Nokia 8. Quando a nostalgia não é tudo

A HMD ressuscitou a Nokia e lançou o primeiro topo de gama para competir com os grandes. Tirar fotos com as câmaras frontal e traseira em simultâneo cativa, mas o Nokia 8 merecia ser melhor.

Era de esperar que a HMD — ao ressuscitar a marca Nokia e querendo competir com os grandes nomes dos smartphones — trouxesse para o mercado um telemóvel que inovasse mais. Não o fez. O Nokia 8 vive da nostalgia de um nome que tem potencial para mais, mas que se esconde nas glórias do passado.

Estava verdadeiramente entusiasmado com o lançamento do Nokia 8. Quando muitos mudaram para smartphones Android e iPhone, o meu gosto pela marca foi tanto que só há um mês deixei de usar um Nokia Lumia (o 930). Sim, fui dos utópicos que acreditou que o Windows Phone ia ter algum sucesso. Não foi pelo sistema operativo — era muito bom, mas pecou tanto inicialmente que mereceu o desfecho –, era pelos equipamentos. O Nokia Lumia 930 foi o último flagship (modelo topo de gama) que empunhava orgulhosamente o nome Nokia. Não era perfeito, tinha problemas de bateria e falta de cartões SD, mas era um telemóvel diferente. Acima de tudo, sentia-se que era um Nokia: resistente, rápido e com um design que não passa despercebido.

O Nokia 8 pode ser um Nokia, mas parece-se com tantos outros smartphones e faz-nos esquecer tudo o que a marca finlandesa já representou no passado. Quem não se lembra do Nokia 3310, lançado em 2000?
É resistente, mas o design podia ser melhor

As características do Nokia 8 são as que podemos encontrar na maioria dos topo de gama. Ecrã de 5,3 polegadas (à prova de pó e salpicos), protegido em vidro esculpido com o resistente Corning Gorilla 5. Um processador Snapdragon 835 e memória RAM de quatro gigabytes fazem o sistemas operativo correr sem solavancos. O smartphone lê a maioria dos formatos áudio e vídeo e tem os extra a que estamos habituados: giroscópio, sensor de luz e de proximidade, entrada de auricular, duplo toque para desbloquear e reconhecimento de voz. Tem também um sensor de impressão digital que surpreendeu pela qualidade. Tudo isto acomodado em 160 gramas de telefone com uma espessura 7,9 milímetros.

O corpo em alumínio é revestido em plástico nos cantos. Em termos de resistência, que é uma das características que mais define os telemóveis da Nokia, este modelo cumpre os parâmetros. Depois de o utilizarmos, percebemos que não é um telemóvel que deixa de funcionar à primeira queda. No entanto, utilizar o smartphone sem uma capa protetora é imprudente, porque o rebordo curvo “escapa” facilmente das mãos. É um claro erro de design que não se compreende e mostra que o cuidado com os detalhes também “escapou” à fabricante.

Quanto ao som, a HMD gaba a coluna OZO do Nokia 8 com “qualidade de Hollywood”. Em comparação com outros telemóveis, a qualidade é clara, mas quando optamos por utilizá-lo no modo horizontal a única coluna que tem fica bloqueada pelas mãos. Para quem gosta de jogar jogos no smartphones isso significa som abafado. Com auriculares, as músicas e vídeos que ouvimos surpreenderam pela positiva.
Bateria para um dia inteiro

Os pontos a favor do Nokia 8 estão na bateria. Nas duas semanas em que testámos o equipamento, com notificações ligadas, som, ecrã com brilho alto e um ou outro jogo durante o dia, chegávamos às 11 horas da noite com 40% de bateria disponível. Tínhamos tirado o telefone do carregador por volta das 8 horas da manhã. Os 3090 milimampères-hora (mAh) da bateria que dão energia ao smartphone são bem otimizados e o telefone só aqueceu – e pouco – quando abrimos a câmara com outras aplicações ligadas.

Anunciado como “o Android mais puro que há” (sem aplicações extra além das do sistema operativo), como diz a HMD, correu sem problemas todas as aplicações que instalámos e não nos chateou com apps desnecessárias. Continuamos sem perceber como é que um sistema operativo “puro” vem sem aplicação de gravação de som da Google: é preciso descarregá-la na Play Store. Mas esta ausência mostra onde a Nokia falha. O Android “puro” pode ser o desejável nos smartphones, mas a Nokia perde a oportunidade de continuar a ser mestre onde já era mestre: no software. Os telefones da marca eram simples e intuitivos.

Por muito que a última versão do Android, o Nougat, seja um sistema sem muitas falhas e relativamente fácil de usar, não é Nokia. Falta o toque da marca e teria sido interessante ver um software Android melhorado por quem nos ensinou a mexer em telemóveis.

O sensor de luz automático não é o melhor: em vez de se adaptar à luz ambiente, reduz pouco a luz do ecrã, o que é incómodo quando utilizado em ambientes com pouca visibilidade. Isto podia ser melhorado com a opção de um modo noturno, que tira a luz azul que perturba o sono, mas o Nokia 8 não vem com essa funcionalidade. Não é imperativo um smartphone tê-la, mas numa época em que até o Windows 10 adiciona esta opção a (muitos) computadores, não se compreende por que a Nokia não a adicionou (mais uma vez: falta de atenção aos detalhes?).

No campo da luminosidade, também é importante referir a função Glance, que permite — com o telefone bloqueado — ver as horas, chamadas não atendidas e mensagens por ler. Foi introduzida pela Nokia quando lançou os modelos Lumia. Consome pouca bateria e facilita o acesso à informação, mas pode ser incómodo à noite. Em vez de aparecer apenas luz nos números, todo o ecrã transmite luz quando tem a opção ligada. Num quarto escuro é claramente visível e se quiser dormir, vai ter de virar o ecrã para baixo.
Sabe o que é uma bothie?

A única verdadeira novidade que o Nokia 8 traz são as bothie (fotografias em ecrã repartido que mostram ao mesmo tempo o que a câmara traseira e frontal estão a captar). É uma funcionalidade engraçada, que faz questionar como é que ainda não estava presente em nenhum telemóvel. Contudo, a app nativa de fotografias nesta opção podia ser mais intuitiva. As opções de câmara (principal, frontal e dupla) só aparecem quando se clica num ícone no topo do ecrã (muito parecido com o logótipo do Instagram ). Apesar de o sistema ser fluído, são demasiados toques quando queremos tirar uma selfie ou bothie.

A máquina fotográfica é um dos pontos fortes do Nokia 8. Quando se tiram fotografias duplas em ambientes escuros percebem-se as diferenças entre as câmaras (frontal e traseira), principalmente na luminosidade das duas fotografias. O formato que está pré-definido na câmara frontal é o 4:3. Se quisermos tirar uma fotografia com outro formato é preciso alterar o formato nas opções. Para quem está habituado a mexer em smartphones, isto pode não ser um problema, mas é mais uma prova de que para fazermos uma melhor utilização do Nokia 8 é preciso configurar cada característica do telefone.
Veredicto final: é capaz, mas não inova

O Nokia 8 é um telefone capaz, mas que não inova o mercado. Se não fosse pelo efeito nostálgico da marca, este flagship poderia perfeitamente passar despercebido. Pelo preço a que foi introduzido no mercado, corresponde às expectativas de um smartphone topo de gama, mas há outras opções. (Observador)

por Manuel Pestana Machado

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