Antecipação de reembolso ao FMI não significa melhora da situação em Portugal

Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças de Portugal. (Governo de Portugal/Rodrigo Gatinho)
Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças de Portugal.
(Governo de Portugal/Rodrigo Gatinho)

Enquanto a Grécia entra em confronto com a União Europeia para renegociar a sua dívida junto aos credores internacionais, Portugal quer antecipar o pagamento de mais da metade do que deve ao Fundo Monetário Internacional. O país deseja quitar € 14 bilhões do empréstimo recebido do FMI, em um prazo de dois anos e meio.

O objectivo do governo português é diminuir os gastos com os juros sobre a dívida, a exemplo do que fez a Irlanda. O valor que poderá ser poupado ainda não foi divulgado. A ministra das Fianças do país, Maria Luís Albuquerque, afirma que Lisboa já conseguiu acumular um “montante de reservas de liquidez muito significativo”, o que possibilita a devolução do empréstimo.

Mas na opinião do professor de Economia José Reis, da Universidade de Coimbra, a situação é um reflexo das intervenções do Banco Central Europeu no bloco económico e da conjuntura mundial, e não da melhora da economia portuguesa.

“Subitamente, o dinheiro ficou barato. Aquelas taxas de juros, que eram tão punitivas para certos países europeus, e a dificuldade de acesso aos mercados diminuíram muito. Há muita disponibilidade de liquidez”, explica. “O financiamento no mercado internacional ficou fácil. O governo português recorreu a isso, que lhe permitiu aumentar a sua própria liquidez e repor empréstimos que estavam com taxas de juros mais altas, que poderão ser substituídos por empréstimos a taxas mais baixas.”

País continua sufocado

O professor destaca que as medidas de austeridade impostas ao país em troca do empréstimo de € 78 bilhões bloquearam os investimentos. Como consequência, a economia perdeu dinamismo e o retorno do crescimento se faz a passos lentos. Neste ano, Portugal deve crescer 1,5%.

“A dívida do Estado português não diminuiu – pelo contrário, aumentou. Nós não estamos devolvendo dinheiro porque subitamente ficamos auto-suficientes. A economia portuguesa está refém da dívida e este governo funciona fundamentalmente para os credores”, ressalta. “Ele não funciona para a população, para o desenvolvimento da economia. A principal directiva da política económica é gerir a dívida, em nome dos credores.”

Mais semelhanças com a Grécia do que com Irlanda

Reis não vê semelhanças entre o caso português e a recuperação económica da Irlanda, que está quitando o empréstimo com o FMI por antecipação. Para ele, os dois países vivem situações muito distintas, a começar pelo tamanho das economias e das populações, bem menores no caso irlandês.

O especialista avalia que a conjuntura portuguesa se parece bem mais com a grega, apesar de o novo governo de Atenas se revoltar contra as condições impostas para o empréstimo internacional. Os dois países, sustenta, estão sufocados com as medidas de austeridade e o pagamento das dívidas.

A pressão para que o governo luso entre no mesmo caminho do grego começa a aumentar em Portugal. Neste domingo, centenas de pessoas fizeram um protesto em Lisboa para apoiar Atenas.

“Nós vemos a luta do governo grego como se fosse nossa. Acreditamos que, quando a mudança for possível na Grécia, ela vai se alargar para todos os países, em relação às medidas políticas e repressivas exercidas pelo comando da União Europeia e, principalmente, a Alemanha”, afirma a manifestante Rita Baptista.

No total, Portugal recebeu € 26.350 milhões do FMI. O restante da ajuda financeira veio da União Europeia e do Banco Central Europeu, sob condições mais flexíveis que as do Fundo Monetário. (rfi.fr)

 

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.

Translate »