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Morte nas estradas reduz em nove meses

Estradas seguras, iluminadas e sem riscos de morte fácil.

É desta forma, que milhares de automobilistas e peões idealizam, todos os dias, a sua “cruzada” pelas perigosas vias rodoviárias do país.

Entretanto, o movimento frenético nas estradas nacionais há muito se afastou desse cenário ideal. Circular em segurança, pelas estradas do país, já começa a ser uma meta cada mais improvável, para quem, por meio de automóvel ou velocípedes, “rasga” centenas de quilómetros em busca do ganha pão.

Hoje, os acidentes de viação tornaram-se a segunda causa de morte em Angola (depois da malária) e são um problema que merece respostas urgentes de toda sociedade.

Os números oficiais recentes apontam para uma ligeira queda, nos últimos nove meses. Ainda assim, as estatísticas estão longe do ideal.

Só entre Janeiro e Setembro deste ano, mil e 855 cidadãos perderam a vida, vítimas de acidentes de viação, menos 224 em relação ao mesmo período de 2016.

Os acidentes produziram sete mil e 948 feridos (-161), num universo de sete mil e 365 acidentes (-702), de acordo com dados da Direcção Nacional de Viação e Trânsito.

É com esse breve balanço que Angola assinala o Dia Mundial em Memória às Vítimas da Estrada (comemorado anualmente no terceiro domingo do mês de Novembro), adoptado pela ONU, para evocar todos os que perderam a vida em acidentes de viação.

A efeméride foi especialmente criada para mobilizar toda a população mundial contra essa “violência previsível”, e confortar os milhões de parentes e amigos das vítimas que padecem nas estradas.

O impacto dos acidentes de viação é tão grande que chega a ceifar mais de dois milhões de cidadãos por ano e provocar milhões de feridos graves em todo o mundo.

Em Angola, os acidentes são quase que o “prato do dia” e não escolhem cor, raça, nem condição social.

Dez pacientes/dia no hospital

O reflexo dessa realidade é visto diariamente na enfermaria de ortopedia do Hospital Américo Boavida, onde a Angop encontrou internadas muitas vítimas de acidentes rodoviários. A maioria é jovem e corre o risco de ficar deficiente.

É o caso da funcionária pública Edivânia Gamboa, 23 anos de idade, natural de Benguela, que há um ano e sete meses conheceu o “sabor amargo” das estradas.

Seguia numa motorizada que fazia serviço de táxi, de volta para casa, quando viu o taxista embater contra outra motorizada e projectá-la violentamente para a estrada.

Sem possibilidades de reagir, Edivânia Gamboa foi atingida por um carro. Levada ao Hospital Geral de Benguela, foi-lhe diagnosticada fractura bilateral da tíbia.

Ali ficou dois meses e posteriormente foi transferida para Luanda, no Hospital Josina Machel, onde passou por uma cirurgia e permaneceu durante nove meses.

Regressou a Benguela, para fazer a fisioterapia recomendada pelos médicos, mas infelizmente os ossos ainda não estavam consolidados.

Em pouco tempo, voltou ao Hospital Américo Boavida e foi submetida a outra cirurgia, há dois meses.

Edivânia já vê uma luz no fundo do túnel, porque sente movimentos nos pés e sonha voltar a andar.

Mariana Fernandes, 44 anos, doméstica, é outra vítima da “fúria” das estradas. As circunstâncias do seu acidente são quase semelhantes às de Edivânia.

Na manhã de 2 de Novembro deste ano, decidiu apanhar um táxi-motorizado para ir ao mercado do 30, município de Viana, onde faz os seus negócios.

No meio do trajecto, o taxista embateu contra um camião. Mariana Fernandes fracturou a perna esquerda e há cinco dias está em tratamento na ortopedia do Hospital Américo Boavida, onde são atendidos 10 pacientes em média, vítima de acidentes de viação.

Segundo o chefe do Serviço de Ortopedia daquele hospital, Pedro da Rosa, três em cada 10 pacientes atendidos nessas condições passa por cirurgia.

“Muito dos pacientes que dão entrada à unidade hospitalar apresentam traumas severos de fracturas com exposição óssea”, explicou, sublinhando que o hospital recebe pacientes de Luanda e do Bengo.

O serviço de ortopedia é feito com 100 camas, 15 das quais berços para crianças que têm respondido à procura do Hospital. Mas o número é insuficiente.

“Ainda assim, temos tido superlotação, de maneira que, às vezes, os pacientes permanecem em macas, recebem alta precoce para prosseguirem o tratamento em casa”, lamenta.

Quadro grave nas estradas

O quadro estatístico nas estradas do país é grave. De acordo com o director nacional da Viação e Trânsito, Conceição Gomes, as consequências dos acidentes são bastante nefastas, no domínio económico e social das famílias.

O responsável refere que um trabalho de sensibilização tem sido feito com regularidade, mediante realização de campanhas de prevenção, fiscalização do trânsito, apelos para mais prudência nas estradas, aliados ao respeito pelo Código de Estrada.

Todavia, considera necessário reforçar a educação rodoviária e os níveis de consciencialização dos utentes da via, para que se reduza o índice de sinistralidade.

Regulamento sobre sinalização

Para ajudar a contrapor essa realidade, várias medidas vêm sendo tomadas.

O Ministério da Construção e Obras Públicas apresentou um documento sobre o projecto de Decreto Presidencial que aprova o Regulamento sobre a Sinalização do Trânsito.

A Polícia Nacional destacou as vantagens do projecto, sublinhando que permitirá ao país, sobretudo em matéria de sinalética, harmonizar o seu regulamento ao da região da SADC.

Os membros do Conselho Nacional de Viação e Ordenamento do Trânsito apreciaram também a proposta de mapeamento das principais vias de Luanda, com incidência na sinistralidade rodoviária.

“Este mapeamento vai facilitar os órgãos ligados às emergências médicas e prestação de primeiros socorros, Polícia e Bombeiros a deslocarem-se ao local imediatamente e sem constrangimentos, bastando que sejam dadas as coordenadas do local da ocorrência”, refoça a Polícia.

Os esforços para reduzir as mortes nas estradas vêm de todo lado: do executivo, da Polícia Nacional, das igrejas, da sociedade civil, mas é nos automobilistas e peões que recai a maior responsabilidade.

Nesse sentido, já foi também defendida a existência de uma base de dados, uma tarefa que tem sido levada a cabo pelo Ministério da Construção e Obras Públicas.

Se as medidas de políticas surtirão os efeitos necessários, a curto/médio prazo, só o tempo dirá.

Até lá, um árduo trabalho se exige nas estradas, onde o sangue e a dor continuam a ser a marcar o dia-a-dia, deixando milhares de órfãos e viúvas/viúvos pelo vasto território nacional. (Angop)

por Francisca Augusta

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