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Artesãos: Um talento perdido nas ruas de Luanda

A capital do país continua a afirmar-se como um ponto de confluência de culturas, povos e línguas, onde, a cada dia, novos sonhos brotam no âmago e coração de gente humilde, sobretudo fazedores de arte.

Lucas mussuku, Fazer de Batuque (Foto: Angop)
Lucas mussuku, Fazer de Batuque (Foto: Angop)

Ao redor da cidade, criada oficialmente em 1575, carros grandiosos e em “velocidade cruzeiro” repartem quase que naturalmente o mesmo espaço de peões, num ambiente de frenética “luta” para o garante do pão.

É nesta cidade de encantos, oportunidades e forte concorrência, onde passageiros impedem-se uns aos outros para conseguirem o primeiro lugar nos táxis comandados por “ritmados” cobradores, que se vai esfumando a essência de um de grupo profissional em quase via de extinção: fazedores de batuque artesanal.

Esta arte, que fez emergir dezenas de profissionais, em Luanda, já foi rentável e reuniu aceitação de muitos jovens, sobretudo na década de 90.

A vida desses profissionais foi sempre dura, de sacrifício e criatividade, para poderem produzir, à luz do sol, um instrumento preponderante (batuque) para a execução de ritmos nacionais, com semba, kazukuta e kabetula.

Hoje, a profissão quase que desapareceu das ruas e das oficinas de arte, levando para o anonimato um grupo de profissionais dedicados, de cujas mãos saíram afinados instrumentos de percussão, feitos preferencialmente à base de pele de animal, prego e madeira.

Lucas Mussuku, 33 anos de idade, é um dos poucos sobreviventes dessa actividade profissional e, apesar do sacrifício, continua a produzir com muita dedicação, paciência e criatividade os seus refinados batuques.

Descoberto pela equipa de reportagem da Angop, entre uma multidão de comerciantes e peões, o profissional expõe os seus bens culturais na zona adjacente à Igreja Kimbanguista, município de Luanda.

Apesar da profissão, não tem a feitura de batuque como uma actividade exclusiva. Vive também da venda de cartões de recarga de telefone, nas ruas do Golf 2, mesmo espaço onde comercializa, com fé e espírito de sacrifício, produtos que consomem dias para ser objectos acabados.

Mussuku trabalha com martelo, pregos, madeira e pele de animal, desde 1981. A sua arte iniciou-se na terra natal, província do Uíge, mas foi em Luanda onde se evidenciou.

“Aprendi a profissão há muito tempo. Na altura éramos 20 pessoas que recebíamos instruções de um mestre (irmão mais velho), mas por causa dos obstáculos muitos desistiram de seus desejos”, explica.

Hoje, cerca de 20 anos depois, o artesão de humor simples, ironicamente ainda luta contra as mesmas dificuldades que o seu irmão (formador) enfrentou.

“Comecei a vender no Bairro São Paulo. Depois de expulso, fui para a praça do 30 e estou agora no Kimbango, enfrentando alguns sarilhos, como a falta de compradores, que anteriormente não era notável”, lamenta.

A batalha de Mussuku e colegas de profissão parece ser mais difícil do que os compradores possam imaginar. Além de suportarem as barreiras do passado, travam uma forte luta para contrapor a falta de espaços próprios onde possam vender sem a desconfiança de verem confiscados os seus produtos, pelas autoridades locais.

A história de Mussuku, cuja roupa coberta de poeira revela o esforço para se manter numa actividade sem grandes apoios e clientes, reflecte também o modo como os fazedores de instrumentos de percussão enfrentam os desafios imposto por um país em crescimento, com legado de cinco séculos de domínio colonial e 27 anos de guerra civil.

“Luto pela vida. Deus irá ajudar-me a conseguir uma vida melhor para futuramente poder formar uma família”, confessa Mussuku, à mesa de um restaurante, numa interactiva conversa em que expõe, de coração aberto, os seus projectos profissionais.

Actualmente, é um profissional com dupla actividade. De segunda-feira a sexta-feira, reparte o seu tempo entre a venda de batuques e os cartões de recarga telefónica que, por ironia, têm mais saída, nos últimos anos, em relação ao produto cultural feito em pele e madeira.

O artista, que sonha em ter uma oficina modernizada, trabalha por conta própria, sem ajudantes, sem mestres mais experientes, mas com uma forte crença de que o futuro lhe trará mudanças.

Unidos pela arte e confiantes na força de Deus

Lucas Mussuku vende no Golf 2 há dois anos, tempo em que conheceu outros amigos e profissionais do mesmo ramo, como Nicolau José.

A amizade destes comerciantes, que tentam não viver em contradição com a lei, despontou da partilha de ideais religiosas e artística, alimentadas entre os dois.

A dupla está no mesmo mundo da cultura, mas um elemento os distingue em termos de actividade.

Mussuku dedica o seu tempo à feitura de batuques e venda dos chamados saldos de telefone. Já o colega José, intérprete de música góspel e irmão em Cristo na Igreja Kimbanguista, vende produtos eléctricos.

“Admiro-o e tenho acompanhado o trabalho dele. Mas fico mais concentrado na venda, por causa das corridas que acontecem”, explica José, que se iniciou na arte como pianista e interprete de góspel.

Em relação à sua profissão e futuro, confessa à nossa reportagem, com um humilde sorriso, que sonha trocar as bancadas de produtos eléctricos por uma actividade mais consistente e legal.

“Sonhamos um dia poder crescer mais, para oferecer uma música com qualidade ao nosso povo”, augura Nicolau José.

Autoridades encorajam profissionais

A actividade profissional dos fazedores de batuques artesanais é hoje resumida em sacrifício e quase falta de compradores, Ainda assim, a mesma é acompanhada de perto pelas autoridade nacionais.

Etona, secretário-geral da UNAP (União Nacional dos Artistas Plásticos), conhece bem as dificuldades por que passam esses artistas e profissionais de batuques. Das mãos destes, saem vários produtos que dão dinâmica à carreira de dezenas de instrumentistas.

Os seus produtos são muito usados por grupos de música tradicional, embora alguns dos integrantes desses grupos também dominem já a técnica de produção do material artístico-cultural em referência.

Etona reconhece as dificuldades, mas sublinha ser importante que os fazedores de batuque continuem a lutar para contrapor as dificuldades e, com a sua sabedoria, manterem firme a cultura.

“É através da dificuldade que nos desenvolvemos. Vamos continuar a fazer batuques, fazer quissanges (…) O mais importante é que fiquemos atentos, para que a cultura não morra”, recomenda.  (portalangop.co.ao)

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2 COMENTÁRIOS

  1. O Ethona como figura maior na cultura angolana não deve apenas encorajar, mas sim usar as suas influências para pequenos créditos aos fazedores e investigadores destas artes.
    sou investigador do acervo cultural duma das regiões da Kibala, mas não tenho tido sucesso por falta de apoio financeiro. o projecto é bom…. o que farei?

  2. tem havido concursos de projectos em muitas instituições, sobretudo nas áreas de telecomunicações, engenharia, etc.
    porque não se faz o mesmo na cultura na área das artes? dos investigadores de campo. os monumentos e sítios no interior do país carecem de mais atenção, e são uma fonte de receitaas para a própria cultura loca e não só.
    bem haja.

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