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Um mau ano para o senhor, Mr. President

Do ponto de vista asiático, 2017 marcou o declínio dos EUA como primeira potência e a irrefreável ascensão da China. Poderia ser diferente, se Trump tuitasse menos e governasse mais, opina o jornalista Alexander Freund.

Perdão, Mr. Trump, o senhor pode ver diferente, mas para a Ásia o presidente dos EUA certamente não é personagem política mais importante de 2017, apesar dos seus inúmeros tuítes sobre a Coreia do Norte e uma longa visita à Ásia. O senhor, sem dúvida, atraiu a atenção da mídia na região, mas isso não se traduziu em qualquer resultado significativo para ampliar e aprofundar os laços dos Estados Unidos com essa parte do mundo.

Seu primeiro ano em exercício só levou ambiguidade e instabilidade à Ásia. Ele começou com sua intensamente criticada proibição de ingresso nos EUA para cidadãos de sete países predominantemente islâmicos. Aí veio sua decisão recente de reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

A meta era tornar o seu país mais seguro com tais medidas, mas o senhor só conseguiu virar contra si os muçulmanos de todo o mundo, inclusive os da Ásia. É um mistério por que entre dos países em sua lista constava o Irão, mas não a Arábia Saudita ou o Paquistão, que comprovadamente promovem o terrorismo islamista, ou pelo menos o toleram.

O senhor tampouco apresentou uma estratégia convincente para lidar com o Paquistão e, em especial, o Afeganistão. Durante a campanha eleitoral, o candidato presidencial Trump jurou retirar todos os soldados americanos do Afeganistão o mais rápido possível. Mas agora o senhor quer até mesmo incrementar o número de seus militares naquela nação devastada pela guerra. O senhor não tem nem uma estratégia, nem uma visão para enfrentar a situação lá.

Sua administração tampouco tomou qualquer iniciativa para resolver a crise da minoria muçulmana rohingya em Myanmar, que igualmente resultou em gritantes atrocidades cometidas contra gente indefesa e centenas de milhares de deslocados. Apesar das notícias de violência e abusos maciços, a Casa Branca permanece calada. Mesmo o líder católico Francisco demonstrou mais compaixão, exigindo o fim da matança desse povo de fé diversa.

O senhor também não tem nenhuma estratégia para encarar as provocações constantes do regime de Kim Jong-un na Coreia do Norte – além do fluxo constante de mensagens no Twitter. As rigorosas sanções internacionais impostas contra a nação isolada no Extremo Oriente não foram capazes de alterar o comportamento beligerante norte-coreano. Além disso, a China e a Rússia só apoiaram pela metade os esforços do senhor.

Apesar de suas ameaças, o “Homem-Foguete” de Pyongyang colocou o país dele numa posição forte, de modo que não há alternativa senão entabular diálogos directos. Para resolver crises, são necessárias alianças, não gestos simbólicos. E o senhor fracassou em formar essas alianças.

A incerta situação de segurança na Península Coreana serviu de desculpa para o primeiro-ministro japonês, o conservador Shinzo Abe, mexer na Constituição pacifista do país. Parece que a questão do superavit comercial do Japão em relação os EUA foi colocado de lado, desde que Abe lisonjeou o senhor com “diplomacia de golfe”.

Parece que o senhor travou estranhas amizades políticas, por exemplo com o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte – um auto-proclamado carrasco engajado numa guerra sangrenta, oficialmente contra as drogas, que tem custado milhares de vidas naquele país.

O mundo também viu o abraço apertado do seu “amigo verdadeiro” Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano, que tem quase tantos seguidores no Twitter quanto o senhor. O senhor não conseguiu acertar com ele as disputas comerciais entre os EUA e a Índia, mas pelo menos reconheceu Nova Déli como parceiro confiável, sobretudo na luta contra o terrorismo islâmico. No processo, ignorou o fato de que seu amigo Modi e os adeptos dele são responsáveis por incitar o nacionalismo hindu na Índia.

Porém, o mais interessante é como o senhor se posicionou em suas negociações com a China. Durante a campanha presidencial, o senhor esbravejou contra as práticas comerciais desleal de Pequim, jurando dar-lhes fim, reduzir o gigantesco deficit comercial dos EUA, sustar a manipulação monetária chinesa, impor taxas punitivas e, se necessário, boicotar produtos chineses. “America First!”

Durante a visita à China, porém, o senhor deu para trás, como sempre, e as suas tímidas críticas foram ignoradas: começou como águia e acabou como pato. O máximo que conseguiu, foi louvar um brilhante futuro para os dois países e fechar novos acordos comerciais. Não era de espantar: afinal, o senhor estava diante do homem mais poderoso do mundo, o presidente da China Xi Jinping.

Desde que assegurou o segundo mandato como líder chinês, no congresso do Partido Comunista de Outubro último, ele dispõe de poder político irrestrito no país. Com a iniciativa “One Belt, One Road”, Xi apresentou uma visão que beneficiará a China e diversos outros países asiáticos.

Desse modo, Xi pretende expandir a influência e a posição de seu país como potência inigualável na Ásia, nas próximas décadas. A China planeia em longo prazo; o senhor parece só estar interessado em brincar com seu joystick do Twitter.

O sistema chinês de Estado uni-partidário, turbo-capitalismo governamental e controle absoluto não é desejável, em absoluto. Mas pelo menos Pequim, ao contrário de Washington, provou ser um parceiro confiável. Do ponto de vista das nações asiáticas, 2017 marca nitidamente o declínio dos Estados Unidos como primeira potência do mundo, e a irrefreável ascensão da China como super-potência global.

Com suas políticas desastrosas, o senhor perdeu credibilidade e incontáveis oportunidades de configurar positivamente os eventos geopolíticos. Portanto, Mr.Trump, 2017 não foi um ano nada bom, nem para o senhor, nem para a Ásia. (DW)

por Alexander Freund

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