Aquecimento climático, uma bomba-relógio que origina conflitos no mundo

As emissões de dióxido de carbono provocam temporais, ondas de calor, secas ou inundações e se continuar assim os fenómenos extremos serão cada vez mais frequentes (Foto de DIMITAR DILKOFF/AFP)
As emissões de dióxido de carbono provocam temporais, ondas de calor, secas ou inundações e se continuar assim os fenómenos extremos serão cada vez mais frequentes (Foto de DIMITAR DILKOFF/AFP)

Os cientistas e especialistas em temas de segurança alertam há anos para o risco de que o aquecimento climático gere instabilidade e conflitos se prosseguir ao ritmo actual, algo que, segundo alguns, já está ocorrendo.

As emissões de dióxido de carbono provocam temporais, ondas de calor, secas ou inundações e se continuar assim os fenómenos extremos serão cada vez mais frequentes, e consequentemente as disputas pelos recursos.

“Menos água e recursos alimentares, aumento das migrações, tudo isso aumentará indirectamente os riscos de conflitos violentos”, afirmam em seu último relatório os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Alguns consideram que este fenómeno já é uma realidade, enquanto outros, mais prudentes, não estão certos.

“Em alguns países africanos, o aumento dos conflitos violentos é o sinal mais chamativo dos efeitos acumulados da mudança climática”, afirmou em 2012 o Institute for Security Studies (ISS), com sede na África do Sul.

“No Sahel, a desertificação gerou conflitos entre produtores de gado e agricultores pelas terras disponíveis”, ressalta o documento, que afirma que “os efeitos deste tipo, vinculados ao clima, já originaram conflitos violentos no norte de Nigéria, Sudão e Quénia”.

Em 2007, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que a violência na região sudanesa de Darfur se devia, em parte, às rivalidades entre nómadas e agricultores sedentos por água e terras de pastoreio.

Em 2011, vários observadores também relacionaram as Primaveras Árabes com o calor provocado pelas mudanças climáticas em diversos países produtores de cereais.

O aumento recorde dos preços dos alimentos pela crise dos cereais russos, ucranianos e cazaques foi a faísca que desencadeou a revolta nos países do Mediterrâneo já asfixiados pela pobreza, desemprego e opressão política, estimam.

Para o ex-vice-presidente americano Al Gore, a mudança climática também desempenhou um papel na guerra na Síria.

“De 2006 a 2010 uma seca histórica, vinculada ao clima, destruiu 60% das fazendas da Síria, 80% do gado e levou um milhão de refugiados às cidades, onde se encontraram diante de outro milhão de refugiados que fugiam da guerra no Iraque”, declarou em Davos em Janeiro.

Conclusões prudentes

Os cientistas do clima são mais prudentes ao estabelecer vínculos directos entre o aquecimento climático e os conflitos.

“Costumam citar o exemplo de Darfur”, mas “a realidade é mais subtil e a maior parte dos pesquisadores admite que o contexto político e económico foi o principal factor do conflito”, escreveu o climatólogo Jean Jouzel.

Para Mark Cane, professor de ciências da terra e do clima da universidade Colúmbia de Nova York, na Síria, cabe vincular o descontentamento popular com a seca de 2007-2010, a pior registada no país.

Mas lembra que é complicado atribuir um fenómeno meteorológico concreto à mudança climática, um movimento que actua ao longo das décadas.

Além disso, é impossível afirmar que um conflito “não teria ocorrido sem esta ou aquela anomalia climática”, acrescenta. Entram em jogo a política e outros factores.

No momento, as forças armadas estão se preparando, afirma Neil Morisetti, ex-almirante e ex-conselheiro do clima do governo britânico.

Em muitos países, os analistas militares já incluem a mudança climática em sua avaliação de riscos, afirma.

E o Pentágono trabalha com a hipótese de um futuro sombrio. Em seu mapa do caminho de 2014 “para uma adaptação à mudança climática no mundo”, afirma que o aumento das temperaturas e os fenómenos climáticos extremos aumentarão “a instabilidade mundial, a fome, a pobreza e os conflitos”. (afp.com)

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