Apelo a Passos para rever posição face à Grécia

(Enric Vives-Rubio )
(Enric Vives-Rubio )

Numa carta dirigida ao primeiro-ministro, vários cientistas, economistas, embaixadores e políticos de todos os sectores defendem que é “do interesse de Portugal contribuir activamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias” e que é “contraproducente” a forma como o Governo encara o problema grego.

A carta tem duas ideias principais: O Governo português, ao insistir, a propósito da Grécia, que “a política de austeridade prosseguida se deve manter inalterada”, escolhe um caminho “contraproducente”; mais ainda quando esta é, na opinião dos subscritores, uma “oportunidade que não pode ser desperdiçada para um debate europeu sobre a recuperação das economias e das políticas sociais”.

No momento em que Passos Coelho se prepara para enfrentar um dos mais decisivos Conselhos Europeus do seu mandato, esta quinta-feira, em Bruxelas, a carta surge com diversas intenções. Um “apelo”, um “pedido”, um “alerta à opinião pública”. É assim que vários dos autores descrevem ao PÚBLICO esta iniciativa.

Subscrevem esta carta vários dos dinamizadores do anterior “Manifesto dos 74”, sobre a renegociação da dívida portuguesa, como António Bagão Félix, Francisco Louçã, João Cravinho e Carvalho da Silva. Mas esta carta tem outros nomes que, adianta Pedro Adão e Silva, um dos autores, “revelam que há um consenso alargadíssimo na sociedade portuguesa, de que o Governo não faz parte”. No campo político, há personalidades de todos os quadrantes: Octávio Teixeira (PCP), Mariana Mortágua (BE), José Reis (Tempo de Avançar), Carlos César (presidente do PS), Pacheco Pereira (PSD), Ricardo Bayão Horta (CDS). A principal novidade é a inclusão de cientistas que habitualmente não integram este tipo de manifestos, como Maria Mota (Prémio Pessoa 2013) e Mónica Bettencourt Dias, por exemplo.

Para Octávio Teixeira, esta carta aponta a abordagem “completamente errada” do Governo português face à Grécia: “Portugal tem problemas idênticos e não deve ter uma posição de total oposição à abertura de negociações. Por isso alertamos o primeiro-ministro para o seu dever de pensar o nosso país também. O que tem sido dito é contrário aos interesses de Portugal.” Pedro Adão e Silva salienta, ainda, que a carta rejeita “uma solução bilateral” e aponta o caminho “de uma resposta europeia”. José Reis, director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, concorda: “Antes de ser grego ou português, este é um problema europeu. A solução só pode ser cooperativa, solidária e europeia.”

Para Francisco Louçã, “Portugal não se pode isolar de um debate que pode ser decisivo ou perigosíssimo para a Europa”. O perigo está na tentação de forçar “a saída da Grécia do euro”, o que seria “gravíssimo”.

O almirante Melo Gomes, ex-chefe do Estado-Maior da Armada, considera que “a situação mais perigosa” para Portugal seria ficar isolado “com uma posição radical, e não com uma atitude construtiva e de aproximação” face à Grécia.

O discurso do primeiro-ministro, a este respeito, tem apontado a Grécia como um caso “singular” no contexto europeu. “A Europa tem o dever e o interesse em ajudar a Grécia a ultrapassar os seus problemas, o que não pode é fazê-lo de qualquer maneira, o que não se pode dizer é que a Grécia é um problema da Europa, dos portugueses, dos espanhóis e dos franceses.”

Já o Presidente da República proferiu esta quarta-feira declarações ainda mais duras: “A Grécia não pode fazer o que bem entende.” Para Cavaco Silva, “Portugal tem vindo a demonstrar solidariedade em relação à Grécia para que ela permaneça na zona do euro. Além do empréstimo que fizemos à Grécia de cerca de 1100 milhões de euros, Portugal tem vindo a transferir para a Grécia o produto dos juros das obrigações na posse do Banco de Portugal, o que significa muitos milhões de euros que saem da bolsa dos contribuintes portugueses”. Esta última afirmação é polémica, uma vez que os juros das obrigações gregas apenas são incluídos no Orçamento português por uma questão “política”, dado que o BCE – que é quem de facto compra a dívida grega, e não os “contribuintes portugueses” – acordou com os Estados-membros um processo de devolução indirecta dos juros, tal como foi decidido no processo de reestruturação da dívida helénica.

A afirmação de Cavaco levou Carlos César a acusá-lo de ter “pouco sentido de Estado”. Octávio Teixeira prefere a ironia: “Estar calado é mau, mas é melhor do que dizer coisas destas…” (publico.pt)

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