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Taiwan: Uma grande potência quase ignorada diplomaticamente

(REUTERS)
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Por ter visitado Xangai e Pequim, uma “pulga africana” assumiu uma visibilidade e uma importância diplomática inacreditável no tradicional contencioso entre a República Popular da China e Taiwan

Taiwan entrou esta semana em modo de pânico, reflectido nas primeiras páginas dos principais jornais, depois de o chefe da casa civil do presidente de São Tomé e Príncipe, Manuel Pinto da Costa, ter confirmado que o chefe de Estado deste país africano visitou duas cidades da China continental, na sequência da sua recente visita oficial a Taiwan, o que o governo de Taipé desconhecia.

Foi assim que uma pulga africana assumiu uma visibilidade e uma importância diplomática inacreditável nesta tradicional contenda entre a República Popular da China e Taiwan. “Enviado confirma que líder aliado passou em Pequim”, anunciava com enorme destaque na primeira página, na quinta-feira, o diário “The China Post”. Por estas paragens, o assunto é levado muito a sério, numa altura em que o debate sobre a eterna questão da reunificação definitiva de Taiwan com a China está ao rubro em Taipé, alimentado por frequentes declarações sobre o assunto por parte de Pequim, que reiteradamente considera Taiwan parcela integrante do seu próprio território.

O dilema independência ou unificação de Taiwan com a China choca com uma realidade aparentemente inultrapassável: como ignorar a existência de um estado ultramoderno e desenvolvido que é a 18.a maior economia mundial, a 11.a mais competitiva e o terceiro melhor destino para investir? Como escreveu a “Business Week”, “a economia mundial pura e simplesmente não funcionaria sem Taiwan”. A título de exemplo, as maiores empresas tecnológicas norte-americanas paralisariam sem Taiwan, que alberga nos seus servidores a actividade diária mundial das maiores empresas do sector como, por exemplo, a Google.

Mas a China faz orelhas moucas e insiste na recuperação de Taiwan, ao mesmo tempo que lida com Taipé como se se tratasse de qualquer outro país nas suas relações económicas.

A explicação reside no facto de Taiwan ser o segundo maior investidor estrangeiro na China continental e de as suas empresas darem trabalho a 2% da força laboral chinesa, produzindo 14% do comércio externo da República Popular da China. Dos 23 milhões de taiwaneses, cerca de 9% fazem negócios e residem na China, número que duplicou numa década.

Numa perspectiva política, Taiwan, por se localizar entre os EUA, seu poderoso aliado, a China e o Japão, torna-se uma indesmentível potência regional. Nesta altura, as relações económicas entre Taiwan e a China são tão intensas que surgiu um movimento estudantil, denominado Girassol, que tem protagonizado violentos tumultos em manifestações de rua contrárias à continuação do reforço dos laços económicos com Pequim e que já não pode ser ignorado, porque congrega milhares de simpatizantes.

Em entrevista ao i, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Chu Chia Lin, explicou a bondade dos mais de 20 acordos assinados nos últimos meses entre Taipé e Pequim, sublinhando que isso é bom para a economia e o emprego dos dois países e que os estudantes não percebem que a melhoria das relações atenua as permanentes tensões bilaterais, tendo em conta que Pequim tem mais de mil mísseis balísticos apontados contra alvos na ilha do fundador da Formosa/Taipé, o generalíssimo Chiang Kai-Shek.

Questionado pelo i, o governante rejeitou a ideia de que, com tanta integração económica e de turismo, nos últimos meses, Pequim não esteja já na prática a reunificar-se na “mãe pátria”, de forma “doce e suave”, mas reconheceu que os estudantes terão alguma razão ao acusar o governo de falta de transparência neste enorme reforço nos laços económicos e culturais com a China.

INCIDENTE DIPLOMÁTICO Por tudo isto, o incidente diplomático com o pequeníssimo São Tomé e Príncipe assumiu proporções desmesuradas e incompreensíveis para um observador externo, desatento do potencial conflito regional em permanente estado latente.

O chefe da casa civil do presidente de São Tomé e Príncipe, Amaro Pereira do Couto, que terminou ontem uma visita oficial de quatro dias destinada a apaziguar eventuais mal-entendidos, confirmou que o presidente da República do seu país visitou de facto Xangai e Pequim depois de terminar a visita oficial a Taiwan (um crime de lesa-majestade), mas apenas com a intenção de atrair investimentos destinados à construção de um porto de águas profundas. “O itinerário final [de Pinto da Costa] foi diferente do comunicado oficialmente”, segundo se lia num comunicado nervoso e indignado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan.

O diplomata são-tomense não explicou à imprensa local se o presidente Pinto da Costa teve algum encontro oficial com governantes chineses, sublinhando apenas ter havido contactos com empresários chineses.

Ao jornal i, Amaro Pereira do Couto revelou que efectivamente o presidente da República do seu país apenas se avistou com empresários na China continental. Questionado concretamente sobre as consequências do incidente diplomático, o chefe da casa civil da presidência são tomense disse que agora “tudo estava esclarecido” e que os taiwaneses aceitaram as explicações fornecidas.

O pequeno país insular africano joga assim, e bem, a seu favor, num equilíbrio nas relações com estes dois poderes antagónicos, amealhando contrapartidas das eternas rivalidades entre a China e Taiwan, apesar de ter relações diplomáticas exclusivas com Taiwan há 16 anos, facto que representa uma verdadeira lança em África para os nacionalistas de Taiwan. São Tomé e Príncipe tem uma importância simbólica desproporcionada para Taipé, que ultimamente tem perdido alguns “aliados” em África a favor da China, graças à enorme capacidade de financiamento do gigante ( vide Angola), o que para um país com um evidente trauma de reconhecimento diplomático internacional, como Taiwan, é um autêntico choque psicológico na contenda diária com o poderoso vizinho.

No entanto, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, David Wang, deixou à imprensa o recado de que no futuro Taiwan não quer (tolera) que uma visita similar à de Pinto da Costa à China continental se repita por parte de um país seu aliado.

Segundo disse ao i Amaro Pereira do Couto, Taiwan contribui anualmente com 15 milhões de dólares para o Orçamento do Estado de São Tomé, uma verba muito significativa para um pequeno país como o seu.

Taipé não costuma exigir aos seus aliados na arena internacional que reconhecem a existência soberana da grande ilha do mar da China, como Pequim exige, relações diplomáticas exclusivas, optando antes pelo fortalecimento de laços económicos e comerciais. (ionline.pt)

por Sérgio Soares

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