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Floresta da Ilha de Luanda entregue à própria sorte

Cercada por muros altos e vista ao longe, poucas pessoas sabem que a Floresta da Ilha, situada no distrito urbano da Ingombota, já foi um dos locais mais procurados da cidade de Luanda, principalmente para acampamentos de fim-de-semana e férias escolares ou visitas de estudo.

Actualmente, a Floresta da Ilha do Cabo está ocupada por sem-abrigos, pescadores e toxicodependentes que vivem em barracas de lona, plásticos, paus e sucatas.

Criada há muitas décadas, a área tem mais de dois hectares, possui acima de 700 árvores, na sua maioria da espécie “casuarina”, mas é cada vez menor o número de plantas naquele espaço, já que os “moradores” as abatem para fazer lenha.

A casuarina é a espécie tida como a única que se adapta bem à falta de água e ao tipo de solo da Floresta da Ilha, mas corre o risco de desaparecer, devido à invasão do espaço pela população.

Segundo uma especialista em ambiente, é um género que agrupa 17 espécies de árvores e arbustos da família “casuarinaceae”, caracterizada por ostentar ramos esbeltos e delicados, com folhas reduzidas e escamas, o que lhe confere um aspecto semelhante a pinheiros esbeltos.

Moradores e frequentadores da Ilha de Luanda clamam pela recuperação urgente da Floresta, com vista a evitar o seu desaparecimento e a voltar a ser o espaço para o qual foi criado.

Em entrevistas separadas à Angop, os ilhéus consideram-na um dos poucos espaços verdes da cidade capital para estudos, práticas de exercícios físicos, lazer ou descanso, entre outros atractivos turísticos.

Para Júlio Manuel, estudante universitário e residente no sector da Salga, nos últimos tempos, a Floresta da Ilha do Cabo, como também é chamada, tem estado longe de ser um agente regulador do ecossistema.

O local serve, agora, para lavagens e reparação de viaturas, refúgio de delinquentes, abrigo de crianças de rua, deposição de entulho de obras de construção civil e consumo de drogas.

Mateus da Fonseca, morador há 40 anos, é de opinião que o projecto de requalificação, apresentado há anos na circunscrição, podia ser uma salvação para a Floresta, visto que estava prevista a instalação de dois portões de acesso, com a devida guarnição e vedação.

De acordo com Matias Adriano, pescador, muitas pessoas estão a aproveitar-se do rompimento da vedação para erguer casebres, consumir drogas e praticar vandalismo.

Com alguma esperança, Amélia da Conceição, estudante universitária, residente no sector do Lelo, sugere que o Governo da Província de Luanda ou outra instituição afim comece com a execução de um projecto de requalificação nos próximos tempos, já que existe um Despacho Presidencial sobre este assunto.

Alguns munícipes culpam as administrações, devido ao vandalismo praticado dentro daquele recinto, que tem provocado a degradação da maior parte dos espaços verdes e dos jardins de Luanda, em particular da Floresta da Ilha.

Segundo Sidrak da Conceição, antiga estrela de basquetebol, no passado, o espaço era também utilizado por equipas e selecções nacionais de várias modalidades, para a preparação física ou treino, com vista a participarem em diversas competições locais e internacionais, mas deixou de o ser, em virtude das péssimas condições. Acrescentou que se devem criar condições, no sentido de os citadinos, principalmente as crianças, frequentarem a Floresta da Ilha, para que estas comecem já a ser consciencializadas sobre a sua protecção e conservação.

João Manuel, ancião residente na Ilha desde início dos anos 70, lamentou o facto de a Floresta ser utilizada com fins muito fora daquilo para que serve um espaço verde. “Até os viveiros aí criados desapareceram, e era uma oportunidade para observar como e onde tudo começa em relação à árvore”, lembrou.

“Na era colonial, era uma área segura e devidamente cuidada, onde as famílias e outros grupos de pessoas, provenientes de outros pontos da cidade, faziam piqueniques, campismo turístico, religioso e era abastecida de energia, água, saneamento e outras estruturas ligadas ao turismo”, explicou o ancião.

Administração

O administrador da Ilha do Cabo, Paulo Neto, disse que está a ser desenvolvido, desde o princípio de Dezembro, um trabalho-conjunto entre uma comissão constituída por elementos da administração local, serviço de fiscalização, Polícia Nacional, agricultura, ambiente e capitania, no sentido de pôr fim a certos actos e à invasão da Floresta.

Apesar das limitações financeiras da administração distrital, existe a previsão da vedação do espaço com chapas de zinco e a realização de campanhas de sensibilização, visando mentalizar a população sobre a importância da preservação da árvore e do meio ambiente como factor essencial para o bem-estar dos citadinos.

Segurança

Os moradores e frequentadores da Ilha de Luanda consideram a Floresta um local perigoso, uma vez que tem acolhido os sem-abrigos e toxicodependentes. Em contrapartida, o Comando Provincial da Polícia Nacional desmentiu o registo de actos criminosos denunciados pelos residentes.

“Não existem registos de crimes praticados na Floresta. Actualmente, a situação delituosa na Floresta, em particular, e na Ilha do Cabo, em geral, é considerada calma e controlada”, afirmou.

Requalificação da Floresta

Joana Aragão, ambientalista, afirmou que, para se cumprir com o processo de requalificação da Ilha de Luanda, deve ter-se em atenção o cumprimento do seu Plano Director e da Legislação Ambiental em vigor.

Conforme a especialista, deve-se levar em conta a preservação e a manutenção do meio ambiente, definindo a Floresta como algo imprescindível para a qualidade de vida das gerações actuais e vindouras.

Na sua opinião, devem ser elaborados estudos de impacto ambiental, cujas medidas de mitigação deverão conter acções de reflorestação e de recuperação das áreas degradadas.

Em Agosto de 2014, o então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, criou, por Despacho, uma Comissão de Coordenação de Requalificação da Ilha e Floresta de Luanda.

A comissão teria como atribuição preparar o Plano Director de Requalificação, que visa reorientar o processo de urbanização, de acordo com a Legislação Ambiental e com os padrões universais arquitectónicos e paisagísticos.

Também deveria assegurar a coordenação metodológica entre os intervenientes no processo de implementação dos seus diferentes projectos de requalificação, bem como propor soluções e processos, com vista a assegurar o desenvolvimento harmonioso daquele espaço territorial e coordenar, com as instituições intervenientes no processo de requalificação, a implementação dos projectos de energia, água, saneamento e a construção de outras estruturas ligadas ao turismo.

No âmbito da revitalização, seriam instalados, no local, áreas infantis, campos de jogos, mobiliário para ginástica e reflorestação da zona com uma alameda até à praia. (Angop)

por José Gomes

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