São-vicentinos manifestam-se contra centralismo no Dia da Independência de Cabo Verde

Um grupo de cidadãos de São Vicente convocou para o Dia da Independência Nacional, 05 de julho, uma manifestação contra o “centralismo exacerbado”, que, consideram, está a ter efeitos devastadores na segunda maior ilha de Cabo Verde.

A ideia da manifestação surgiu por iniciativa do movimento Sokols, cujo mentor, Salvador Mascarenhas, lançou o desafio através da sua página na rede social Facebook.

“E se ‘soncente’ saísse para rua no dia 5 de julho”, perguntou Salvador Mascarenhas, que em declarações à Rádio Morabeza, disse não ser possível o país continuar a desenvolver-se a duas velocidades.

Com o lema “Estamos cansados de ser ignorados, basta”, a iniciativa, cuja organização mobiliza cerca de duas dezenas de cidadãos e está registar grande adesão nas redes sociais, pretende fomentar uma “cidadania ativa e independente”.

“Somos a favor de um Cabo Verde mais harmonioso, um Cabo Verde onde as pessoas tenham mais direitos, não esse Cabo Verde em que não nos revemos, que é um Cabo Verde onde alguns são mais iguais do que outros. Somos contra o centralismo discriminatório”, defendeu Salvador Mascarenhas.

Na origem do movimento, está o lançamento recente da primeira pedra do ‘campus’ da Universidade de Cabo Verde, que será construído na cidade da Praia, ilha de Santiago, num investimento de cerca de 50 milhões de euros, financiado pelo governo chinês.

O investimento é considerado pelos promotores da manifestação como um “exemplo paradigmático” do “desinvestimento público” e do “desvio de projetos” de São Vicente para Santiago.

“A manifestação é muito mais profunda do que a questão dos polos, é o reflexo do país desequilibrado a duas velocidades onde se concentram todas as riquezas num só local e o resto à míngua. Somos energicamente contra”, lê-se na página de Salvador Mascarenhas na rede social Facebook.

A manifestação está convocada para 05 de julho, feriado e dia em que se assinalam os 42 anos da independência de Cabo Verde, pelas 10:00 na Praça Estrela, no Mindelo.

Para os organizadores, que se afirmam independentes de quaisquer partidos políticos, chegou o momento de São Vicente “dar um basta” no “centralismo exacerbado” dos sucessivos governos do período pós-independência que, consideram está a ter “reflexos devastadores” na economia da ilha.

A manifestação concentrou hoje parte do debate no parlamento cabo-verdiano, no mesmo dia em que o primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva chegou a São Vicente para apresentar um conjunto de investimentos para a ilha.

O deputado do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) eleito pelo círculo de São Vicente João do Carmo defendeu que a manifestação é um “sinal claro que o povo de São Vicente chegou ao seu limite e já não quer ouvir boa conversa”.

“Se o Governo não souber fazer a leitura deste momento podemos chegar a um ponto em que todo o povo de São Vicente irá exigir muito mais deste Governo e do governo local”, precisou João do Carmo.

O deputado apelou para que a manifestação tenha “presença maciça do povo de São Vicente”, no que foi criticado pela deputada do MpD Celeste Fonseca

A parlamentar da maioria assegurou que São Vicente “faz parte da agenda política do Governo” e que as necessidades da ilha são uma preocupação do MpD.

O deputado e presidente da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), António Monteiro, cujo partido tem a sua grande base de apoio em São Vicente, considerou que “quando o povo demonstra o seu descontentamento de forma ordeira e civilizada” os políticos devem “baixar as orelhas”.

O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, que está em São Vicente para apresentar, na sexta-feira, um conjunto de investimentos, também reagiu à convocatória da manifestação, adiantando que a indignação relativamente à localização do campus universitário não é dirigida ao Governo atual.

“Manifestações que possam ser feitas ou indignação relativamente à localização podem ser legítimas, mas deixem-nos fora relativamente a este assunto porque não estivemos nem base da decisão nem na base da escolha”, disse.

O primeiro-ministro e os ministros da Economia, José da Silva Gonçalves, e das Infraestruturas, Eunice Silva, apresentarão sexta-feira, no Mindelo, os projetos da Zona Económica Especial, do Parque Tecnológico, da Escola do Mar, do Terminal de Cruzeiros, além, dos projetos turísticos S. Pedro Hills e de Salamansa.

As manifestações promovidas pela sociedade civil são raras em Cabo Verde, tendo a mais expressiva ocorrido em 2015 contra a proposta de aumento dos vencimentos dos titulares de cargos políticos. (RTP)

por Lusa

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