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Ações de intimidação em universidades se espalham pelo Brasil polarizado

O ambiente de ódio e intolerância que vem envenenando o Brasil nos últimos tempos também contamina as universidades brasileiras. Ainda que a animosidade entre grupos antagônicos não seja uma novidade no campus universitário, o que antes eram provocações e embates se converteram em ameaças, ataques e tentativas de censura que atingem professores e alunos. Um fenômeno que tampouco é exclusivamente brasileiro, já que universidades do Reino Unido e dos Estados Unidos também têm assistido a seus alunos, de diferentes posições do espectro político, optarem pela repressão e intimidação quando são confrontados com o contraditório.

No início desta semana, por exemplo, o departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP) recebeu um e-mail com ameaças ‘justificadas’ pela suposta agressão a jovem do movimento integralista que teria ocorrido no último dia 29. “Vou entrar atirando para matar o maior número de viados, travestis, esquerdistas e feministas”, dizia o texto, supostamente assinado por um aluno. A carta terminava com uma ameaça de suicídio e jurando lealdade ao Estado Islâmico. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo, o rapaz de 24 anos afirmou que seu nome foi usado indevidamente por hackers porque ele diz trabalhar em ações de combate à pedofilia na internet.

A ameaça teria sido uma reação depois que uma palestra de membros da Frente Integralista Brasileira (grupo surgido na época da Segunda Guerra Mundial simpático ao nazismo) foi impedida de ocorrer na faculdade de Letras por grupos contrários. A universidade afirmou estar “atenta” às movimentações e não suspendeu nenhuma das atividades no dia em que recebeu a ameaça. Já a coordenação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) diz ter informado sobre o episódio à Superintendência de Segurança da universidade, que acionou as autoridades policiais.

Também nesta semana, uma professora da Universidade de Campinas (Unicamp) foi ameaçada de morte pelo suposto pai de um aluno por divulgar “conteúdos sobre sexualidade”. O homem, que não se identificou, ligou para a secretaria afirmando que seu filho estaria desmotivado em prosseguir o curso de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos por causa do conteúdo debatido na sala de aula pela professora. E, por isso, “ia acabar com a vida dela”, caso ela continuasse a tratar de tais temas. A Universidade publicou uma moção de repúdio e solidariedade à docente.

Para o senador e professor da UNB Cristovam Buarque (PPS-DF), a polarização e intolerância das ruas ultrapassou os muros da universidade. “A universidade sempre foi um local de debate e não de seitas”, diz ele, que foi ministro da Educação no Governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Estamos perdendo o debate para a sectarização”, completa. Ainda segundo o senador, o sectarismo será um importante combustível para as eleições do próximo ano. “As ideias saíram do cérebro e foram para os punhos”, diz. “No ano que vem, o eleitor vai votar com ira e não com esperança. E quando as urnas se abrem para a ira, o resultado é um desastre. A próxima eleição não vai ser nem de lógica, mas de raiva”.

Os ataques e intimidações descritos acima ocorreram pela ação de grupos de extrema direita, os quais vem ganhando relevância no debate público. Mas grupos de esquerda também se envolvem em polêmicas do tipo. É o que vem ocorrendo durante as exibições do documentário O Jardim das Aflições, que aborda as ideias do filósofo Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brasileira. Após ter sido boicotado por cineastas no festival Cine PE, o filme foi exibido no último dia 27 de outubro em um auditório da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), no Recife. Na ocasião, estudantes contrários às posições do filósofo cercaram o ambiente do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH). Quando foram ver o que ocorria do lado de fora, foram recebidos com gritos de “Fascistas!” e “Recua, direita, recua”, segundo informou na ocasião o Estado de S. Paulo.

Os dois grupos então se enfrentaram, primeiro verbalmente e, depois, fisicamente. O EL PAÍS tentou sem sucesso entrar em contato com o cineasta Josias Teófilo, responsável pelo documentário — que neste mês de dezembro será exibido na UFRJ e na PUC-SP. Na ocasião, ele disse que estava “tendo que forçar a barra para ter um mínimo de voz divergente dentro da universidade”, precisando inclusive “se arriscar”.

Se o cerceamento a manifestações de esquerda é a ponta mais evidente deste recente movimento, ele estaria aparecendo como um revés a uma intimidação anterior, promovida pela própria esquerda a quem pensa diferente. “A Faculdade de História da USP não tem espaço para o contraditório”, comenta uma ex-aluna da instituição, que viu um aluno ter um trabalho opinativo sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ser devolvido porque sua opinião não era a mesma dos demais colegas da classe.

A falta de ambiente para debate também é apontada pelo antropólogo social Flavio Gordon, autor do livro “A corrupção da inteligência – Intelectuais e poder no Brasil. Em entrevista ao portal G1 para falar do título, ele argumenta que o campo de humanas no meio universitário brasileiro é de esquerda e simpática ao PT. “Num tal contexto, aos que pensam diferente restam duas opções: ou se calam e se acomodam à cultura do entorno, tornando-se assim invisíveis e politicamente neutralizados, ou enfrentam o isolamento. O mecanismo de isolamento é tanto mais eficaz quanto mais insidioso, porque não se explicitam os termos da discordância política, e o dissidente jamais é confrontado abertamente, tendo a chance se fazer ouvir, mas gradativamente afastado da comunidade”, diz ele.

A crítica é pertinente, mas têm sido desvirtuada por grupos com ações intimidatórias em diversos pontos do Brasil. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, grupos assumidamente nazistas vêm escrevendo frases racistas nas paredes do campus. No último dia 21 de novembro, foram encontradas na sala do Diretório Acadêmico do curso de Ciências Sociais frases como “brancos no topo” e “fora macacos”, acompanhadas de suásticas e o nome de três alunos do curso. Episódio semelhante ocorrera no Diretório Livre do Direito, onde símbolos nazistas também desenhados junto a nomes de dois estudantes de Direito. Diante do ocorrido, estudantes negros se juntaram para exigir um posicionamento público da universidade e ocuparam naquela mesma semana a reitoria.

“O que eles queriam era mais segurança, eles se sentiram muito intimidados. Havia grupos que passavam durante a ocupação com camisetas suspeitas. Eles estão com medo. Tem aluno meu com medo de ir no banheiro, com medo de apanhar e de morrer. Não são só os professores que estão sob ataque”, conta a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que acompanhou de perto a questão. “Aquele cenário de radicalização em que alguém pode chegar armado numa sala de aula confundindo todas estas questões não é um cenário muito distante”, completa a professora da UFSM.

A professora já teve de cancelar alguns debates, por não se sentir segura de abordar temas como o futuro da esquerda. “Eu já passei por uma situação extrema em que grupos ligados ao MBL ameaçaram invadir minha sala e eu tive de chamar a guarda da universidade”, recorda. Nessa época ela dava aula da USP e também foi exposta em um site como “a professora da revista Carta Capital ensinando a fazer protesto”, conta. Apesar disso, ela garante que nunca deixou de falar o que queria. Mas explica que os professores de instituições federais, por conta da estabilidade que possuem, se sentem mais livres para abordar determinados temas, enquanto nas universidades privadas alguns docentes já foram demitidos. “De um modo geral todo mundo está se sentindo acuado. A gente se sente preocupado de abordar temas sensíveis. Principalmente na graduação, já que na pós-graduação conhecemos melhor os alunos. Mas na graduação, há cada vez mais alunos filmando o que a gente fala e isso cai em um desses sites do Escola Sem Partido ou MBL, como aconteceu comigo”, acrescenta.

“Doutrinação” em escolas

A intolerância em ambiente acadêmico ocorre ao mesmo tempo em que grupos conservadores tentam emplacar o projeto do Escola Sem Partido nos colégios brasileiros. O projeto prega o que eles chamam de “o fim da doutrinação” nas escolas, mas especialistas argumentam que o objetivo por trás é essencialmente o mesmo dos casos relatados nas universidades: o de atentar contra a liberdade em ambiente acadêmico e calar aqueles que expressem suas ideias. O Ministério Público Federal já alertou sobre a inconstitucionalidade do projeto.

Nesta quinta-feira, o vereador de São Paulo Fernando Holiday, que é membro do MBL, pressionou para que a Câmara Municipal deliberasse sobre o tema. Grupos de direita com o próprio MBL e o Direita São Paulo lotaram as galerias da Casa para exigir a aprovação do projeto, mas membros da da União da Juventude Socialista também compareceram para protestar contra. Os ânimos se acirraram e a Guarda Civil Metropolitana teve de entrar no lugar para separar os militantes. No final, a vereadora Sâmia Bonfim (PSOL) obstruiu a votação ao pedir a contagem de presença dos vereadores presentes.

Em sintonia com o movimento, o jornal paranaense Gazeta do Povo lançou uma plataforma que reúne as denúncias de doutrinação ideológica nas escolas e tem potencial de despertar polêmicas. O chamado Monitor da Doutrinação exibe as denúncias de cada estado, organizadas em um mapa, e permite a busca de casos ocorridos nos ensinos fundamental, médio e superior. Lá é possível encontrar denúncias sobre a “promoção da ideologia de gênero” em sala aula, um “beijo lésbico” durante uma atividade escolar ou um “Fora Temer” escrito no quadro. Há também uma denúncia sobre alunos supostamente serem obrigados a elogiar o deputado ultraconservador Jair Bolsonaro.

A grande maioria dos textos, até o momento, diz respeito a supostas doutrinações do campo esquerdista. Uma delas, sob o título “Prova de escola gaúcha exalta sindicatos”, descreve a queixa da mãe de uma aluna de uma escola de Pelotas (RS) que citava uma prova em que foi empregada uma charge pelo professor(a) na prova de história de uma turma de 5ª série, que, segundo a denunciante, teria “descarada a questão política, não tinha conteúdo de história na prova, tinha um viés ideológico bem explícito”.

A charge compara as condições de trabalho de um homem no Brasil colônia e nos dias de hoje, com objetivo discutir o trabalho escravo contemporâneo: “1723: Manoel, escravo, corta cana por mais de 12 horas por dia. A única coisa que recebe em troca do trabalho é moradia e alimentação; 2001: Manoel, que não é escravo, corta cana por mais de 12 horas por dia. Recebe em troca de seu trabalho um dinheiro que mal dá pra alimentação e moradia”. E a questão da prova era: “A situação dos trabalhadores de cana melhorou após a abolição da escravidão? Justifique?”

A interpretação do monitor é que foi utilizada uma charge com viés político sobre temas como “a CLT, desigualdade salarial e as reformas previdenciária e trabalhista”. Nem no texto, nem na charge, há menção à palavra.

Sobre a acusação de “doutrinação” feita por determinados grupos, Cristovam Buarque diz que é um reflexo da intolerância. “Ainda que o professor estivesse doutrinando, a saída não é a agressão, é exigir espaço para que o outro possa opinar”, afirma. “Onde as opiniões podem se manifestar não há doutrinação”. (ElPais)

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