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João Lourenço, o militar que fez xeque mate ao clã Eduardo dos Santos

De uma penada, Presidente angolano retirou poder e negócios a três dos filhos de José Eduardo dos Santos. Quem esperava uma transição suave enganou-se.

Antes de ser escolhido pelo MPLA para suceder a José Eduardo dos Santos, João Lourenço era visto como um homem do regime. Conhecido pela dedicação ao partido, pelo “espírito de corpo” e sentido de Estado, teve uma ascensão quase ininterrupta desde a independência do país até chegar ao mais alto da nação angolana.

Quem esperava uma transição suave – a maioria dos observadores – enganou-se. Lourenço é hoje encarado como o homem que está a provocar uma revolução no regime. Exonerou Isabel dos Santos da presidência da petrolífera Sonangol, acabou com o contrato que a televisão pública TPA mantinha com ‘Tchizé’ e ‘Coreon Du’, outros dois filhos de José Eduardo dos Santos. Há quem antecipe que o próximo alvo será José Filomeno dos Santos, outro dos filhos do ex-chefe de Estado, que gere o Fundo Soberano de Angola. Jogador de xadrez, fez a mais ousada das jogadas.

A avaliação do jornalista e ativista Rafael Marques, numa entrevista recente ao Expresso, é reveladora:”A UNITA é uma oposição formal, política e efetiva não existe. É uma oposição que é feita pouco antes das eleições, mas no quotidiano não existe. Neste momento, o maior opositor do regime é o João Lourenço”.

Antes das eleições, Paulo Guilherme, editor do Africa Monitor, que presta serviços de análise estratégica sobre países africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), definia ao Jornal Económico o perfil do então candidato do MPLA às eleições presidenciais.“O seu pensamento político é o pensamento do partido. Não é uma figura carismática, mas pela sua antiga militância e relevo dos cargos ocupados no partido, ao nível da coordenação, e no governo, mais recentemente em pastas sensíveis como a Defesa, conhece o aparelho partidário provavelmente como ninguém”. O facto de ter “o reconhecimento e o respeito da hierarquia militar dá-lhe condições únicas” para atuar, apontava o analista, que na altura se pensasse que esse poder iria ser utilizado para uma transição suave e para unificar o partido. Não foi assim.

Diferendo antigo com José Eduardo dos Santos

O historial de Lourenço já indiciava que a cohabitação com José Eduardo dos Santos não seria pacífica. Em 2003, José Eduardo dos Santos tinha dado indicações de que iria retirar-se. Lourenço apareceu em público a defender que a palavra do Presidente tinha de ser cumprida e isso foi o suficiente para o secretário-geral do MPLA ser visto como uma fonte de contestação ao poder do Presidente. Houve consequências. Foi afastado de secretário-geral e a travessia no deserto só foi ultrapassada em 2014, quando foi nomeado ministro da Defesa.

Agora, o apoio das forças armadas é determinante no embate com o clã do ex-presidente. O gene político de João Lourenço tem antecedentes militares. Nascido há 62 anos na cidade do Lobito, conviveu desde novo com a contestação da família ao regime de Salazar. O pai, um enfermeiro do Porto do Lobito nascido em Malange, foi um dos opositores à ditadura portuguesa e a família sofreu na pele essa opção. João teve de fazer os estudos primários e secundários na província do Bié, onde o pai esteve em regime de residência vigiada durante dez anos, depois de ter estado detido três anos na prisão de São Paulo, em Luanda, pela atividade política clandestina.

Depois de completar os estudos no então Instituto Industrial de Luanda, que coincidem com o final da ditadura em Portugal, junta-se à luta de libertação nacional. Participa em combates na fronteira contra a coligação FNLA/Exército Zairense e, a partir do morro do Tchizo em Cabinda, integra o primeiro grupo de combatentes que entraram em território nacional.

É enviado para a União Soviética com uma bolsa de estudo e frequenta a Academia Superior Lénine entre 1978 e 1982. Tem formação militar com os soviéticos e do frio também trouxe um canudo em Ciências Históricas. Esteve envolvido na guerra em diferentes escalões militares, e hoje é general na reserva. Os estudos na União Soviética incutiram-lhe a doutrina marxista-leninista, mas no final dos anos 90 o MPLA reviu o seu posicionamento e incorporou uma visão mais pró-mercado.

O ímpeto reformista só poderia ser avaliado quando José Eduardo dos Santos sair de cena definitivamente. “Há uma nova geração no MPLA, muitos deles filhos da elite formados no estrangeiro, que anseia por assumir cargos de governação que muitas vezes estão reservados, por critério de antiguidade, a personalidades de maior renome e com carreiras políticas mais longas. Lourenço terá de gerir esta tensão”, acrescentava o analista. (Jornal Económico)

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