Radio Calema
InicioCrónicas e ArtigosO Estado banqueiro

O Estado banqueiro

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

O Expansão publica no Especial Banca que acompanha esta edição a lista dos accionistas de 22 dos 29 bancos bancos de direito angolano que estavam autorizados pelo Banco Nacional de Angola (BNA) em 2013, o que sucede pelo segundo ano consecutivo.

No total, da lista constam 141 entidades, das quais 93 pessoas singulares, 4 do sector público administrativo, 11 empresas públicas, 1 instituição de utilidade pública, 24 empresas privadas não financeiras e 9 bancos.

Uma das conclusões que salta à vista do levantamento exaustivo que fizemos é que o Estado é de longe o maior banqueiro angolano com participações em 11 bancos. Em 3 participa directamente – Banco Poupança e Crédito (BPC), Banco de Comércio e Indústria (BCI) e Bando de Desenvolvimento de Angola (BDA), sendo que nos dois primeiros também detém participações indirectas via organismos do sector público e empresas públicas.

As instituições em que o Estado só participa indirectamente são 8 – Banco Poupança e Promoção Habitacional (BPPH). Standard Bank Angola (SBA) Banco Millennium Angola (BMA), Banco Caixa Geral Totta de Angola (BCGTA) Banco de Fomento Angola (BFA), Banco Privado Atlântico (BPA) Banco Angolano de Investimentos (BAI) e Banco Angolano de Negócios e Comércio (BANC).

Ou seja, o Estado participa directa ou indirectamente em quase metade das 23 instituições bancárias actualmente a operar em Angola. A maioria das participações indirectas do Estado são via Sonangol. A petrolífera participa directamente em 7 bancos – BCI, BPPH, BMA, BCGTA, BFA, BPA, BAI e BANC, sendo que no BPPH detém também uma participação indirecta, via Sonip.

A menos que me esteja a escapar alguma coisa, a dispersão accionista do Estado no sector bancário não faz muito sentido do ponto de vista da racionalidade económica. Dos 11 bancos em que o Estado participa, só consigo encontrar algum racional nas participações no BDA, BPPH e BPC. A participação no BDA é a mais óbvia.

Angola precisa de diversificar a economia e um banco de desenvolvimento estatal pode e deve ajudar ao processo, sobretudo em sectores e projectos importantes do ponto de vista estratégico, mas pouco atractivos para a banca privada.

Quanto ao BPPH, que ainda nem sequer iniciou actividade, os problemas habitacionais de Angola são, do meu ponto de vista, um argumento suficientemente forte para justificar a presença do Estado no financiamento de habitações de média e baixa renda. A necessidade de um banco comercial público, como o BPC, pode ser mais discutível, mas acredito que o sector bancário nacional ainda exige a presença do Estado neste segmento, face à fraqueza dos grupos nacionais em termos de capital e know-how.

Sendo certo que do ponto de vista das políticas económicas que considero mais adequadas para o estádio de desenvolvimento de Angola justifica-se a presença do Estado no sector bancário, não é menos verdade que essa presença comporta riscos, nomeadamente de politização da gestão dos bancos de capitais públicos.

É o eterno problema da fronteira ténue que existe entre políticas e política, que pode ser atenuado pela adopção de modelos de governação transparentes, novas práticas de gestão, contratação de profissionais competentes e investimento em meios tecnológicos avançados.

Uma receita válida tanto para os três bancos públicos referidos como para as restantes empresas públicas em geral. Se BDA, BPPH e BPC é para manter na esfera pública, o BCI é para privatizar. Só que, tal como está, ninguém lhe pega.

Antes de qualquer venda é preciso limpar o seu balanço do crédito mal parado, adequar os seus recursos humanos à realidade futura e capitalizá-lo.

A privatização do BCI poderia ocorrer no âmbito de um processo de fusão entre os pequenos bancos privados angolanos. Uma boa parte dos bancos privados angolanos não tem capacidade para sobreviver num quadro mais competitivo, tanto por falta de capital como de know how.

A maioria apenas sobrevive graças ao peso político dos seus accionistas fundadores – basta olhar para a lista de accionistas que publicamos. O conhecimento do negócio bancário de alguns dos nossos banqueiros, é inversamente proporcional à sua influência política. Alguns não lhes passava pela cabeça ser banqueiros.

Apenas aproveitaram a sua influência política para obter ou ajudar a obter licenças com o intuito de as vender mais tarde. Com Angola sempre a subir não lhes seria difícil fazê-lo por bom preço, terão pensado. Só que a crise financeira internacional terá estragado os planos de muitos desses banqueiros de ocasião, pelo que não lhes resta outra coisa senão vender as licenças ou participar em processos de fusão, antes que os seus bancos vão à falência.

Os processos de fusão entre os pequenos bancos angolanos são inevitáveis. A questão não é se vão haver fusões, mas quando é que essas fusões vão ocorrer. O Estado, através do BCI, pode ter um papel a desempenhar nesse processo. (expansao.ao)

Siga-nos

0FansCurti
0SeguidoresSeguir
0InscritosSe inscrever

Últimas notícias

Notícias relacionadas

- Publicidade -

Deixe um comentário

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.