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JOSÉ NELSON COSTA, BFA: Há várias alternativas para financiamentos

BFAO conhecimento e a confiança nos promotores são factores bastante importantes que garantem que os investidores externos possam conceder apoio aos diversos projectos em desenvolvimento.

O bancário considera que, em Angola, tal como em alguns outros países africanos, não há problemas de liquidez no sistema financeiro, que está incapacitado para financiar projectos de pequena e média dimensão.

Disse que os grandes projectos, em Angola, são lançados funda- mentalmente pelo sector público, sobretudo os mais diversos tipos de infra-estruturas, e, nestes, há um grande interesse da parte dos mais diversos tipos de financiadores internacionais. Quanto ao sector privado, embora ainda em número reduzido,começam já a surgir projectos que merecem maior atenção dos investidores.

 

José Nelson Vieira da Costa, director-adjunto e responsável local da equipa da unidade de business development do BFA. (Foto: Vigas da Purificação)
José Nelson Vieira da Costa, director-adjunto e responsável local da equipa da unidade de business development do BFA.
(Foto: Vigas da Purificação)

O senhor participou recentemente no fórum Afif-2014 em Colónia-Alemanha. Até que ponto o evento correspondeu às expectativas criadas sobre ofertas ou propostas de financiamento apre- sentadas pelos oradores?

O Afif-2014 foi um fórum bastante interessante embora, a meu ver, muito mais centrado no tema do financiamento do que propriamente no “outro lado da moeda”, que são as oportunidades concretas, a nível dos projec- tos de investimento existentes em África. O tema financiamento só é relevante se houver projectos de investimento concretos, bem estruturados e onde a sua viabilidade esteja claramente demonstrada. Caso contrário, não faz sequer sentido falar dele. Quanto às propostas apresentadas, pareceram-me bastante completas, tendo estado presentes oradores, representando diferentes instituições e formas de financiamento de projectos em África. Foi sobretudo importante para os participantes que não eram do sector financeiro poderem perceber que há várias alternativas para estruturação do financiamento dos seus projectos e a possibilidade de recorrer a diversos tipos de parceiros financeiros. Apenas julgo que ficou a faltar uma presença mais significativa de oradores, representando bancos comerciais locais que, por razões óbvias, acabam por ser aqueles que têm um conhecimento mais profundo da realidade de cada um dos países africanos onde esse banco opera.

Qual é a importância do financiamento por parte de outros bancos e instituições fora de Angola aos projectos angolanos do sector privado?

O tema do financiamento de projectos recorrendo ao funding externo assume especial importância quando estamos a falar de projectos de grande dimensão e, como tal, com elevadas necessidades de financiamento. O “apetite” dos financiadores externos por este tipo de projectos é, natu- ralmente, maior do que por projectos de menor dimensão. Se os projectos forem de menor dimensão, considero que não faça tanto sentido falar-se em financiamento externo. Em Angola, tal como em alguns outros países africanos, não há propriamente um problema de liquidez no sistema financeiro, que está perfeitamente incapacitado para financiar projectos de pequena e média dimensão. Por seu turno, os grandes projectos, em Angola são, fundamentalmente, lançados pelo sector público, designadamente os mais diversos tipos de infra-estruturas, e, nestes, há, obviamente, um grande interesse da parte dos mais diversos tipos de financiadores internacionais. Relativamente aos projectos do sector privado, embora ainda em número reduzido, começam, de facto, já a surgir alguns deles de dimensão relevante nos quais o funding externo poderá ter uma participação importante.

Há uma tendência de equilibrar-se a taxa de juro praticada no sector bancário nacional?

Até pela eventual maior competitividade no pricing face aos níveis de taxas de juro praticados em Angola (os quais têm, contudo, vindo a reduzir-se significativa- mente), o financiamento internacional pode ser importante, mas há um aspecto crucial para que esse financiamento se efective – o conhecimento e a confiança nos promotores. Assim, em jeito de conclusão, considero que o funding externo pode também desempenhar um papel importante no financiamento de projec- tos do sector privado, mas, para tal, deverá ser em coordenação ou parceria com financiadores locais, dado o conhecimento acu- mulado que estes têm das especi- ficidades da realidade angolana e do seu tecido empresarial.

Que abertura teria o BFA para financiar projectos privados conjuntamente com outros parceiros/investidores internacionais?

O BFA, sendo uma instituição financeira de referência em Angola, tem total abertura para financiar projectos privados, conjuntamente com outros parceiros internacionais, aspecto muito importante conforme relatado na resposta anterior. Nós temos ele- vada liquidez e, portanto, de uma grande capacidade para financiar bons projectos de investimento. Importa mesmo acrescentar que o banco já tem alguns acordos com instituições financeiras internacionais de referência nesse sentido; não está só capacitado para o tema do financiamento como através da sua unidade de business development, que detém elevada experiência na prestação de diversos tipos de consultorias e assessorias em matéria de banca de inves- timento e de apoio a investidores nacionais e estrangeiros, que tencionem investir em Angola. Gostaria de enfatizar que nós já temos uma presença de mais de 20 anos no mercado angolano.

Já é visível uma adesão maior dos clien- tes do Banco de Fomento Angola (BFA) aos serviços de investment banking?

Sim, temos vindo a fazer diver- sas acções de carácter comercial dando a conhecer e a promo- ver estes “novos” serviços junto dos clientes. A visibilidade dos serviços é demonstrada pelos vários mandatos já concluídos, e com sucesso, dos mais variados tipos de serviços que prestamos, designadamente a assessoria financeira a entidades públicas e privadas, fusões e aquisições, organização e montagem de finan- ciamentos, entre outros.

Poderia avançar-nos dados sobre o volume de financiamento concedido por estes serviços?


Como expliquei anteriormente, a nossa área não concede financiamento – isso é responsabilidade da área de banca de empresas. Um dos serviços que prestamos é a montagem e angariação de financiamento junto de potenciais financiadores (BFA inclu- ído), apresentando-lhes os méritos dos projectos de investimento e, consequentemente, a sua “bancabilidade”.

Que importância tem a criação de um fundo público de capital de risco em Angola?


Sumariamente, a especial importância de um fundo de capital de risco é a possibilidade de este normalmente investir (tomando durante um determinado perí- odo de tempo posições accio- nistas) ou financiar projectos de investimento com potencial de crescimento que, pelas suas características ou capacidades e meios dos seus promotores origi- nais, dificilmente conseguiriam financiamento bancário para o seu arranque. Em Angola, o Fundo Activo de Capital de Risco Angolano (FACRA), constituído em Junho de 2012, foi uma das iniciativas do Ministério da Economia no âmbito do apoio às MPME (integrado no amplo programa de fomento empresarial), almejando o fomento do empre- sariado angolano e a diversificação da economia.

Alguns projectos de investimento apresentados, às vezes, por empresas para o financiamento não respondem às exigências requeridas?

Um aspecto fundamental para o sucesso de um projecto de inves- timento (e, em geral, de qualquer empresa) é a qualidade e a experiência da equipa de ges- tão que vai ficar à frente do projecto. Por outro lado, é de maior importância a realização do prévio estudo de mercado para aferir da real demanda do mercado por esses bens ou serviços em que se pretende investir. Entre outros aspectos, este é um exem- plo de lacunas de vários projectos de investimento que, por isso, enfrentam dificuldades na obtenção de financiamento.

Mudando de assunto. A criação da Ordem dos Contabilistas de Angola é o prenúncio de que haverá maior acuidade ou controlo financeiro das empresas angolanas ou, simplesmente, auxilia para que os resultados contá- beis sejam alcançados?

É fundamental a existência de uma organização que tutele e, sobretudo, dê e promova a formação com o objectivo de criar-se uma base robusta, não só de técnicos de contas (contabilistas), mas também dos revisores das demonstra- ções financeiras, de modo a apoiar a gestão, os investido- res, os financiadores e outros stakeholders na análise finan- ceira das empresas e negócios e na tomada de decisões. Assim, indo directamente a esta questão, se os objectivos que norteiam a criação desta ordem se vierem a verificar, sobretudo a necessidade de manter totalmente independente a “contabilidade” da “revisão dessa contabilidade”, o que se espera é que haja uma maior confiança e transparência, bem como um maior nível de disclosure e reporting financeiro útil para os diversos stakeholders. Ou seja, espera-se que os resultados contabilísticos apresentados se caracterizem por elevada acuidade e demonstrem, sem erros materiais, nem feridos de manipulação, a verdadeira performance das empresas.

Especialistas dizem que com a contabilidade em ordem a economia avança…


Concordo plenamente. Como já referido, a divulgação de contas “correctas” e devidamente auditadas e, consequentemente, “de confiança” vai provocar um efeito positivo nos vários stakeholders, designadamente nos investidores e financiadores, possibilitando o aparecimento de novos investimentos, novas linhas de negócio e novos produtos, cruciais para que a economia avance!

O mercado de capitais, no país, nasceu de forma positiva, mas ainda assim os “experts” chamam a atenção da necessidade de acautelar-se sobre o funcionamento da bolsa de valores, pois evocam sempre falta de uma contabilidade organizada das empresas a cotar na bolsa. O que pensa sobre isso?

O que refere nesta questão é absolutamente crítico e condição “sine qua non” para que venha a ser um sucesso o funcionamento do mercado de dívida corporativa (segunda fase do plano estratégico definido pela CMC) e, sobretudo, na fase posterior, o mercado de equities (acções). Para que um investidor venha a ter interesse em investir em títulos de dívida (obrigações) ou de capital próprio (acções), híbridos ou derivados tem que estar dotado do máximo de informações e, acima de tudo, “confiança” nas demonstrações financeiras das empresas emi- tentes desses títulos e isto só se consegue existindo contabilidade organizada, com as respectivas contas certificadas.

Quais são os pressupostos para elaboração de um estudo de viabilidade técnica, económica e financeira?

Esta questão daria azo a uma resposta longa e aprofundada. Sucintamente, a componente técnica da viabilidade de um projecto de investimento pres- supõe o estudo pormenorizado de todas as condicionantes técnicas, organizacionais, arqui- tectónicas, logísticas, layouts, de recursos existentes/necessários, ambiental, etc…inerentes ao investimento projectado. Dependendo das características do projecto, a componente técnica tem maior ou menor importância (por exemplo, terá certamente maior importância e profundidade num projecto industrial do que no de um negócio meramente comercial). Por seu turno, independentemente do tipo de projecto, o estudo de viabilidade económica e financeira é sempre fundamen- tal e necessário. Este pressupõe, desde logo, um estudo de mercado que analise a perspectiva comercial e demonstre “que vai haver procura/demanda” e apoie na decisão acerca do dimensionamento óptimo a implementar. Pressupõe ainda uma avaliação à capacidade de alavancagem e definição da melhor estrutura do mix de capitais para o seu financiamento. Por fim, um aspecto crucial nos pressupostos a assumir tem a ver com a sua adequação à realidade angolana (aquilo a que se chama habitualmente na literatura sobre a matéria a “localização” dos projectos) – aspecto onde falham muitos dos estudos de viabilidade feitos por quem não conhece a realidade da economia angolana.

O que pensa sobre o curso que a banca está a caminhar em Angola?

Angola tem já vários players no sector da banca (no final de 2013, tinha cerca de 29 instituições auto- rizadas pelo BNA, das quais 22 a operar efectivamente). Admito que possam continuar a haver altera- ções na dinâmica do sector, destacando-se um cada vez maior enfoque na prestação de serviços de banca de investimento.

BANCÁRIO 
E CONSULTOR

Nome completo: José Nelson Vieira da Costa

Nacionalidade: portuguesa

Data de nascimento: 12/09/1978

Estado civil: solteiro

Filhos: não

Hobby(s): leitura e desporto (futebol e running)

Música: vários tipos (adequada aos diversos estados de espírito)

Função actual

Desde Janeiro de 2013: director adjunto e responsável local da equipa da Unidade de Business development do Banco de Fomento Angola (BFA) – Departamento responsável pela prestação
de serviços de investment banking aos seus clientes.

Formação académica

Mestre em finanças pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto; licenciado em Gestão pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto;
revisor oficial de contas, inscrito na Ordem dos Revisores Oficiais de Contas, em Portugal.

Há quanto tempo está na banca?


Estou há cerca de quatro anos (anteriormente, trabalhei numa das Big 4 de auditoria e consultoria).

E o ramo bancário que escolheu foi sempre a sua área predilecta?

Na banca estou, sem dúvida, no ramo que mais me atrai – investment banking.

Sente-se realizado na vida?

A vida é, nas suas múltiplas vertentes, uma constante definição de objectivos e de luta pela sua concretização. Nunca podemos dizer que estamos totalmente realizados; caso contrário, significaria que não teríamos objectivos. Mas sim, sinto-me feliz com o que realizei até à data de hoje.

Caso venha a tornar-se rico, fruto do seu trabalho, em que área apostaria?


A riqueza é algo muito subjectiva e tem múltiplas facetas. Do ponto de vista puramente financeiro, não precisamos de ser ricos para investir ou apostar numa determinada área
. Basta demonstrar inequivocamente os méritos do nosso projecto que o financiamento aparecerá. Pessoalmente, apostaria na área da educação. Além de gostar muito de leccionar/dar formações, considero que é a área estratégica de maior impacto e onde há inúmeras carências cá em Angola. (jornaldeeconomia.ao)

Por: Mateus Cavumbo

 

 

 

 

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