Munícipes clamam por acções para capitalizar Mbanza Kongo

Cinco meses depois da sua inscrição na lista do Património Mundial da UNESCO, feito consumado a 8 de Julho durante a 41ª sessão do Comité do património Mundial decorrida na cidade de Cracóvia, República da Polónia, o Centro Histórico de Mbanza Kongo continua à espera de acções para capitalizar as visitas turísticas.

Essa epopeia foi o culminar de um intenso trabalho de investigação histórica, documental e arqueológica levado a cabo pelo Ministério angolano da Cultura desde a década de 80, mas que ganhou força a partir de Setembro de 2007, ano em que foi lançado o projecto denominado “Mbanza Kongo, Cidade a Desenterrar para Preservar”, durante a II Mesa Redonda Internacional.

A elevação da antiga capital do Reino do Kongo a património mundial, justificada pelo valor excepcional do seu património cultural material e imaterial, deixou eufórica os habitantes da província do Zaire, os angolanos, no seu todo, assim como valorizou o continente africano, que ganhou mais um bem reconhecido universalmente.

Mais animados ainda ficaram os habitantes de Mbanza Kongo que acreditam que, com este reconhecimento, a actual capital da província do Zaire saia do “marasmo” em que se encontra e ganhe outro fôlego rumo ao progresso social.

Para manter-se na lista, a UNESCO fez recomendações específicas às autoridades angolanas, sob pena de ser incluído no pacote dos bens patrimoniais em risco, nos próximos tempos.

Esta possibilidade preocupa os cidadãos, que começam a fazer comparações do antes e depois da tão celebrada inscrição no livro da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Embora ser um processo contínuo conferir Mbanza Kongo todos os condimentos condizentes com o seu actual estatuto, os cidadãos já fazem o seu balanço, dos últimos cinco meses, sobre o que foi concretizado e o que deixou de ser materializado, assim como sugerem ideias do que se pode fazer nos próximos tempos.

Alguns citadinos, abordados pela Angop para o balanço dos primeiros cinco meses desde a consagração consideraram ser tímidos ou quase invisíveis os passos dados no sentido de maior valorização e preservação do património histórico e cultural local.

Os interlocutores fundamentam a sua posição pelo “alegado” cenário desolador em que se apresentam alguns sítios e monumentos históricos locais, muitos dos quais cobertos de capim.

O estudante universitário Nlandu Matumona, 26 anos de idade, afirma que pouco tem sido feito para tornar os locais de interesse históricos e culturais mais atraentes e acolhedores aos turistas e visitantes.

Na sua opinião, o Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo, criado para o efeito, pelo Ministério da Cultura, tem dado poucos sinais da importância da sua existência, questionando-se se este órgão recebe ou não verbas para o cumprimento cabal da sua missão, dado o estado de inércia em que está mergulhado.

Considera, por isso, que deveria já, com os recursos disponíveis, dar início à requalificação das 12 fontes que circundam a localidade e que fundamentam a sua existência e inscrição na lista da Unesco.

“Penso que limpar as 12 fontes de água não exige tanto dinheiro, basta uma boa programação e mobilização dos munícipes”, vincou.

O agente cultural Monamambu Nkaílu confessou estar desiludido, pois esperava mais ousadia e criatividade por parte das autoridades locais, engajando os habitantes na conservação dos monumentos e sítios históricos.

“Noto uma certa apatia por parte das autoridades da província, sem iniciativas visíveis para desencadear acções que visam divulgar, valorizar e conservar o nosso Património Mundial”, queixou-se.

Monamambu Nkaílu sugere a elaboração de um roteiro turístico local, que contenha todas as coordenadas geográficas, informação sobre a capacidade hoteleira e de restauração, produtos culturais, localização dos monumentos e sítios, entre outras, para facilitar a vida aos turistas que escalam a região.

A definição de estratégias para o incentivo à criação artística também foi advogada pelo agente cultural, que considerou relevante o fomento das pequenas indústrias culturais, capazes de colocar no mercado produtos turísticos com grande valor e poder aquisitivo.

Apontou a necessidade da catalogação de toda a produção artística e cultural existente na região, desde as artes plásticas, culinária, dança, música, rituais tradicionais, religiosos, entre outras manifestações que retratam os hábitos, costumes e as tradições ancestrais.

Lembrou que, uma das recomendações da UNESCO, após a inscrição de Mbanza Kongo, tem a ver com a realização periódica de um festival cultural regional, em Mbanza Kongo, com a participação de caravanas artísticas dos demais países que integravam o Reino do Kongo: RDC, Congo Brazzaville e Gabão.

Por esta razão, defende que as autoridades do Zaire, na qualidade de anfitriãs, deveriam empenhar-se na preparação do potencial cultural a apresentar neste evento, para que corresponda à expectativa criada a volta do reconhecimento mundial deste sítio histórico.

Por sua vez, Suzana Kiala, também estudante universitária, mostrou-se desapontada pelo facto de muitos sítios de interesse histórico desta cidade, sobretudo, naqueles onde decorreram as escavações arqueológicas, estarem em mau estado de conservação.

Na sua opinião, estes locais deveriam manter-se limpos e acolhedores, dado o crescente interesse dos turistas que se deslocam à região para tomar contacto com a sua história.

“Vejo, às vezes, o local onde foi encontrada uma fundação do antigo palácio real (Tadi dia Bukikua) coberto de capim, o que entristece-me bastante, dado o seu valor histórico”, lamentou.

Sugeriu, igualmente, acções de educação da população sobre o simbolismo do Património Mundial para que participe, de forma consciente, na sua valorização e preservação.

“Penso que muitos munícipes pouco ou nada sabem sobre o Património Histórico e Cultural da Humanidade, pelo que seria de todo recomendável a promoção de acções de educação, de preferência também em língua Kikongo”, enfatizou.

Entretanto, uma fonte da Direcção Provincial da Cultura contactada pela Angop esclarece que em matéria de requalificação das referidas 12 fontes naturais de água, o Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo, dirigido pelo governador provincial, José Joanes André, sugeriu a inclusão no programa de investimentos públicos (PIP) para 2018 de verbas para a sua materialização.

Segundo a fonte, que preferiu o anonimato, o comité tem levado a cabo acções de divulgação do Património Mundial de Mbanza Kongo, nomeadamente em palestras, conferências, dando como exemplo, o último evento realizado no passado mês de Novembro na Escola Superior Politécnica dirigida aos estudantes e docentes da instituição e outros convidados.

A fonte informou ainda que a conservação e preservação deste Património Mundial deve ser encarada como uma tarefa de todos os munícipes e não só, encorajando todas as forças da região a unirem os seus esforços neste sentido.

O Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo tem, entre outras incumbências, garantir a implementação do plano de gestão e conservação do Centro Histórico de Mbanza Kongo mediante um modelo participativo e inclusivo de todas as partes interessadas.

A histórica cidade de Mbanza Kongo detém um rico histórico-cultural dos povos da região da África Central (Angola, RDCongo, Congo Brazzaville e Gabão).

A cidade conheceu várias designações, tendo sobressaído a de São Salvador do Congo, nome que os portugueses haviam atribuído, segundo o seu desejo, já como potência colonizadora.

De acordo ainda com a sua génese histórica e cultural, a designação de maior relevo de Mbanza Kongo, na altura, foi a de Kongo dya Ntotela, símbolo de unidade e indivisibilidade dos bakongos, como o próprio nome indica.

Desde a fundação do Reino do Kongo, no século XIII, a cidade de Mbanza Kongo foi a capital, o centro político, económico, social e cultural, sede do rei e a sua corte, e como tal o centro das decisões.

Mbanza Kongo foi, no século XVII, a maior vila da Costa Ocidental da África Central, com uma densidade populacional de 40 mil habitantes (nativas) e quatro mil europeus.

Com o seu declínio, a cidade que se encontrava no centro do reino em plena “idade de ouro” transformou-se numa vila mística e espiritual do grupo etnolinguístico kikongo e albergou as repúblicas de Angola, Democrática do Congo, Congo Brazzaville e Gabão.

Com uma superfície de 7 mil e 651 quilómetros quadrados, Mbanza Kongo é limitado a norte com o município do Kuimba e pela RDC, a sul e a este com a província do Uíge e a oeste com os municípios do Tomboco e Nóqui.

Com uma população estimada em 155 mil e 174 habitantes (dados do último censo), a cidade de Mbanza Kongo possui cinco bairros, nomeadamente Sagrada Esperança, 4 de Fevereiro, 11 de Novembro, Álvaro Buta e Martins Kidito.

O kikongo é a língua predominante e falada pelos seus habitantes. (Angop)

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