Notícias de Angola - Toda a informação sobre Angola, notícias, desporto, amizade, imóveis, mulher, saúde, classificados, auto, musica, videos, turismo, leilões, fotos

Abismo persiste na África do Sul 25 anos após libertação de Mandela

0
(Foto de Federico Scoppa/AFP)
(Foto de Federico Scoppa/AFP)

A África do Sul percorreu um longo caminho de reconciliação desde a libertação de Nelson Mandela, em 1990, mas encontrar uma leitura da história comum entre negros e brancos permanece um desafio para a “Nação arco-íris”.

No dia 11 de Fevereiro, o país celebra os 25 anos da libertação de seu herói nacional, que se tornaria quatro anos depois o primeiro presidente democraticamente eleito por toda a população.

Mas incidentes recentes demonstram que as diferentes comunidades estão muito distantes da construção de uma memória colectiva comum sobre a história do regime segregacionista do apartheid, que reduziu os negros a sub-cidadãos durante décadas.

Verne Harris, director de pesquisa da Fundação Mandela, se inquieta: “O projecto de reconciliação está em perigo”. Pode ser porque “os sul-africanos tentaram exorcizar seu passado muito rapidamente”, com a célebre “Comissão da Verdade e Reconciliação” (TRC), presidida por Desmond Tutu, cujos trabalhos começaram em 1996.

A TRC fez muito ao tentar aproximar repressores e vítimas, concedendo aos primeiros – sob certas condições – uma amnistia caso concordassem em confessar seus crimes. Mas algumas feridas ainda estão abertas.

A decisão, nos últimos dias, de renomear uma rua com o nome de Frederik Willem de Klerk, o último presidente do apartheid e co-Prêmio Nobel da Paz com Nelson Mandela, provocou críticas da comunidade negra.

De Klerk foi o homem que libertou Mandela em 1990 e desmantelou gradualmente as leis de segregação. Mas ele também era o chefe de Estado numa época em que os serviços especiais torturavam e matavam os militantes negros.

Em um discurso recente, de Klerk denunciou “o tom de confronto, novo e amargo, no discurso nacional” – a antítese, segundo ele, do ideal promovido por Mandela. Ele se referia a alguns dos discursos do actual presidente Jacob Zuma, que acusa regularmente o apartheid e os brancos de estarem na origem das dificuldades enfrentadas pelo país.

Em Janeiro, o chefe de Estado provocou polémica ao afirmar que “os problemas do país começaram” quando Jan van Riebeek, o primeiro colono holandês, colocou os pés na Cidade do Cabo, em 1652.

Um partido branco radical imediatamente ameaçou retaliar por “incitação ao ódio”. E, mais inesperado, a ex-secretária particular de Nelson Mandela, Zelda la Grange, tuitou: “Estou CANSADA dos ataque regulares de Jacob Zuma contra o brancos”.

La Grange, vista regularmente como um símbolo da possível coabitação entre brancos e negros, virou alvo de uma saraivada de críticas e acusações de racismo.

Crime contra a Humanidade

“Nós não alcançamos o objectivo final de nossa viagem, nós demos apenas o primeiro passo em uma longa e difícil estrada”, admitiu Harris, da Fundação Mandela.

“A grande maioria dos sul-africanos vive em uma realidade ainda muito herdada do apartheid. Eles só concebem a raiva (…) as velhas divisões e os velhos cismas são mais marcados hoje em dia”, considera.

De fato, apesar do surgimento de classes média e rica negras, os habitantes das periferias continuam a ser quase exclusivamente negros. E os belos bairros da Cidade do Cabo ou de Joanesburgo são habitados maioritariamente por brancos.

“As tensões raciais retornam à superfície, o que se tornou particularmente visível no último ano”, constata Anele Mtwesi, pesquisadora da Fundação Helen Suzman.

“Após a TRC, acreditávamos que tudo entraria em ordem”, admite, lamentando finalmente que sejam essencialmente as vítimas as que mais se esforçaram para perdoar, enquanto as indemnizações não alcançaram o esperado.

A pesquisadora apresenta um estudo de sua fundação que mostra que apenas 53% dos brancos sul-africanos consideram que o apartheid foi um crime contra a Humanidade.

Para Andre Keet, director do Instituto para a Reconciliação e a Justiça Social na Universidade Estadual Livre, o país “está muito concentrado no processo iniciado pela TRC, e não o suficiente naquilo que deveria ser um projecto político democrático para nos unificar”.

Ele acrescenta que o sentimento de superioridade permanece extremamente vivo entre a população branca, mas que o actual discurso do poder não vai no sentido de uma reconciliação. (afp.com)

Deixe uma comentário

Seu endereço de email não será publicado.

Translate »