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Reflectir o Natal e novos paradigmas

No dia 24 de Dezembro de 2015, 2016 e em anos anteriores entendi saudar as pessoas com que me cruzo na vida quer no plano familiar, quer na vida profissional e noutros cruzamentos que a nossa existência humana comporta em diferentes domínios. O tempo cruza a vida de forma muito rápida. Hoje curiosamente, no Canal de Televisão português SIC Notícias ouvi pela primeira vez 4 vozes diferentes do ponto de vista das suas formações e funções a falar do Natal e desta Quadra e o que a mesma comporta no plano familiar, no domínio dos afectos, da liberdade, da Memória, dos Outros, dos espaços, a falta de afectos, a manipulação comercial na relação com o consumo, das migrações, da Família, as relações por skipe, as novas tecnologias e o pivot curiosamente colocava uma questão que há anos afirmo e reflicto. Perguntava o Pivot da SIC Notícias o seguinte: mas será que só nessa data, é que nos lembramos que os Afectos, o Amor, a Fraternidade, a Solidariedade, a Partilha, o Pensamento nos Outros só ocorre entre o dia 24 e 25 de Dezembro? Esta é uma pergunta que coloco a mim mesmo há imenso tempo e felizmente que vou constatando que afinal não estou sozinho na estrada face a este Pensamento que é a continuidade nos 363 dias, se subtrairmos estes dois dias em que as cidades de todo o mundo iluminam-se e iluminam as montras de anúncios múltiplos, mas sem pensar-se muitas vezes na verdadeira essência do que pode ser afinal o Natal. E olhamos à nossa volta e quando percorremos as cidades constatamos que as luzes continuam acesas em janelas, em montras, em anúncios, mas as mesmas ficam por 36 horas vazias e lá constatamos que muitas vezes que por traz das janelas habita a solidão, o sofrimento, a fome, o isolamento do realidade quotidiana.. As luzes não trazem para a ribalta nem para o domínio público, esses outros seres humanos que afinal não usufruem da fraternidade, nem tão pouco as suas dores são conhecidas ou entendidas. Neste Programa televisivo que vi com muito agrado coincide com esta permanente inquietação pessoal de como é possível ficar indiferente à Condição Humana dos outros? Ao questionar e abrir o debate à reflexão da continuidade do espírito natalício nos restantes dias dos anos e independentemente das opções religiosas de cada um, não anula que possamos reconstruir um novo tempo que a Humanidade precisa. Se houve avanços a muitos níveis e em diferentes domínios, há recuos evidentes que nos deviam interrogar e fazer pensar. Talvez por isso, tenha recorrido a uma citação do histórico e inesquecível Martin Luther King e incluir nesta viagem de reflexão que passo a citar: “Creio que as pessoas que vivem para as outras chegarão um dia a reconstruir o que as egoístas destruíram”. A simbologia destas datas, não implica outras abordagens e talvez a descoberta de novas utopias sem esquecer o Ser. Porque vivemos um tempo de Ter. Não é mau Ter Afecto ou Amor. Ter Transcendência ou Ter uma visão Humanista.

Será o Natal apenas uma troca de presentes?

O brilhante Pensamento de Martin Luther King aqui referido remete-nos para essa emergente necessidade de constatar que as assimetrias sociais, a exclusão, a violação de direitos humanos em diferentes planos e locais do mundo, a crise dos refugiados, o ressurgimento dos extremismos, a corrupção global, a pobreza, as alterações climáticas, o abandono de idosos e crianças e a falta de investimento público em novas políticas sociais, deveriam ser o ponto de partida quotidiano das agendas políticas nacionais e internacionais. Por isso pergunto: é possível festejar de forma plena o Natal ou o encontro de Famílias quando ao nosso lado, existem seres humanos sem luz eléctrica, sem água potável, sem o sabor de um pão e em contrapartida, temos anúncios publicitários de venda de telemóveis como referiu a Filosofa Joana Rigato a referir e questionar muito bem que se as alusões publicitárias são do tipo e citando-a que ” pode-se ser feliz se comprar um telemóvel”, cujo custo é de 600 euros? É evidente que não. Não se pode festejar plenamente o Natal com esta visão deturpada, nem tão pouco passar para as novas gerações e outras apenas a visão mercantil.Julgo e é minha convicta opinião, que os bons e reais exemplos de fraternidade e solidariedade humana deviam de facto ser cada vez mais divulgados e internacionalmente conhecidos. Quando Martin Luther King se reporta ao egoísmo e tendo tido o mesmo uma consciência plena do que eram Direitos e quando recentemente se assinalou os 70 anos da Declaração de Direitos Humanos verificamos que o panorama actual é absolutamente contrário ao seu conteúdo e estou certo que há muito que fazer pelo mundo e pelo aparecimento renovado de novas mentalidades e consciências.

A par disso quando as luzes que decoram múltiplas capitais conhecidas do mundo a anunciar um novo Ciclo de esperança com coloridas árvores de Natal e de diferentes formatos e tamanhos eis que essas luzes se esfumam no dia 26 de Dezembro e volta-se a uma continuada realidade de indiferença face ao silêncio dos que sofrem e caem na teia da incompetência, da arrogância e da ignorância muitas vezes de quem tem poder de decisão. E aquelas 48 horas que representam os dias 24 e 25 de Dezembro diluem-se como a espuma do mar sem dó, nem piedade.

O ano passado numa histórica Livraria de Lisboa, situada na Rua do Carmo, ao Chiado, comprei um livro com o seguinte título: ” Empenhai-vos! Stéphane Hessel. Conversa com Gilles Vanderpooten. Indignarmo-nos já não chega!”. O livro, publicado pela Editora Planeta, cuja primeira edição data de 2011, resulta da versão francesa e com o seguinte título original:” Engagez-vous “. Nesta extraordinária conversa entre Gilles Vanderpooten e Stéphane Hessel viajamos por muitas das questões, que entre o desejo sincero de vos desejar Feliz Natal, Festas Felizes e Um Ano Novo Feliz em 365 dias, fazem-nos remeter para novas analogias deste Século XXI. Stéphane Hessel nasceu no início da Revolução russa, mas entre a opção pela rebelião, optou pela diplomacia e pelas Organizações Internacionais e contribuiu para a redacção da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Nesta viagem entre o autor e entrevistado, Stéphane Hessel diz em determinado momento face às questões dos Direitos Humanos e dos Direitos Fundamentais o seguinte: ” Conseguiu-se muito, mas também ainda falta muito! Mais tarde compreendi que, para além dos problemas relacionados com os direitos humanos, os da Natureza e do ambiente tinham, pelo menos, a mesma importância. Hoje, portanto, vejo o amanhã como respeitador dos direitos da pessoa humana e da Natureza. Trata-se de uma mudança na minha percepção, de um acrescento. Quanto ao resto, não mudei radicalmente, nem sequer no meu optimismo relativo-a minha consciência dos seus problemas-ou na convicção de que o desenvolvimento do espírito humano e a consciência moral ainda têm muito que andar. As novas gerações têm possibilidade de encontrar o seu lugar e os seus compromissos. Sartre dizia que um homem só é um verdadeiro homem quando se empenha, quando se sente responsável.”

Ao afirmar estas ideias, Stéphane Hessel deixa um caminho aberto ao nosso/vosso empenho na construção diária de um novo mundo. Acharão certamente que fui muito extenso para desejar-vos Festas Felizes e Feliz Ano Novo de 2018. Respeitarei a vossa opinião se assim pensarem. Mas acreditem que é com sinceridade que vos deixo para leitura esta minha reflexão. Já anoiteceu há muito tempo. E as luzes decorativas das cidades permanecem lá fora. Mas quando as luzes se apagarem não deixem de pensar nos outros e como num pequeno gesto, voçês podem tornar o Natal e os dias de alguém, mais feliz e pleno de esperança. Uma das convidadas neste Programa sobre o Natal que vos referi, falou na ” Poética dos Afectos ” que é necessário ter ao recordar-se do Natal da sua infância em Moçambique. De facto é verdade. Os vários Natais que ainda tive o privilégio de viver na minha cidade berço que é Luanda e vivida no seio familiar tinha uma magia própria e uma ” Poética de Afectos ” que a voragem do tempos e dos acontecimentos que são públicos ainda não apagou, nem apagará. O Natal era vivido com calor e sem sobretudo ou agasalhos mais fortes para proteger-nos do frio quando as circunstâncias implicaram “sair ” da terra-mãe. Porque nunca se sai da terra em que nascemos em termos de Memória e de vivências. Como disse o grande Escritor e Etnógrafo angolano Óscar Bento Ribas e cito ” Luanda é luz dos meus olhos, que a minha cegueira não retirou”. É tão bonito e profundo que me faz recordar uma outra frase emblemática do Escritor e Crítico de Jazz Jerónimo Belo, quando afirma que ” é possível amar uma cidade como se ama uma mulher”. A inclusão destas reflexões destes dois luandenses é um modo também de encontrar nestes frases, os sentimentos que não devemos deixar de ouvir, de sentir e auscultar o silêncio que também é o provir do Natal e a sua relação com milhares de mulheres, homens e crianças que habitam o Globo. Procurem ser felizes sempre que puderem e procurem num pequeno gesto fazer feliz alguém que amam ou que não conhecendo pode precisar apenas de ouvir uma boa palavra Vossa ou um sorriso quando a impossibilidade de sorrir ou ter Esperança está adormecida pela circunstâncias da vida. Afinal viver é um Ciclo com uma paragem única que a Ciência ainda não conseguiu determinar. Ser-se Humano e Pessoa não custa. Feliz Natal. Festas Felizes e Feliz Ano Novo de 2018. Neste Cubo natalício, encontrarão algumas palavras resumidas deste meu devir face aos Dias.

Gabriel Baguet Jr, Escritor/Investigador

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