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“No Brasil as pessoas se fantasiam de negro para ridicularizar”, Djamila Ribeiro
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“No Brasil as pessoas se fantasiam de negro para ridicularizar”, Djamila Ribeiro

(VOA)

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O Carnaval é uma das festas populares mais conhecidas do mundo, lembrado sempre pela sua animação, seus desfiles coloridos, suas fantasias vibrantes e sua música e dança contagiante.

Os principais festivais de Carnaval se encontram no Brasil, onde acontecem grandes desfiles e festas que atraem milhões de pessoas todos os anos para cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. As escolas de samba e os blocos de carnaval são os grandes locais de festa para os brasileiros durante o feriado.

A tradição também está presente em outros locais, como em países africanos como Angola e Guiné-Bissau.

Durante o carnaval, é comum encontrar nas ruas e festas das cidades pessoas vestidas de diversas formas, fantasiadas de diversos temas, como super-heróis, pessoas famosas e até mesmo homens vestidos de mulher.

Entretanto, por trás de toda essa festa, se esconde um problema que nem sempre é percebido pelo público.

Uma das fantasias que se encontra comumente entre quem faz a festa é, também, a de pessoas de cor branca imitando pessoas de cor negra, com a pele pintada de preto e agindo de forma caricata.

Esse é, para a escritora Djamila Ribeiro, o grande problema do Carnaval. Tal fantasia, segundo a autora, se trata, na verdade, de um grande ato de racismo e de ofensa à cultura negra.

“É muito comum aqui no Brasil as pessoas acharem que não tem problema nenhum se fantasiar de negro. E sempre é no intuito de ridicularizar, porque o que é se fantasiar de negro? Porque como pessoas negras nós somos diversos, temos traços diversos, alturas diversas. Reduzir todo um grupo a um estereótipo é algo que é ofensivo.”

No texto “Mulher negra não é fantasia de carnaval”, Ribeiro afirma que tal fantasia remete ao chamado black face, prática comum no século XIX. Nessa época, homens brancos se pintavam como negros para realizarem shows, se apresentando de forma caricata. Trata-se de uma representação de como eles imaginavam que negros agiam, reforçando um estereótipo nem um pouco verdadeiro.

Logo, as fantasias atuais de carnaval seriam uma forma de black face, na qual pessoas que não são negras agem e se vestem da forma que elas imaginam que negros são. Por meio disso, propagam estereótipos e diminuem a cultura negra.

Um exemplo atual citado pela escritora é o bloco de carnaval Domésticas de Luxo, de Juiz de Fora, em Minas Gerais, no Brasil. O tradicional grupo se veste todos os anos com roupas utilizadas por empregadas domésticas, e pintam seus rostos de preto. Ribeiro comenta: “Pra eles, toda mulher negra automaticamente é doméstica. E segundo, eles se pintam de uma maneira totalmente ultrajante, colocam bastante tinta preta (…) e realmente não veem nenhum problema nisso”.

Segundo a autora, falta conscientização ao povo brasileiro quando o assunto é racismo.

“Muita gente ainda não conseguiu se conscientizar o quanto que isso é ofensivo, eles acham que é brincadeira de carnaval. Você se fantasia de branco? Nunca vi. E acham que não tem problema nenhum fazer isso, infelizmente. Eu acho que ainda vai demorar muito tempo para as pessoas conseguirem refletir sobre, porque a gente vive em uma sociedade racista que está o tempo todo refletindo esse tipo de discurso.”

Pode-se perceber a frequência de que o preconceito e a discriminação acontecem em números: em 2013, apenas no Carnaval de Salvador, foram registrados 402 casos de racismo.

O carnaval de 2015 acontece entre os dias 13 e 17 de fevereiro. Para quem for participar da festa, para que este seja um evento de apenas alegria, vale a pena pensar, antes de sair de casa, se a sua fantasia não pode acabar ofendendo alguém. (voa.com)

por Leonardo Finkler

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