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Juntos Contra a Fome (parte 1 e parte 2)

Gabriel Baguet Jr (OJE)
Gabriel Baguet Jr (OJE)

Juntos Contra a Fome – parte 1

Entre 17 e 22 de outubro de 2011, em Roma, a Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa era apresentada na 37.ª Sessão do CFS (Committee On World Food Security – Comité Mundial de Segurança Mundial ) e na ocasião, o então secretário-executivo da CPLP, Domingos Simões Pereira, e recém eleito primeiro-ministro da Guiné-Bissau, dizia, na sede da FAO, que o objetivo da Organização nesta matéria assentava na base do Direito Humano à Alimentação Adequada e no combate à erradicação da Pobreza.

Dois anos depois, Moçambique assume a presidência da CPLP e o lema consagrado ao exercício da presidência rotativa da CPLP foi a Segurança Alimentar e Nutricional. No quadro dessa opção estratégica, a 20 de fevereiro deste ano, é lançada na capital moçambicana, a campanha Juntos Contra a Fome. Esta anterior introdução é para situar no tempo e no espaço a visão global dos Estados–membros da CPLP neste domínio da segurança alimentar, o combate à fome e recordo aqui que o atual secretário-executivo da CPLP, o embaixador moçambicano Murade Murargy, referia que a “consagração de condições mínimas de segurança alimentar e nutricional é prioritária e constitui um dos eixos basilares para qualquer processo de desenvolvimento sustentável dos nossos Estados”.

Efetivamente, territórios livres de fome constituem pilares fundamentais de sociedades mais inclusas e mais preocupadas com a questão social. Neste artigo, recorrendo a uma citação inscrita na página número 7 do livro com o mesmo título de análise deste tema, diz Antonin Artaud: “Aquilo que é importante, parece-me, não é tanto o defender a cultura, cuja existência nunca impediu um homem de passar fome, mas sim o extrair daquilo que se chama cultura, ideias cuja força motivadora seja idêntica à da fome“.

A força destas palavras não só comovem como, a partir delas, podem construir-se e analisar-se tantos cenários e situações que nem em vários artigos se esgotaria a pertinência e a observância de tantas questões. Porque pode ser-se culto e ter fome. E pode ter-se fome sendo-se culto. O pensamento e a força que nos movem face à vida e ao que nos rodeia, não deveriam ser apenas uma pequena gaveta onde só cabem certas coisas da condição humana. A própria condição deveria ser, por si só, o ponto de partida para que homens e mulheres de várias origens, convicções, de diferentes culturas e com diferentes olhares sobre a vida e o mundo, pudessem olhar para o mundo e para a humanidade e para quem a habita numa única perspetiva: o respeito pela condição humana de cada homem e mulher em concreto, contribuindo e sugerindo opções para o bem-estar de todos.

Porque, sendo a fome um fenómeno mundial e regional, as suas soluções podem ser encontradas se nos reunirmos à mesma mesa, soubermos repartir em função dos nossos méritos e vontades, um novo olhar humano à luz do século XXI. Hélder Muteia, representante da FAO junto da CPLP, referiu, no seu discurso de intervenção em Maputo quando a campanha Juntos Contra a Fome foi lançada, que “cerca de 842 milhões de pessoas passam fome no mundo. Ou seja, uma em cada oito pessoas encontra-se em situação de fome crónica, sem acesso a alimentos suficientes para ter uma vida saudável e ativa. Além disso, uma em cada quatro crianças com menos de cinco anos tem baixa estatura para a sua idade. 165 milhões de crianças estão tão desnutridas que nunca atingirão todo o seu potencial físico e intelectual. Ao mesmo tempo, cerca de 2 mil milhões de pessoas não dispõem de vitaminas e minerais essenciais para uma vida saudável”. Perante esta realidade, só devemos estar Juntos Contra a Fome, combatendo-a.

Juntos Contra a Fome – parte 2

As sociedades fundem-se num desenvolvimento que gera cada vez mais solidão, fome e exclusão.

Quando afinal todas as esperanças do mundo residiam e residem em encontros internacionais que analisam a condição do Homem em toda a sua latitude, eis que emergentes fenómenos têm implicado novos olhares e medidas públicas que fomentem mais solidariedade humana e mais desenvolvimento. Nunca se falou tanto em desenvolvimento humano como agora. Nunca se falou tantos em direitos humanos como agora. Nunca se faliu tanto em poluição e alterações climáticas como agora. Nunca se falou tanto em globalização como agora. Nunca se falou tanto na sociedade da informação como agora. Mas afinal o que faz falta ao próprio Homem? Afinal o que torna os Homens felizes ? As sociedades felizes?

Este livro, da autoria do Prémio Nobel de Literatura  Knut  Hamsun é como diz Claudio Magris reportando-se a esta obra literária que o livro a “Fome é uma obra-prima do naturalismo visionário”.  Esta primeira edição em língua portuguesa traduzida do original em língua norueguesa, revela uma beleza e uma inquietude que denota a história de um homem que nasce em 1859, que nasce em Gudbrandsdalen e cresce na pobreza em Hamaroy, na Noruega e que aos 17 anos de idade torna-se aprendiz de sapateiro. Mas é também nessa altura que Knut Hamsun marca encontro com a Escrita e começa a escrever. Da sua história biográfica, há referências de uma vivência longa nos EUA, viajando pelo interior deste país e exercendo várias profissões para sobreviver. E é em 1899 que publica as suas primeiras impressões sobre este período da sua vida.

Na nota biográfica do livro, refere-se também que quando Knut Hamsun regressa definitivamente à terra natal, publica o seu muito e cito “ aclamado romance Fome “. Nesta viagem de  247 páginas e com prefácio de Paul Auster,  o autor do prefácio com o título “A Arte da Fome”, descreve e inicia o texto com a história de um que um “ homem jovem chega a uma cidade. Não tem nome, casa ou trabalho; ele veio para a cidade para escrever. Ele escreve. Ou, mais precisamente, ele não escreve. Ele passa fome até estar quase morto. A cidade é Kristiania (hoje Oslo); o ano é o de 1890. O jovem vagueia pelas ruas: a cidade é um labirinto de fome, e todos os seus dias são iguais. Escreve artigos não solicitados para um jornal local. Preocupa-se com a renda, as roupas cada dia mais degradadas, a dificuldade de conseguir a refeição seguinte. Sofre. Chega quase a enlouquecer. Nunca está a menos de um passo do colapso. Ainda assim, escreve”. Esta descrição sumária que Paul Auster relata no prefácio deste livro apaixonante, ele diz que “ no final de tudo, a arte da fome pode ser descrita como arte existencial”.

Neste romance escrito em 1890, Paul Auster refere que a “ personagem de Hamsun alivia-se sistematicamente de qualquer crença em qualquer sistema e no final, por meio da fome que se infligiu, alcança nada. Não há nada para o manter em movimento- e ainda assim continua. Caminha bem para dentro do século XX”, assim finaliza o prefácio Paul Auster. A referência também a este tema e das várias interpretações que este livro congrega, realça a questão contemporânea da criação em vários lugares do mundo dos bancos alimentares Contra a fome, estruturas mais que necessárias e fundamentais à luz dos desafios do século XXI. Se houve avanços no mundo contemporâneo, há claros retrocessos sobre de cariz humano e humanista.

O título ‘Fome’, é o título de um romance que enuncia questões múltiplas da condição humana, que fala nas fragilidades, mas na esperança e nos sonhos. E são os sonhos que transformam a vida. A vida individual e coletiva. E talvez por isso fosse importante que todos os homens e mulheres de diferentes lugares e origens construíssem em cada dia, mundos melhores quer no meio urbano e rural que no fortalecimento da visão humanista que deveria imperar em todas as sociedades contemporâneas. Porque sendo a fome um fenómeno mundial e regional, as soluções para o seu fim podem ser encontradas se reunidos à mesma mesa, soubermos repartir em função dos nossos méritos e vontades, um novo olhar humano à luz do Século XXI. Hélder Muteia, representante da FAO junto da CPLP referiu no seu discurso de intervenção em Maputo quando a Campanha ‘Juntos Contra a Fome’ foi lançada que “cerca de 842 milhões de pessoas passam fome no mundo”.

Ou seja, uma em cada oito pessoas encontra-se em situação de fome crónica, sem acesso a alimentos suficientes para ter uma vida saudável e ativa. Além disso, uma em cada quatro crianças com menos de cinco anos tem baixa estatura para a sua idade. 165 milhões de crianças estão tão desnutridas que nunca atingirão todo o seu potencial físico e intelectual. Ao mesmo tempo, cerca de 2 bilhões de pessoas não dispõem de vitaminas e minerais essenciais para uma vida saudável”. Perante esta realidade, só devemos estar “Juntos Contra a Fome “, combatendo-a. (oje.pt)

por AdTech AdGabriel Baguet Jr., Jornalista e escritor

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5 COMENTÁRIOS

  1. Renovados Parabêns ao Portal de Angola que nos leva a informação aos lugares mais distantes de Angola. É de apreciar um grande trabalho que esta equipa do Portal de Angola faz em torno do nosso País. E é com orgulho e justo, ver e ler o nome de um compatriota nosso que muito tem contribuído para a Comunicação e a defesa de Angola em vários foruns. Pude presenciar uma conferência sua no ISCTE em Portugal e orgulha-nos ver angolanos com qualidade e prestígio. Não desista Portal de Angola. Estamos contigo.

  2. Parabêns à Direcção do Portal de Angola por trazer-nos informação diversificada e rica em torno dos temas abordados. E o autor dos artigos é inegavelmente um grande homem de Letras. Deixamos de ouvir a sua voz na RDP-ÁFRICA, como a do saudoso Guilherme Galiano, Luís Carlos Patraquim, Alexandra Daskalos e David Borges. O louvavel trabalho da equipa do Portal de Angola merece o aplauso de quem está longe, mas perto da terra com o coração. O Portal de Angola tem valorizado os angolanos com opinião como o economista Carlos Rosado de Carvalho. Assim vale a pena.

  3. Sou brasileira e tenho acompanhado este Portal e estou muito feliz porque no Brasil não se fala tanto de África. Estou fazendo meus Estudos Africanos em Portugal e fiquei descobrindo tanta riqueza cultural dos africanos qui estão morando aqui gente. Vale a pena ler artigo. O autor do trabalho põe o dedo na ferida e o mundo devia olhar para quem está sofrendo de fome de outra maneira. Tanto desperdício. Mas tanta e boa informação neste Projecto de Angola. Bela terra.

  4. Sou fã do Jornalista Gabriel Baguet! Humanista e sensível às causas humanitárias. Parabéns pelo artigo tão pertinente e importante pela condição humana e parabéns pelo dinamismo do portal de Angola.

  5. O exemplo do bom jornalismo e da investigação. Gabriel Baguet Júnior é um homem da Comunicação angolana e não só desaproveitado. Conheci-o ainda nos tempos de estudante no Porto e já dava cartas no jornalismo portuense no histórico Jornal Republicano o Primeiro de Janeiro. Defensor instrinseco da angolanidade em momentos que muitos tinham complexos de assumirem-se com angolano. mostrou sempre que que lado esteve na História de Angola. Orgulha-me como Historiador o seu percurso, as suas intervenções públicas. Recentemente encontei-o e a singularidade do bom trato e dos sonhos para Angola e para as causas nobres marca a sua personalidade. Fui um dos perseguidos dentro da RDP-ÁFRICA. Caminho que sofreu Galiano e Maria Helena Falé e Margarida Ângela. Felicito como frequentador assíduo deste Portal, a sua Direcção que sei também dirigida pelo filho de um grande Nacionalista angolano e que fez parte do Processo dos 50. Não desistas Jorge. Estamos contigo e na vanguarda do teu trabalho. Mostras diversidade e pluralidade. Luís Pereira Assis, Historiador a leccionar na Bahia.

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