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Mundiais. A história de Portugal em cinco capítulos

Da gloriosa epopeia em 1966 (meias-finais) ao conflito entre jogadores e Queiroz em 2010 (oitavos-de-final),um resumo das campanhas nacionais

(LUSA)
(LUSA)

1966 A táctica é bem simples: guarda-redes do Belenenses, defesa do Sporting e ataque do Benfica. Com estes ingredientes, Portugal estreia-se de forma entusiástica na história dos Mundiais, pela mão do brasileiro Otto Glória, o técnico da selecção nacional que chegara a Lisboa em 1954 para profissionalizar o Benfica (e o futebol português).

Em Inglaterra, Otto (neto de portugueses) enche-se de glória, assim como os jogadores, mais conhecidos por Magriços, na sequência de um concurso de alcunhas promovido pelo jornal “A Bola”. Entre Zé, Lusito, Piruças, Magriços, Cockinhas e Pimpão, o povo escolheu Magriços e Magriços ficou. Vestido de galo futebolista de Barcelos.

À chegada a Londres, um dirigente da FIFA, de seu apelido Robinson, dá as boas-vindas a Portugal com um certo cinismo, que se revelaria premonitório: “Desejo-vos todas as felicidades, sem esquecer que a Inglaterra está na prova.” Que comece então o Mundial.

Instalada em Manchester, a selecção despacha todos os rivais com três golos. Na estreia, por exemplo, ninguém em Portugal vê o primeiro golo, de José Augusto, aos três minutos. A Emissora Nacional só começa a transmitir o jogo com a Hungria um pouco depois.

Com a Bulgária, o autocarro da selecção parte para o hotel sem Otto Glória, que faz a viagem no carro dos jornalistas. No 3-1 ao Brasil, o inesquecível episódio da quezília entre Morais e Pelé. Lesionado, após duas entradas fora de tempo ao joelho direito, o brasileiro ameaça: “Eu parto uma perna a você!” Ao que Morais respondeu: “Vai mas é fazer as malas [para casa].” E a isto Coluna acrescenta: “Pelé, olha que o Morais é perigoso, tem maus fígados.”

Nos quartos, a Coreia do Norte ganhava 3-0 aos 24′ quando Eusébio se irrita e marca quatro de seguida, garantindo a meia-final com a anfitriã Inglaterra em Liverpool. O problema é que a FIFA altera o local à última hora para Wembley. Autor de um bis, Bobby Charlton faz chorar o Pantera Negra. A história, essa, já está escrita. Com glória. A de Otto. E a de todos os portugueses.

Hungria 3-1, Bulgária 3-0, Brasil 3-1, Coreia do Norte 5-3, Inglaterra 1-2 e URSS 2-1

1986 “Deixem-me sonhar!” Quando a situação está complicada na qualificação, o seleccionador José Torres tem aquele desabafo eterno, Carlos Manuel faz-lhe a vontade com um golaço do meio da rua em Estugarda (1-0 à RFA, que nunca perdera em casa na qualificação) e Portugal lá volta a uma fase final de um Mundial, 20 anos depois.

Os Infantes, alcunha dada aos jogadores, novamente através de sufrágio popular, começam mal e acabam pior. Há a exclusão de Veloso (Benfica), por acusar positivo num controlo antidoping. A contra-análise, feita em Madrid, dá negativo, mas a essa hora já embarcara Bandeirinha (Académica) numa inenarrável viagem Lisboa-Frankfurt-Dallas-Cidade do México-Monterrey, tudo de avião. Depois, para descomprimir, 100 quilómetros de autocarro rumo a Saltillo, onde tudo dá para o torto, a começar pelo campo (inclinado) de treinos.

O Hotel La Torre é uma fortaleza, com seguranças armados, mas depressa se torna uma via verde para os amigos do alheio (o representante oficial da FIFA para acompanhar Portugal é um mentiroso de primeira, que mais tarde viria a ser preso por roubo a elementos da selecção) e as raparigas da terra.

À falta de condições de trabalho acrescem-se outras também graves, como a falta de adversários dignos para preparar a selecção. Todos são amadores. Um dia, Portugal joga em Monterrey com uma equipa de empregados da indústria hoteleira de Saltillo. É uma palhaçada de sentido único. Entre os 11 golos da selecção, os jogadores rebolam-se a rir e até brincam com os jornalistas, de pé, perto da linha lateral. É um gozo tremendo. Até que o Chile se oferece para defrontar Portugal e pede 1200 contos de cachet. Finalmente um adversário de nível. Mas a federação recusa surpreendentemente. A FPF não tem dinheiro. É o fim.

Os jogadores rebelam-se, abre-se a guerra da publicidade nos fatos de treino e nas camisolas, ameaçam greve e os dirigentes começam a ficar no mais completo descrédito. Estoira a bomba, com repercussões na Assembleia da República, com Manuel Alegre a defender os jogadores na sua qualidade de trabalhadores. Como se isso fosse pouco, ainda há mais um momento traumático, com a lesão de Bento. A vitória sobre a Inglaterra (obrigado Carlos Manuel) é o único aspecto positivo de uma campanha para esquecer, com duas derrotas a fechar.

Inglaterra 1-0, Polónia 0-1, Marrocos 1-3

2002 Outro Saltillo? Nem daqui a 100 anos! Pois, a verdade é que Portugal tem a incompetência de rubricar outro momento decepcionante e humilhante numa fase final, apenas 16 anos depois dos problemas no México.

Desta vez, o desastre começa em Macau, num estágio que nada contribui para a falada (e desejada) adaptação e a jornada é pródiga em atropelos ao regulamento disciplinar, que provocam graves de-savenças na comitiva. Depois, o controlo antidoping positivo de Daniel Kenedy (entra Hugo Viana).

Qualificado sem qualquer derrota (facto inédito para a selecção), Portugal entra mal, reage bem e é eliminado sem honra nem glória pela anfitriã Coreia do Sul (1-0), num jogo de má memória em que João Vieira Pinto perde a cabeça e é expulso com vermelho directo por dar um murro no estômago do árbitro argentino Ángel Sánchez.

EUA 2-3, Polónia 4-0, Coreia do Sul 0-1

2006 Já estamos na família Scolari, o brasileiro parecido com Otto Glória na forma de falar com os jogadores e gerir o balneário. Quarenta anos depois, repete-se a presença na meia-final, sem (convenhamos) a espectacularidade de 1966.

Da lista de convocados, só um nome imprevisto: Costinha. Não pelo seu valor mas por ter parado de jogar em Novembro de 2005, em litígio com o Dínamo Moscovo. Só faz três jogos. Passa a exercitar-se por aí, nos relvados e na praia.

No início, os resultados ajudam a esquecer a má forma de Costinha. Três vitórias seguidas na fase de grupos levam- -nos a jogar com a Holanda nos oitavos–de-final. É a batalha de Nuremberga, em que o número de cartões (20, com 16 amarelos e quatro vermelhos) quase superou o de faltas (25) em 90 minutos de pura adrenalina, no jogo mais indisciplinado de sempre em fases finais. E aí Costinha demonstra que não está com pedalada para grande cometimento, razão pela qual é expulso ainda na primeira parte.

Sem Costinha – nem Deco, o outro expulso com a Holanda -, Portugal ainda passa a Inglaterra de Eriksson mas já não se aguenta com a França. E eis-nos no jogo da consolação que só serve para consolar Figo, que se despede da selecção, tal como o guarda-redes Oliver Kahn.

Angola 1-0, Irão 2-0, México 2-1, Holanda 1-0, Inglaterra 0-0 e 3-1 nos penáltis,

França 0-1, Alemanha 1-3

2010 Um lance acrobático atira Nani para fora da África do Sul (substituído por Ruben Amorim) e inicia a polémica, que se aprofundaria com Deco, substituído por Tiago no primeiro jogo do Mundial.

“Não me surpreendeu sair, o que me surpreendeu foi o treinador ter-me colocado no lado direito. Todos sabem que não sou extremo.” O seleccionador reage: “Não vou colocar uma pedra sobre o assunto, e sim um pedregulho. As pedras foram colocadas pelos próprios jogadores. Em Portugal, é muito fácil brincar com a dignidade e a honra das pessoas em termos da seriedade e da ética.”

O pedido de desculpas de Deco aparece tarde de mais. Queiroz nunca mais vai à bola com ele, nem com Coreia do Norte, nem com Brasil e nem sequer com a Espanha, nos oitavos-de-final, em que somos eliminados por Villa. Inglório destino, já agora: ao primeiro golo sofrido, Portugal está fora da competição.

Na zona mista do estádio, Ronaldo não fala mas depois solta um desconfortável “perguntem ao Queiroz”. Será o último jogo do seleccionador, envolto em problemas mil a partir daí. A federação apostaria em Paulo Bento. O que se segue à meia-final do Euro-2012?

Costa de Marfim 0-0, Coreia do Norte 7-0,

Brasil 0-0, Espanha 0-1. (ionline.pt)

por Rui Miguel Tovar

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