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Crise abala profissionais do artesanato

Há mais de uma década, a zona dos Ramiros entrou para o leque dos pontos mais “procurados” de Luanda. Localizada no distrito de Belas, tornou-se referência pelas suas imensas praias e patrimónios que, de tão seculares, atraem semanalmente centenas de turistas.

A zona é quase ponto de passagem obrigatória para viajantes. É lá onde está situado o Museu Nacional da Escravatura, fonte de conhecimento e história de um povo que lutou e resistiu, por 500 anos, até encontrar o caminho da liberdade.

Ramiros oferece grande diversidade para lazer, mas tem, na Praça do Artesanato, um dos principais “cartões-de-visita”. O mercado tornou-se a principal fonte de peças de artesanato.

Quem por ali passa se depara com verdadeiras obras de arte, que atravessam continentes, levando para longe a marca da identidade cultural do povo angolano.

O espaço alberga, hoje, mais de duas centenas de artistas plásticos que buscam, com suor e sacrifício, manter um negócio que já gerou lucros e sustentou famílias.

O Centro do Artesanato dos Ramiros tem “cara nova” e mantém-se na rota do negócio. Em contrapartida, conhece uma realidade desafiadora: a redução de clientes.

O antigo Mercado de Arte Africana foi transferido da localidade do Benfica, em Novembro de 2016, para assegurar o controlo efectivo da venda ilegal e clandestina de peças de marfim.

Segundo os gestores do espaço, há, no novo recinto, condições de acomodação e venda de produtos, mas os comerciantes contrariam a tese e consideram-se abandonados.

Os ocupantes do novo espaço reconhecem o esforço das autoridades competentes para oferecer melhores condições de acomodação, mas também afirmam que os resultados práticos estão longe de corresponder às expectativas iniciais.

Desde a transferência do antigo Mercado do Artesanato, explicam, ficou mais difícil tocar o negócio, registando-se, inclusive, impacto negativo nos lucros semanais.

Hoje, quem passa pelo espaço encontra o mesmo leque de obras de arte, desde pintura, roupa africana, artesanato, escultura e máscaras, que atraem a atenção dos turistas.

São milhares de objectos à disposição dos clientes, expostos em bancadas que custam uma taxa de ocupação semanal de 350 Kwanzas, à ordem de 50 Kwanzas por dia. Anualmente, o espaço ocupado custa 16.800 Kwanzas.

Apesar da remodelação, o mercado está quase às moscas, pelo menos em termos de potenciais compradores. Os artistas consideram a distância o principal motivo.

Desafiando o sol

A equipa de reportagem da Angop esteve no local e constatou o dia-a-dia do mercado.

Actualmente, o trabalho dos profissionais é desenvolvido debaixo do sol ardente. Em dia de chuva, o cenário é caótico e vários produtos ficam expostos à água.

Os artistas queixam-se da fraca publicitação do espaço para atrair turistas e pedem que as autoridades façam actividades recreativas, aos fins-de-semana, a fim de seduzir mais pessoas e melhorar as vendas.

Mutumosse Benvindo tem 53 anos e trabalha como artesanato desde 1992.

O profissional, que usa a técnica areia sobre tela, afirma que faltam condições de trabalho e que o índice de vendas está muito abaixo daquele do mercado anterior.

“Aqui não existem condições de venda, não existe sombra. Os clientes, por vezes, aparecem, mas aos fins-de-semana. Durante a semana, não aparecem, por causa da distância e por não saberem que o mercado mudou para esse recinto”, lamenta.

Acusa a administração do mercado de não conseguir resolver problemas básicos, alegando, por exemplo, que “a questão da cobertura não é da sua competência e ela ocupa-se apenas da higiene, comodidade e segurança do novo espaço”.

Em contrapartida, a administração do mercado defende-se e, na pessoa do seu director, Emílio Marcolino, considera infundadas as acusações, porquanto “os vendedores acompanharam e deram ideias de como o espaço devia ser concebido”.

O gestor justifica que a falta de sombra nalgumas zonas é uma questão de tempo, na medida em que as obras estão paradas, por alegado “incumprimento contratual entre as partes que assinaram”.

“Podemos ver que os ferros e todo o material estão montados, faltando apenas a montagem das chapas. Quando os vendedores saíram dos locais onde comercializavam, desfizeram-se das chapas que usavam, quando muito bem podiam ajudar a administração e trazer para aqui”, comenta.

A justificação sobre a situação da cobertura não convence os comerciantes, em particular Paulo Polo, 65 anos, que trabalha com artes plásticas desde 1990.

Vendedor de roupas africanas e bonecos, o profissional associa-se ao grito de socorro e deixa apelo às autoridades do mercado.

“Não existe clientela para poder vender uma obra. Ficámos duas semanas sem vender uma peça. Mas temos de pagar todas as semanas 350 Kwanzas, pela utilização do mercado”, diz, lamentando o facto de o espaço estar longe do centro da cidade. “Ninguém vem aqui comprar uma obra a pé ou de táxi. Isso é prejudicial para o negócio, sobretudo para nós, cuja vida foi sempre trabalhar com artes plásticas”.

Lamenta o facto de não terem sido ouvidos quando se decidiu a retirar o Mercado do Benfica, onde, afirma, o negócio “florescia” sem problemas. “Interagíamos com as pessoas, turistas, vizinhos e moradores do bairro”, queixa-se.

Em resposta à questão da afluência de turistas, o director do mercado diz ser falso problema, sustentando que, aos fins-de-semana e feriados, o espaço “é bastante concorrido”. É durante a semana que a procura cai.

“Nos dias de semana, diminui porque as pessoas que paravam eram viajantes, e que também a realidade socioeconómica do país baixou o poder de compras”.

Em contrapartida, o responsável concorda com a ideia de fazer mais promoção do espaço, instalando, por exemplo, um boneco em tamanho gigante da Rainha Njinga Mbandi, de Mandume e mesmo o mapa do país, de forma a valorizar a cultura e atrair turistas.

“As rádios e televisões do país deviam fazer um trabalho de propaganda do Mercado do Artesanato, de forma mais agressiva, que devia atrair mais turistas de todo o mundo. Assim, aumentavam as vendas dos artistas que cá labutam”, advoga.

A “fuga” dos turistas impactou negativamente no bolso dos comerciantes.

Daniel João, 48 anos, está há quase uma década ligado ao artesanato, trabalha com pau-preto, pau-rosa, pau-cinza e outros tipos de madeira com qualidade, para satisfazer uma clientela cada vez mais exigente. Mas tudo isso é feito em menor número.

Como artesão, faz todo o tipo de escultura, face à procura dos turistas, que são quem define o mercado. “Nesse momento, temos a palanca, embondeiros, máscaras, pensadores, mapas, zungueiras”.

Sobre os preços praticados, Daniel João explica que variam consoante a peça.

Informa, igualmente, que existem preços para todos os bolsos. O que não há são clientes, desde que foram colocados há sensivelmente um ano, no novo mercado ou na Feira do Artesanato.

“Podem encontrar-se peças de mil Kwanzas, como se pode cobrar por uma peça entre 50 a 60 mil Kwanzas, devido à qualidade do produto feito”, refere. Também é de opinião que as condições de acomodação “são péssimas”. “Quando começa a chover, as peças molham e estragam. Somos obrigados a comprar verniz para voltar a trabalhá-las, causando prejuízos na ordem de milhões de Kwanzas para todos os vendedores”, adverte.

Clientes valorizam arte

A crise de clientela na nova Praça do Artesanato é um facto, mas ainda há quem, entre centenas, se mantenha fiel à arte e recorra ao espaço para buscar peças.

É o caso de Nuno Ribeiro, de nacionalidade portuguesa, cliente habitual do mercado. “Tenho vindo de mês a mês e compro duas a três peças. Sou um coleccionador das peças deste mercado, porque existem peças fascinantes”.

Diz-se coleccionador de máscaras e esculturas, bem como grande apreciador de material tradicional. Hoje, há quase 20 máscaras em casa, todas compradas no mercado.

Ao contrário dos vendedores, afirma que o novo mercado tem melhores condições.

“Esse está em melhores condições de estacionamento. É mais calmo para se fazer uma compra e poder negociar com o vendedor”.

Artur Madureira, cidadão angolano, também é cliente antigo e já tem artistas preferidos.

Há largos anos, criou empatia com os criadores, desde o antigo mercado.

“Temos milhares de artistas plásticos anónimos que precisam de ser mais acarinhados, valorizados e apoiados. E isso que se faz aqui é o que se chama arte”.

Os artistas da Praça do Artesanato trabalham normalmente com pau-preto, que vem do município de Tomboco, província do Zaire.

Pela sua característica, faz dele a madeira que melhor se adapta para todo o tipo de trabalho. Pela sua cor preta, não precisa de mais tinta e torna-se resistente.

Trabalham também com a moreira, pau-ferro (que é mais rijo que os outros e pesado) e o pau-rosa, tudo a pensar na qualidade e no bem-estar dos clientes.

Fuga às taxas

Outra preocupação que vivem no dia-a-dia são as taxas.

O director do mercado, Emílio Marcolino, informa que, dos 329 vendedores, nem metade paga as quotas semanais de 350 Kwanzas.

O valor serve para despesas correntes: manutenção das casas de banhos, pagamento de funcionários e compra de águas em camiões-cisterna.

“Os artesãos, quando cá chegaram, ficaram seis meses sem pagar a respectiva caução. Mesmo agora, muitos deles não fazem o pagamento há muito, que é um valor simbólico”, desabafa o gestor do espaço.

Associado a todas essas dificuldades, há outro problema que incomoda os comerciantes e as autoridades do novo Mercado do Artesanato: a concorrência desleal.

Em Luanda, há locais que fazem venda de peças de artes em zonas não reconhecidas.

O director do mercado pede que as autoridades ponham cobro a estas práticas, por prejudicarem quem faz a arte de forma legal.

É dessa forma que ganham a vida os artesãos. Haja sol, frio ou chuva, mantêm-se firmes na produção de peças.

Se depender da disposição dos artistas, o negócio do artesanato tem pernas para continuar.

Mas, como será se persistir a tendência para a queda nos lucros e fuga de clientes? (Angop)

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