Trabalhadores do Hospital do Lubango sem salário há dois anos

No Hospital Central do Lubango há cerca de 80 trabalhadores a passar por sérias dificuldades de sobrevivência. São médicos, enfermeiras, maqueiros, catalogadoras, secretárias, copeiras, cozinheiras, vigilantes. Em comum têm o facto de serem todos trabalhadores eventuais e de não receberem salário há praticamente dois anos.

Depois de muitas tentativas frustradas para resolver a sua situação junto da direcção do hospital, 11 elementos do grupo não suportaram mais as promessas de uma decisão permanentemente adiada e aceitaram falar com o Novo Jornal Online.

Vanda Garcia foi escolhida para porta-voz do grupo. Trabalha no hospital há nove anos. Conta que há funcionários que já trabalham na instituição há 12 e 15 anos, sempre como eventuais.

“Nessa altura (entre 2012 e 2014) éramos contratados pelo hospital e recebíamos os salários em dinheiro, em mão. O director geral era o Dr. Chipenda, que foi substituído depois por outra direcção que nos passou a funcionários de uma empresa chamada HFDAR sem sequer nos avisar. Um dia, do nada, reuniram connosco e informaram-nos que a partir daquela data éramos funcionários da HFDAR”.

As vozes dos restantes levantam-se para dizer que ainda questionaram a direcção. “«Assim do nada?» Mas não nos deram qualquer resposta e disseram-nos para assinar o contrato com a referida empresa. A directora do hospital era a Drª Francisca Diogo de Carvalho, que representou o HCL na assinatura dos contratos entre os funcionários eventuais e a empresa subcontratada pelo hospital.

A subcontratação da empresa pelo HCL aconteceu em Agosto de 2014, altura em que os funcionários eventuais daquela unidade de saúde passaram a ser pagos pela HFDAR.

“Ficámos então nessa empresa e tivemos salários até Dezembro. Até tivemos décimo-terceiro mês e um cabaz de natal”, conta Vanda.

“Já em 2015, ficámos o ano todo sem salários. Em 2016, quando vimos que não resolviam a situação, começámos a telefonar para a empresa HFDAR, na pessoa do responsável, o senhor Hélio. Ligávamos permanentemente para ele, para saber o que se passava, mas ele dizia-nos que a responsabilidade era do hospital e não dele. Quando reuníamos com o administrador do hospital, o Sr.. administrador dizia-nos que a responsabilidade era do senhor Hélio. Aquilo ficou um gira-gira. Entretanto, o administrador deixou de aceitar falar connosco e proibiu-nos de nos reunirmos no hospital”, lembra.

“No mesmo ano (2016), a direcção volta a mudar: A Drª Antónia Constantino, que nos pagou uma parte dos salários daquele ano, e nos voltou a contratar pelo HCL. O hospital reuniu connosco, em Fevereiro de 2016, e disse-nos: «a partir de hoje já não estarão com a HFDAR, e passam de novo ao hospital»”, narra.

Mas os salários de 2015 continuavam em falta: “No ano passado, no mês de Agosto, conseguimos uma reunião com o Sr.. Administrador que nos disse para actualizarmos as nossas contas bancárias, garantindo que o dinheiro da HFDAR iria ser depositado. Tal não aconteceu e o assunto, mais uma vez, morreu”, explica Vanda, que acrescenta: “Nessa mesma reunião, a administração dispensou cerca de 80 funcionários, alegando que não havia condições para pagar a todos, mas, para nosso espanto, foram contratando mais pessoal e os que foram dispensados não receberam os salários de 2015 e de Janeiro a Agosto de 2016”.

“A directora saiu e veio um outro, em Novembro de 2016, que só acabou de nos pagar o salário do ano passado há dois meses atrás, mas o administrador continua a ser o mesmo. Nesta altura temos uma dívida do ano de 2015 completo, e de Janeiro a Outubro deste ano, ou seja uma dívida de um ano com HFDAR e dez meses com o Hospital Central do Lubango”, conclui a secretária.

A situação em que vivem estes 80 funcionários chega a tocar a desumanidade, com trabalhadores a fazer turnos de oito horas sem comer, como o maqueiro José Mateus, que tem de transportar doentes escada acima, escada abaixo, porque o elevador de serviço não funciona há mais de um mês (ver notícia). Muitas vezes, conta, vai pedir “por caridade, uma sopa à sala dos médicos”.

“Eu dependo da minha mulher que vende bolinhos no mercado. Quando saio do hospital, tenho de ir ajudá-la a vender, zungando bolinhos na praça do peixe”, expõe.

“Eu fiquei sem casa porque não conseguia pagar a renda”, diz Diodora Kempe, vigilante e mãe de sete crianças. “Voltei para casa da minha mãe. Passo as noites na rua a vender batatas fritas ao lado de um fogareiro de uma outra colega que vende pinchos. Se eu não fizer isso os meus filhos não comem. Mas eu trabalho diariamente, de segunda a segunda. É coisa que me dói. Na semana passada vendi a minha única botija de gás para comprar medicamentos para o meu filho que está doente”.

Drama semelhante é o de Domingas Chipa, catalogadora: “Eu nem sempre tenho dinheiro para pagar a renda de casa e sou o braço direito dos meus irmãos pois somos órfãos e todos dependem de mim. Tive de vender o meu telefone para comprar material escolar para o meu irmão e muitas vezes dependo da caridade dos meus vizinhos”.

Os testemunhos são todos idênticos, doridos, feitos de fome e de privações. São perto de 80 trabalhadores, todos sem perspectiva de ser integrados no quadro do Hospital Central do Lubango, como lhes prometeram e prevê a Lei Geral do Trabalho, nem de receberem os salários em falta.

O Novo Jornal Online contactou o administrador do HCL em busca de esclarecimentos. Pedro Amado, quando atendeu o telefone e nos identificámos, informou-nos que a direcção do hospital tinha sido destituída de funções e outra tomaria em breve o seu lugar. Garantiu ainda que nos prestaria todas as informações mais tarde, depois de terminada uma reunião em que estava. Tentámos ligar mais tarde, como pediu o administrador. Pedro Amado não mais voltou a atender as nossas muitas chamadas telefónicas.

O Novo Jornal Online contactou também o proprietário da Empresa HFDAR, que garantiu que não paga aos ex-trabalhadores porque o HCL ainda não lhe pagou o valor dos salários referente a 2015. (Novo Jornal Online)

por Sandra Bernardo e Fernando Calueto

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