a estimar a cidade. Mas no domínio do ambiente temos ainda muitos problemas. Podemos copiar bons exemplos mundiais para defender o ambiente e todo o lixo devia ser reciclado. E  em todas as cidades angolanas as pessoas que não cumprissem com o tratamento do lixo deveriam ter multas para pagar. Tem que existir um grande trabalho das equipas de cada Governo provincial para a consciência do ambiente. Sensibilizar todos os dias o Povo e a sociedade em geral é um grande passo para respeitar o ambiente.
PA: Que relação tem estabelecida com a Arte?
CM: A minha relação com a arte é a forma pela qual expresso os meus sonhos, pensamentos e sentimentos. Pela arte penso o que o sinto e o que vejo e ouço. Eu falo com os meus quadros e com a minha pintura.
PA: A sua Pintura é uma forma de sensibilizar a importância da Condição Humana e outras variantes comportamentais?
CM: Sim. É uma importante pergunta. Como é a forma de fazer escolhas e combater  o racismo e todas as formas de discriminação. A minha pintura expressa a minha preocupação pela condição humana. Há muita gente que sofre e a pintura e as artes ajudam a melhorar o nosso comportamento com outros seres humanos. Há coisas que acontecem hoje em todo o mundo que já não deviam existir. A arte é uma terapia. Sou feliz quando pinto e crio.
PA: Que significado teve o seu encontro com o Presidente da República de Portugal, Professor Marcelo Rebelo de Sousa?
CM:Foi a primeira vez que toquei na mão de um presidente e dar-lhe um abraço com honra. Foi muito positivo e equilibrado a sua simpatia e gentileza. Fiquei muito feliz. Muito mesmo.
PA: Sei que ofereceu um quadro ao Presidente de Portugal. O que traduzia essa Obra?
CM: Pintei uma menina vestida com a bandeira de Portugal. A menina está feliz e com três mãos no ar. É uma forma de dizer que o povo angolano vai precisar de manter relações positivas, de igualdade, de respeito e fraternidade com o de Portugal para sempre desde do fundo do coração até aos actos concretos, tal como Portugal deve ter para Angola e para os angolanos lá e os que vivem cá o mesmo respeito e a mesma fraternidade. O respeito é muito importante entre as duas partes. E a comunidade angolana aqui em Portugal deveria ser também bastante respeitada.A arte e a cultura podem ajudar a fazer esse caminho.
PA: Devia ser mais reforçada a relação entre criadores de Angola e Portugal  e com o resto do Mundo?
CM: Sim. Criar intercâmbio. Com mais intercâmbio crescemos todos. Mostramos o que é nosso e vivemos outras experiências com outros artistas.
PA: Luanda deveria ter um Centro Cultural de Artes e Cultura que permitisse ter um Programação Cultural diferenciada e proveniente de outros países africanos e do resto do Mundo?
CM: Claro. Há muito tempo que a cidade de Luanda devia ter um grande centro cultural com programação cultural de Angola, de África e do resto do mundo. Se isso acontecer vai ajudar muito o nosso povo. Precisamos de preparar as pessoas para a importância da arte e da cultura.
PA Pintar é um acto solitário para libertar o que lhe inquieta?
CM: Sempre foi sim. Na pintura encontro liberdade e paz.
PA: Como olha para o Desenvolvimento de Angola e o que deve ser feito para que o Conhecimento chegue a toda a população angolana?
CM: Olho para o desenvolvimento de Angola com esperança. Não quero perder a esperança. Mas temos que juntar mais esforços para ver o país crescer com equilíbrio e acabar com a pobreza. As pessoas dizem mas há pobreza noutros países. Mas não é por existir pobreza noutros países que eu quero continuar a ver pobreza no meu país. Não. Da mesma maneira que me preocupo com a pobreza em Angola também me preocupo com a pobreza que há noutros lugares do mundo. Para o conhecimento chegar a todo o povo angolano temos que continuar a lutar por boas condições de ensino, ter bons professores e não ter receio de ajudar o povo a ter conhecimento universal. Um povo com conhecimento é um povo grande. Um povo com conhecimento está preparado para todos os desafios. Deviam existir mais escolas profissionais no nosso país, ter intercâmbio com as melhores universidades do mundo e assim teremos mais desenvolvimento.
PA: O dia 4 de Abril é um data muito simbólica para todos os angolanos. Como Pintor e cidadão angolano o que deve ser feito para consolidar a Paz e reforçar o Estado de Direito Democrático ?
CM:Pode-se realizar actividades culturais, como teatro, música, sessões de poesia, exposições e outras, sem congestionar a liberdade de pensamento de cada uma das disciplinas, para que se perceba as mensagem e visões vindouras. E respeitar muito a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a nossa Constituição e a opinião de cada cidadão. A paz é um bem grande para o povo angolano. Temos o direito a ser felizes já que durante muito tempo fomos felizes com pouco. Mas o importante não é o muito. É o bom. É fazer bem. Fazer bem às pessoas.
PA: Pintar é um acto de Paz interior?
CM. Sim. Às vezes quando fico dias sem pintar, fico demasiado triste e sem voz dentro de mim. Tenho de pintar para me libertar e me aliviar, daí é que vem a paz em mim.
PA: A  Pintura e a Escultura  do pintor Cristiano Mangovo  é inspirada pelo que viveu em Angola ou sofreu outras influências?
CM. É tudo o que acontece em Angola além de outras fronteiras. Tudo o que acontece onde estiver o ser humano ou com a natureza eu preocupo-me. Sou curioso em saber para dar a minha opinião que pode ser um elogio ou uma crítica. A maioria do meu trabalho tem falado sobre a protecção do ser humano e da natureza.  Temos que proteger o ser humano e a natureza todos os dias. Mas o ser humano tem que ser respeitado e ajudado.
PA: Como garantir a continuidade da Paz em Angola?
CM: Como muito respeito pelo povo angolano e por todas as diferenças. Quem não pensar assim, não pode amar Angola. O tempo passa muito rápido. Já perdemos muito tempo. Muito tempo mesmo.
por Gabriel Baguet Jr, Escritor/Investigador

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