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A Casa dos Espíritos (Partes I e II)

José Maria Espírito Santo, o fundador, e os três filhos: Manuel, José e Ricardo (Foto: D.R.)
José Maria Espírito Santo, o fundador, e os três filhos: Manuel, José e Ricardo
(Foto: D.R.)

Esta é a primeira parte da saga da família Espírito Santo, que a jornalista Inês Dentinho publicou na revista do jornal O Independente em Fevereiro de 2000 e que o Dinheiro Vivo volta agora a publicar.

Estava um calor infernal naquele mês de Agosto de 1975, quando o marquês de Deleitosa mandou abrir os portões da sua finca em Puebla de Montalbán. Iria abrigar os amigos que durante a Guerra Civil de Espanha tinham acolhido a sua família, em Santa Marta, sobre o mar de Cascais. A história repetia-se, quarenta anos depois.

Chegaram primeiro as mulheres e as crianças. Dias mais tarde, a salto, alguns homens da família Espírito Santo Silva, com dois ou três colaboradores mais próximos.

Para trás ficavam, quatro meses na prisão e a história de duas gerações dedicadas à construção do maior banco privado português. Num sopro, o processo Revolucionário em Curso tomara o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL), a Tranquilidade e os passaportes dos seus maiores accionistas. As contas tinham sido congeladas e uma imprevidência estranha deixara-os com pouco dinheiro fora do País.

A única dinastia financeira de Portugal chegara ao fim. Aproximava-se a hora de cada um seguir o seu caminho. Tal como nos romances de Thomas Mann, a decadência dos bisnetos fecharia o ciclo de uma família que tivera projecção económica, social e cultural nas três primeiras gerações.

Para os Espírito Santo, os calores daquele Verão de 75 passam-se entre as sombras dos pomares de Deleitosa, os mergulhos no Tejo e a sensação única de estarem juntos e a salvo. Dão-se conta de que só se têm uns aos outros e mais uma colecção de amigos influentes no estrangeiro. O próprio marquês dirige, nessa altura, o Banco Exterior de Espanha. É sogro da duquesa de Badajoz, irmã do rei. E não faltam telegramas de apoio dos Rockfeller, de Giscard d’Estaing, de D. Juan Carlos, do conde de Paris, Richard Nixon e Bernardo de Holanda.

“Tínhamos uma coisa muito importante: um nome capaz de abrir portas no estrangeiro” explica José Manuel Espírito Santo. Mesmo sem o banco, mantinham-se no inner circle mundial. Numa tarde, à volta da mesa, decidem continuar juntos. Como se de uma jura se tratasse. E reerguer o grupo que o avô José Maria E.S., levantara do nada nos últimos anos de Oitocentos.

Dava origem a uma família invulgar. Os Espírito Santo atravessam a crise da monarquia, o caos republicano, o marasmo salazarista e o saque da revolução com a fleuma de quem tem um caminho só seu. Imperturbável, até nas rupturas que a vida impõe a qualquer clã. Têm morrido cedo, os seus chefes. Mas redescobrem-se entre si. Como se tivessem combinado continuar a saga do homem que um dia nasceu incógnito, no 72 da Travessa dos Fiéis de Deus, em Lisboa.

O primeiro milhão

Foi em 1850, “aos vinte dias do mês de Maio de mil oitocentos e cincoenta Baptizei – José – que nasceu a treze do corrente ano, filho de Pays incógnitos, apresentado nesta Igreja pela parteira Hipólita Joanna”, dita o padre Joaquim, coadjutor na igreja da Encarnação.

José tomará o nome de Maria, Mãe de Deus, sua madrinha de baptismo; do Espírito Santo, quando se crisma; e Silva, talvez como seu pai. Carlos Damas, do arquivo histórico do BESCL, segue a pista do conde de Rendufe, intendente-geral da Polícia. Atribui-lhe a paternidade da criança nascida nos Fiéis de Deus. Tem até um retrato do fidalgo pendurado numa das salas da Rua do Comércio. O conde era padrinho de Maria Angelina, que criou o rapaz, a quem nunca fez passar as privações comuns a estas crianças na Lisboa dickensiana do século XIX. “Mas factos só com provas”, adiantou o arquivista.

A verdade é que, aos 19 anos, quando José Maria casa pela primeira vez, já é dado como cambista estabelecido no 91 da Calçada do Combro. Um sucesso precoce que sugere apoio familiar.

Começa por distribuir cautelas da lotaria espanhola. Aproveita a enchente de carlistas, que, na década de 70, procura abrigo em Lisboa. São anos difíceis para José Maria E.S. O negócio envolve riscos que as crises financeiras de 1875-76 vêm aprofundar. À febre bancária, seguem-se insolvências das casas de crédito.

Numa das suas cartas, José Maria escreve: “Trabalho até às duas da noite e sendo 5 ou 6 da manhã, volto ao trabalho das facturas, pois o dia não me chega, às vezes para fazer compras e vendas e cobrar outras vendas já feitas a prazo, de bilhetes e prémios.”

Os registos do jovem cambista denunciam um controlo apertado nas contas e a caligrafia irregular de quem pouco estudou. Doseia risco com minúcia. “Mais vale perder pouco e cedo do que muito e tarde”, escreve em Março de 1878, descontente com o negócio dos cupões espanhóis. Dedica-se à compra e venda de títulos nacionais e estrangeiros. Aproveita uma breve alta da economia. Mas abusa da atenção. Assina jornais estrangeiros para estar mais informado do que a concorrência. E nunca deixa de ir à Bolsa de Lisboa, todas as tardes, para acompanhar a evolução das cotações.

Reinveste sempre. Como se soubesse cedo onde vai chegar. Compra lotes no Passeio Público, que – sabe – será arrasado para a abertura da grande Avenida da Liberdade. E descobre Campo de Ourique, antes da hora. Arrenda ali a exploração de uma pedreira e passa a vender lotes construídos. Em dez anos faz o seu primeiro milhão.

Regressa à banca. Por várias vezes, José Maria E.S. desfaz as sociedades bancárias. Sabe que o seu único capital de risco é a confiança dos depositantes. “My word is my bond.” E não tolera as dívidas dos sócios. Obriga-os ao acertar as contas mas, curiosamente, volta a tomá-los como parceiros.

Na decada de 1890, o Ultimatum inglês, as conspirações republicanas e a falência de Baring Brothers – banqueiros do Governo – desencadeiam uma crise financeira que leva Portugal a abandonar o regime do padrão-ouro.

José Maria obriga-se a uma pausa bancária (1889-97). O seu património soma já 500 contos de reis. Uma fortuna. O cambista passa a comprar prédios por toda a cidade. Prefere a Lapa, Arroios, Santa Engrácia, Santa Isabel e o Chiado. E não dispensa um conjunto no Paço do Lumiar.

É nesse altura que casa, pela segunda vez, com Rita Ribeiro. Uma mulher “muito mais nova e muito bonita”, que lhe dá quatro filhos: Maria, José, Ricardo e Manuel.

Estamos no início do século XX. José Maria tem pouco mais de 50 anos, mas sente-se doente. Passa temporadas cada vez maiores em Interlaken, nos Alpes suíços, de onde escreve a sua mulher insistindo na disciplina de estudo dos três rapazes. Sobretudo nas línguas. Manda o mais velho para a Merchiston Castle School, em Edimburgo. Quer dar-lhe uma formação capaz de o preparar para o governo dos negócios.

Imparável, ainda aposta em África (1906). Tem açúcar em Moçambique e algodão em Angola. Investimentos seguros, mesmo nos anos que anunciam a desordem republicana. José Maria E.S. nunca se envolve no carrossel político que, há 20 anos, preenche a agenda do País. Não tem qualquer contacto com a oligarquia política e económica do seu tempo. É um homem que vive apenas para a construção de um império que quer deixar aos filhos. Morre em 1915.

Só o seu testamento denuncia uma timidíssima preferência política. Da metade disponível da herança, distribui 30 contos por asilos e albergues de infância desvalida. Neles se destaca a sociedade de beneficência do muito republicano José Estevão.

Um escândalo em Lisboa

Com os mesmos 19 anos com que seu pai começara a trabalhar, José E.S. assume a liderança dos negócios da família. Acompanhara as lides financeiras nos últimos dois anos e tem uma estratégia. Traz de Inglaterra a ideia de lançar uma rede nacional de balcões, como nunca se vira em Portugal. Uma teia parecida com a do Midland Bank, que captasse os abastados depósitos da província. Muito em breve, os velhos sócios de seu pai vão virar-se contra o rapaz.

As convulsões políticas e cambiais na Primeira República sugerem aos mais conservadores menos experiências. De 1914 a 1920, o custo de vida subira 14 vezes. Em 1918, Sidónio Pais é assassinado e um ano depois surgem movimentos restauraccionistas no Norte. A violência, o terrorismo e os golpes de Estado multiplicam-se, criando um clima de nervosismo nos capitais.

Por outro lado, os verdes anos de José E.S. oferecem aos seus sócios uma oportunidade única para tomarem o controlo da casa bancária. O projeto de construção da importante filial do Porto dará pretexto para um ultimato ao herdeiro. As múltiplas condições eram “indiscutíveis” para os sócios. Como indiscutíveis foram para José Espírito Santo. Sem resposta, a questão morreria num acordo, três meses depois, que dava a posse integral da casa à família. A 9 de abril de 1920, lançava-se finalmente o Banco Espírito Santo, SARL. José E.S. chama então uma nova equipa de colaboradores. São técnicos, advogados e comerciantes – pessoas que estabelecem pontes com outros negócios. Quer a ligação do capital financeiro ao capital comercial e industrial. Na mesma linha, fortalece as companhias africanas.

Também na casa dos Espíritos havia novidades. Depois dos estudos em Edimburgo, Ricardo casara, em 1918, com Mary Cohen, uma bonita judia de 16 anos, filha de um conhecido financeiro de Gibraltar. José E.S. pelo seu lado, apaixonara-se pela irmã, Vera Cohen, também ela de uma beleza que fica na história. Mas Maria – a irmã mais velha dos dois irmãos – “não aprova o namoro”, que repete as famílias. Programa um casamento mais pensado: Maria José Borges Coutinho seria a mulher ideal para José E.S.

A ideia dos amores contrariados resulta provisoriamente. José E.S. e Vera Cohen passam anos separados. Ele casa e tem três filhos. Ela também casa, mas não chega a ser mãe. Um dia, em 1932, recebe um recado. José E.S iria raptá-la nessa noite. Vera Cohen “vai dormir a casa de umas tias de onde partem juntos, de comboio, para Paris”, conta Maria João Bustorff, [no ano 2000] presidente da Fundação Ricardo Espírito Santo.

O escândalo ecoa na pequeníssima Lisboa dos anos 30. À excepção do duque de Palmela, “todas as portas se fecham ao novo casal”. E a presidência do banco passa, de imediato, para Ricardo E.S., a quem José E.S. vende todas as acções da instituição de crédito. Salva-se, assim, a jóia do grupo.

José e Vera E.S. instalam-se em Paris num apartamento Belle Epóque, em Passy. Priva com os duques de Windsor e estabelece contactos internacionais úteis ao grupo em Lisboa. Interessa-se por outras áreas financeiras. “A indústria dos seguros apaixonava-me pela sua complexidade e diversidade.” Desde sempre. Tornara-se accionista da Tranquilidade Portuense, logo em 1918, e vai convencer os irmãos a incluírem a empresa no grupo Espírito Santo.

Regressa a Portugal em 1937, onde passa a viver os melhores seis meses de cada ano, no Estoril. O seu irmão Ricardo devolve-lhe as acções ao preço de custo. “Coisa que os irmãos Sousa, do Fonsecas, nunca conseguiram entender”, comenta Ricardo Salgado, actual presidente do grupo.

Até ao fim dos seus dias, José E.S. será consultado sobre as grandes questões do grupo como presidente do Conselho Geral do BESCL. É considerado o melhor técnico financeiro de sempre da família. Domina a estratégia sem desconhecer a oportunidade: “É a eminência parda do banco, quem realmente manda nas questões fundamentais”, explica Ferreira Neto, [no ano 2000] presidente do BIC.

Exigente, quase duro, José E.S não dá largas à bonomia tão repetida nos seus irmãos Ricardo e Manuel. Assim parece. Mas quando morre, em 1968, entrega o terço disponível do fartíssimo testamento a todos os empregados do banco e da Tranquilidade. Privilegia, sobretudo, os que o serviram nos anos mais difíceis da Grande Guerra e da década de 20.

Íntimo de Salazar

Mais afortunado seria Ricardo E.S., de 1932 a 1955. Colhe os dividendos que a II Guerra Mundial traz a Portugal e à Suíça e vive os melhores anos do regime num excelente trato com Salazar.

Seguindo os conselhos do irmão mais velho, será o inventor da banca de retalho em Portugal, antes de Cupertino de Miranda. Logo em 1937, compra o Banco Comercial de Lisboa. “A fusão foi deitar uma parede abaixo e descobrir que havia um degrau de diferença entre os pisos”, lembra um funcionário. Mas não só. O Comercial dava aos Espíritos um corpo financeiro apto para fazer músculo com os benefícios da guerra. As importantes transacções internacionais, sobretudo de volfrâmio, passam pelo BESCL e dão-lhes uma base para crescer.

As teses de Fernando Rosas e António Louçã atribuem uma tendência germanófila a Ricardo E.S., durante a II Guerra Mundial. Sabe-se que o banqueiro foi preso pela Resistência francesa, em Abril de 1945, e António Telo atribui essa prisão aos negócios do BESCL com a Alemanha. Mas, pelo seu lado, Carlos Damas, do arquivo histórico do BESCL, vai publicar em breve outra tese sobre a travessia do Banco nos anos da guerra [“O Banco Espírito Santo”, Vol. I, Lisboa BES, 2004]. E guarda cartas – que não mostra – de israelitas americanos agradecidos pelo apoio recebido na aflitiva escala de Lisboa.

Atribui-se ao sangue judeu das irmãs Cohen a ajuda que o banco terá dado aos judeus que por cá passavam, rumo às Américas. Mary convertera-se ao cristianismo para casar com Ricardo E.S. Mas, quando morreu, tinha escondido, do lado do coração, um alfinete com mais de vinte medalhas de santos onde se via o brilho de uma pequena estrela de David.

Os arquivos do BESCL, que poderiam ajudar a esclarecer a questão, foram sendo destruídos por sucessivas vagas de aproveitamento de espaço.

Certo é que o bom trato social de Ricardo e Manuel E.S. transformam o grupo num íman de interesses internacionais. Pelas casas dos três irmãos passam todas as cabeças coroadas europeias que tinham procurado refúgio em Portugal. A pedido de Salazar, Ricardo E.S. recebera também os duques de Windsor, durante o mês de Agosto de 1940. Hitler entra em Paris e Churchill ainda não destinara o governo das Bahamas ao antigo rei de Inglaterra.

Entre o Eixo e a Aliança inglesa, Salazar balance. Em Abril de 1944, o presidente do Conselho está submetido a uma enorme pressão. Há desassossego no ar, novos rumores de greves, escassez de pão e são encontradas bombas relógio nas linhas férreas que conduzem a Espanha.

Mas a maior pressão vem de fora. Churchill quer uma definição de Portugal e Berlim aguarda a resposta de Lisboa. É do banqueiro que Salazar obtém mais uma informação preciosa: o embaixador do III Reich “confessa a Ricardo Espírito Santo que será retirado de Lisboa se for imposto à Alemanha um embargo total”, como escreve Franco Nogueira.

Ricardo E.S. é íntimo de Salazar. Tanto quanto o presidente do Conselho tem intimidade com alguém. “Quem cooptava os amigos era Salazar”, precisa Augusto Athaíde. “Governava com a sua equipa ministerial mas contava com uma segunda estrutura que ouvia à hora do chá.”

Se os irmãos Sousa – do Fonsecas – eram mais chamados para dar crédito às obras do Regime, Ricardo E.S. é o banqueiro mais ouvido pelo presidente do Conselho. O que não deixa de ser estranho. O banqueiro representava tudo o que Salazar queria à distância. Era viajado, riquíssimo, boémio, esteta, independente e entrara directamente para o topo da sociedade lisboeta.

Em Ricardo E.S., por outro lado, também não se adivinha qualquer interesse em Salazar que escape à navegação económica e financeira dos Espíritos. “Portugal é a excepção. À sua maneira, cada um é profundamente nacionalista, amante de Portugal”, diz quem os conheceu.

Apego à estética

Desde os 16 anos que Ricardo E.S mostra interesse por tudo quanto é português. É gozado em casa, pelos irmãos, quando faz a sua primeira compra: um tapete de Arraiolos do século XVIII, “em péssimo estado”. Numa tasca de Torres Vedras ouve o barulho de uns talheres mais pesados na cozinha e quer saber do que se trata. A sua segunda compra é esse conjunto de prata do século XVIII, com estojo de tartaruga.

A jornalista francesa Christine Garnier escreve: “Acometido por uma espécie de febre, de frenesim, deitou-se a viajar pelo mundo em busca de quadros, móveis antigos, joias, pratas, porcelanas e bibelots raros […] Sempre que encontra no estrangeiro alguma coisa bela com a marca de Portugal, apressa-se a comprá-la para a trazer, com amor, de volta ao seu País.”

Conta-se até que, durante a guerra, Ricardo escapou de um atentado da Resistência francesa, descontente com tamanhas transacções. Terá sido salvo pelo dono de uma fundição de Oeiras, com melhores contactos na mesma Resistência.

Junta a maior colecção de peças portuguesas e francesas do País. Em 1947, compra o Palácio Azurara, às Portas do Sol, onde instala os objectos nacionais. Antes de morrer, em 1953, oferece o museu ao Estado, com uma escola de restauro. Escandaliza-se com o estado do património português e previne maiores estragos.

Na mesma linha, entende o génio de Amália Rodrigues e dá-lhe mundo. As suas casas são palco para gente do teatro, da música e da cultura. Num compromisso raro entre boémia e tradição, Mary Cohen dá abrigo a tamanha existência. Tem mundo. “Era considerada uma das mulheres mais cultas e elegantes de Lisboa. Pierre Balmain tinha o seu manequim em Paris. Na Primavera e no Outono mandava-lhe amostras e modelos com comentários e recomendações”, conta a neta, Maria João Bustorff.

O apego à estética e a proximidade com o presidente do Conselho levam Ricardo E.S. a atitudes inesperadas. Quando Salazar decide comprar uma residência oficial em S. Bento, em Abril de 1939, o banqueiro surge como mecenas do Estado. “Para guarnecer a parte oficial contribui Ricardo Espírito Santo, que, sem conhecimento de Salazar, fornece gratuitamente algumas peças de sua propriedade pessoal”, escreve Franco Nogueira.

Será pouco provável que o minucioso político não tenha conhecido a origem dos objectos de arte. A relação com o banqueiro era demasiado próxima, como se repara num “pormenor de interesse” que o biógrafo de Salazar escreve sobre Christine Garnier, a quem se atribui um romance com o presidente do Conselho. “Todas as despesas de C.G. – transportes, hotéis, viagens, presentes – eram integralmente pagas pelo bolso de Salazar. Geralmente eram liquidadas por Ricardo Espírito Santo, a quem Salazar reembolsava por cheques, cujos talões encontrei entre o seu espólio.” Na lista dos seis homens que Garnier “julga poderem informá-la sobre o Chefe do Governo”, estão, à cabeça Mário de Figueiredo, Manuel Cerejeira e Ricardo Espírito Santo.

O fim de um ciclo

São múltiplos os investimentos estratégicos que unem Salazar a Ricardo E.S. O presidente do Conselho conta com o banqueiro para preparar o financiamento da Ponte sobre o Tejo e para fundar a TAP e a Sacor. A última, com o romeno Sein e Queirós Pereira. “O Estado precisava que as empresas nacionais desenvolvessem a autonomia do País”, explica Carlos Damas, do Arquivo Histórico do BESCL. Também o Hotel Ritz foi uma encomenda feita por Salazar a Ricardo E.S. e Manuel Queirós Pereira. Fazia falta em Lisboa um hotel com categoria para receber as mais ilustres personalidades estrangeiras.

Mas nem sempre os dois homens se entenderam. Divergiram, pelo menos, em três grandes questões. No pós-guerra, o banqueiro insistiu na necessidade absoluta de Portugal aceitar o Plano Marshall; Espírito Santo sentiu os limites impostos pelo presidente do Conselho a investimentos no estrangeiro; e não reconheceu grandes vantagens oficiais no desenvolvimento económico das províncias ultramarinas. “Salazar era um grande financeiro mas à pequena escala”, define Ricardo Salgado.

Jaime Nogueira Pinto adianta: “Salazar aceitara, por necessidade de confiança e mobilização de capitais, a ascensão destes grupos económico-financeiros, embora os mantivesse nos limites da sua actividade específica, cortando-lhes o passo na intervenção política. Controlava-os como um árbitro, mantendo relações pessoais com alguns dos seus chefes, as quais eram sobretudo de ‘cortesia’, em que eram guardadas distâncias e intimidades.”

Nada que evitasse os Espírito Santo de atingir, na segunda geração, o olimpo económico-financeiro do seu país. Quando Ricado E.S. morre, o BESCL é o primeiro banco privado português. Destaca-se: tem o dobro dos depósitos em relação ao segundo. E não só.

A extensa necrologia do banqueiro das artes, publicada nos jornais de 3 de Fevereiro de 1955, é eloquente: além do BESCL, despedem-se de Ricardo do Espírito Santo e Silva a Sacor, a TAP, a Cidla, a sociedade agrícola de Cassequel, a sociedade de algodões de Moçambique e as oficinas gráficas, a que se poderiam juntar outras empresas como a Tranquilidade, a Previsão e também a Companhia Geral Resseguradora. Mas também o Sporting Club de Cascais, a Academia dos Amadores de Música e a Fundação que leva o seu nome. Durante o percurso fúnebre sobrava povo nas ruas que ligam a Basílica da Estrela ao Cemitério dos Prazeres.

Fechava-se o primeiro ciclo ascendente da família Espírito Santo Silva.

A CASA DOS ESPÍRITOS (PARTE II)

Manuel Ricardo Espírito Santo (à janela do jipe, fotografado com os dez irmãos) chegou à presidência do BES aos 40 anos Centro Histórico do Banco Espírito Santo.
Manuel Ricardo Espírito Santo (à janela do jipe, fotografado com os dez irmãos) chegou à presidência do BES aos 40 anos
Centro Histórico do Banco Espírito Santo.

Quando Ricardo do Espírito Santo Silva morre, em 1955, a Família dobra uma esquina no tempo. Esgotam-se os anos de afirmação financeira, cultural e social. E resta ao irmão mais novo, Manuel, consolidar a herança a par de um regime que se extingue devagar. Para trás ficara a obra de José Maria, seu pai, que, do nada, erguera um nome e uma casa bancária imune às crises da monarquia e ao caos da I República. Ficara também a exigente travessia da Grande Guerra e a difícil fundação do banco (1920) suportada pelo irmão mais velho.

Ficara ainda a projecção financeira atingida pelo irmão do meio, Ricardo Espírito Santo Silva. Em pouco mais de 20 anos, o novíssimo banqueiro ligara-se ao Banco Comercial de Lisboa (1937) e espalhara uma rede de balcões por todo o País. Antes da hora, preparava uma estrutura capaz de absorver os benefícios da economia da II Guerra Mundial, instalando o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa no topo da banca privada portuguesa.

A par das conquistas financeiras, Ricardo dera dimensão cultural à segunda geração da Família Espírito Santo. Deixara ao País uma fundação com a mais completa coleção de peças de arte portuguesa, perdidas durante o tumultuoso século XIX e resgatadas pelo banqueiro nos cantos mais escondidos da Europa e dos Estados Unidos. Organizara em Paris uma grande exposição de ourivesaria portuguesa, que seria inaugurada pelo Presidente René Coty pouco depois da sua morte. E é também com Ricardo Espírito Santo que a Família se estreia numa teia de valiosos contactos internacionais que dão escala ao nome e ao negócio.

O terceiro irmão, Manuel, será um anfitrião de primeira água, fortalecendo a rede dos Espíritos. “Podia ter sido diplomata. Tinha um trato extraordinário”, lembra Ferreira Neto [no ano 2000] presidente do BIC. Chega a ser convidado por Marcello Caetano para ocupar a embaixada de Portugal em Washington.

“O meu pai dava muita importância aos estrangeiros. No mundo dos negócios, são contactos que ficam”, diz José Manuel E.S. Lembra-se, em pequeno, de ver lá em casa os condes de Paris, Calouste Gulbenkian, o duque de Kent, os condes de Barcelona, o rei de Itália, Richard Nixon, Giscard d’Estaing, os Firestone, Bernardo da Holanda, os irmãos Rockefeller, as famílias reais do Luxemburgo e do Liechtenstein e George Woods, presidente do Banco Mundial.

Mas a história desta Família parece ser feita apenas por homens. Na sombra, as mulheres construíam um mundo que os fazia existir a tamanha escala. Isabel Pinheiro de Melo, mulher de Manuel, empresta aos Espírito Santo o mundo tradicional que a pacatez dos anos salazaristas devolve a algumas famílias de Lisboa. Filha do conde de Arnoso, um dos Vencidos da Vida, amigo e secretário do rei D. Carlos, “é uma grande figura do matriarcado e da dignidade”, nas palavras de Augusto Athaíde [no ano 2000; entrou para o grupo Espírito Santo no Brasil, depois de abril de 1974. Entre outros cargos que ocupou no grupo, foi presidente do Banco Internacional de Crédito, integrado depois por fusão no Banco Espírito Santo].

Tem onze filhos, criados entre o Paço do Lumiar e a casa de Santa Marta, sobre o mar de Cascais. Passa o Natal e a Páscoa no Peru, perto de Azeitão. E é entre a farta prole, as casas grandes e os interesses profissionais do marido que desdobra os seus cuidados.

Todas as terças-feiras, nos três meses de Verão, dá um almoço “socioprofissional” no terraço de Santa Marta. Traz por casa os maiores banqueiros do mundo e os reis sem trono da nova ordem europeia. Mas envolve os maiores acontecimentos com um ambiente familiar acolhedor. Quarenta anos mais tarde, receberia das mãos do rei de Espanha uma pequena medalha com o número 12 e com a legenda: “Mãe Isabel, este é um símbolo do seu 12º filho”. D. Juanito não esquecia os anos calmos da sua meninice entre o Estoril e Cascais, numa aldeia onde poucas famílias grandes passavam os meses de Verão.

Dar o exemplo

De certa maneira, os Espírito Santo vivem num país estrangeiro. Poupam-se às crises políticas, académicas ou laborais que atravessam Portugal durante o Estado Novo. E florescem num microclima de caçadas, vela, jogos de ténis e festas sem grande ostentação. Como é dado. Nesta geração, tudo parece garantido.

“A burguesia aceitava um regime que lhe permitia auferir os seus créditos em sossego, a mentalidade conservadora e mesmo reaccionária dominava ainda a primeira ou segunda geração das dinastias financeiras e industriais”, escreve Jaime Nogueira Pinto.

Os Espíritos cumprem. Trabalham cedo – do balcão à presidência – e não irão fugir à guerra do Ultramar. “Era importante dar o exemplo e ter o sentido da responsabilidade. Não fazer escândalo nem ser ostensivo”, define José Manuel E.S.

Era importante também não se manifestarem politicamente. “Têm um princípio: os negócios não se misturam com a política. Mesmo dentro de casa, cada um é o que quiser ser mas, quando se sentam à hora do negócio, não há se não contas certas”, explica Augusto Athaíde.

Manuel E.S. não tem a mesma proximidade de Salazar que seu irmão Ricardo tivera entre 1932 e 1955. Desloca-se a S. Bento apenas uma vez por ano para apresentar pessoalmente o relatório de contas do grupo. Nos últimos anos, nem isso acontecia. Mas é amigo de vários ministros. Luís Supico Pinto e o professor Lumbrales, por exemplo, são da casa. Franco Nogueira também repete visitas. Terá um lugar no grupo quando deixar o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O imobilismo salazarista e a Primavera nunca cumprida de Marcello Caetano garantem as variáveis fixas da estabilidade. Também a falta de liberdade sindical e de direito à greve facilitam o governo interno dos grandes grupos económicos. E há apoios crescentes nos investimentos em Angola e Moçambique, sobretudo durante a Guerra do Ultramar.

“O grupo Espírito Santo é mais conservador que os outros e tem uma estratégia familiar muito coesa. Durante a Primeira República alinharam com a ala mais moderada. Com o regime salazarista e, mesmo quando, em 1959, a economia abre com a entrada na EFTA, mantêm a ligação forte com África e uma insensibilidade em relação à Europa”, diz Fernando Rosas.

Mas para os financeiros – que baseiam o seu ofício na confiança – a tradição não é defeito. Enquanto os outros grupos cresceram da indústria para a banca, os Espírito Santo fizeram o movimento inverso, “sempre com participações minoritárias, não estratégicas, segundo o princípio básico de que o banco deve estar ao serviço dos seus clientes” explica Ricardo Salgado.

Estratégia em África

A partir de 1959, Portugal abre-se timidamente ao mundo. O lápis azul não apaga tudo o que se vê na televisão; o turismo areja o ambiente ultra-doméstico das nossas aldeias de roupa branca; a emigração vira-se em massa para a Europa, com retornos mais imediatos; e o investimento estrangeiro, a par da entrada na EFTA, desperta novos olhares sobre o País.

Manuel prefere uma gestão conservadora da atividade financeira, com o apoio do irmão mais velho, José. Não terá o atrevimento económico de António Champalimaud, nem a modernidade que os Mellos tentam impor à condução do seu grupo. Acompanha a onda de crescimento económico da década de 60 e vai renovando a casa, de dentro para fora.

Contrata um grupo de tecnocratas que lhe refrescam a gestão. José Roquette assume a direcção comercial nacional; Mário Adegas, a contabilidade; Ferreira Neto, o pessoal; e Mário Mosqueira do Amaral, a direcção internacional. São da sua safra as participações no Libra Bank, com o Chase Manhattan, o Bank of Tokyo, o Itaú e um banco holandês associado ao Rea Brothers, presidido por Walter Solomon, judeu alemão de Hamburgo, grande amigo de Manuel E.S.

A abertura económica pedia abertura política. Em Angola, António E.S. lança, em 1973, o Banco Inter-Unido, em associação com o City Bank, e insiste com os delegados políticos locais na ideia de uma independência progressiva, que inclua os colonos e os movimentos de libertação. Sabe que é a única forma de manter o tecido empresarial em África, onde tem a maior plantação de café do mundo (CADA); mais de 15 mil hectares de cana-de-açúcar (Cassequel); a Companhia dos Açúcares de Angola; a importante Petrangol; a Sociedade Agrícola do Incomati; e a Companhia dos Algodões em Moçambique, em associação com os Lagos.

Dentro da Casa dos Espíritos, a mudança começara pouco antes de 1974. Desaparecidos os três filhos do fundador (1973), a condução dos negócios passara para Manuel Ricardo – o primogénito do terceiro filho (Manuel). Pela lógica da varonia, anteriormente aplicada, a chefia do grupo caberia ao primeiro filho do mais velho dos três irmãos (José E.S). Mas este prefere ficar mais ligado à Tranquilidade, sendo Manuel Ricardo eleito por unanimidade. Uma nova geração chegava ao topo do grupo com projetos que não têm tempo para ser novos.

“Fascistas e capitalistas”

A revolução de 1974 apanha os grandes grupos económicos portugueses na cama. Nenhum deles está preparado para o dia seguinte. Como se não quisessem acreditar nos avisos que a agonia marcelista deixava escapar.

Há um ano que os Estados Unidos não têm um embaixador em Lisboa. A Guiné declara unilateralmente a independência em 1973. Spínola lançara “Portugal e o Futuro” e há vigílias pela Paz na Capela do Rato. Em Março de 1974, é dado o último sinal: um grupo de militares descontentes falha o Golpe das Caldas, anunciando para breve a esquina política. “É um mistério…”, reconhece Augusto Athaíde, também desprevenido.

Manuel Ricardo tenta “navegar sem naufragar” – como diz – entre greves, comissões de trabalhadores, congelamentos financeiros e o controlo de movimento de capitais. Participa no Movimento Dinamizador Empresa-Sociedade (MDES). Lá estão, também, José Manuel de Mello, António Champalimaud, Joaquim Aguiar e Leonardo Ferraz de Carvalho, entre outros. Querem lançar um programa de evolução económica e empresarial baseado nas regras da democracia. Chegam a entregar o documento ao Conselho da Revolução, mas nada atrapalha a cadência do Processo Revolucionário Em Curso. “Fascistas e capitalistas” formam sinónimos nos slogans dos manifestantes que todos os dias gritam nas ruas. Os seus nomes são apontados em listas de malfeitores policopiadas e distribuídas pelo poder que caiu na rua.

A mesma vanguarda revolucionária assaltaria a sede do MDES, “ali perto da Avenida da República: as mesas e as cadeiras voaram pelas janelas e os papéis foram todos queimados”, lembra-se José Manuel de Mello, numa entrevista a Maria João Avillez, em 1994. Parecia não haver saída para os senhores da economia anterior.

A paralisia do ver para crer toma conta dos maiores empresários portugueses. E, mesmo em Janeiro de 1975, quando Manuel Ricardo prevê a nacionalização do banco, nada faz – ou pode fazer – para prevenir uma saída sustentada. “Sou o comandante do navio. Vou com ele para o fundo”, disse aos seus. E foi.

A verdadeira revolução chegaria à banca à hora do almoço do dia 11 de Março de 75. Como sempre, o BESCL fechou as portas da Rua do Comércio ao meio-dia. Mal sabia que só as abriria uma semana depois para o público e 17 anos mais tarde para a administração dos Espíritos.

No terceiro andar, trabalhadores do banco, armados, prenderam seis membros da família. José Roquette telefonara minutos antes para a administração do BESCL, de onde lhe respondera um ocupante: “O dr. Manuel Ricardo não atende este telefone, nem nunca mais o vai atender”. Roquette parte para a Baixa, fura o cerco dos militares e acaba preso como outros elementos da família Espírito Santo. A revolução virara a mesa e o Decreto-Lei 132 A/75 anunciava a nacionalização da banca e dos seguros em Portugal.

Ainda assim, o primo da nova geração, Ricardo Salgado, é convidado a continuar no banco. Escapara às capturas de 11 de Março e será bem recebido por Pinto Alho, líder do conselho de gestão. De Março a Abril de 1975, gere o conflito de fidelidade que resulta do facto de trabalhar numa empresa que lhe foi tirada.

“Era importante estar dentro do banco”, diria à SIC, em 1994. Mostrava jogo de cintura da família e tentava a libertação dos cativos através de contactos na Marinha, onde tinha feito o serviço militar. A cada chamada, Pinheiro de Azevedo garante-lhe que tudo se resolve depressa. Mas os dias passam sem resultados e Ricardo Salgado resolve deixar o País e o banco, rumo à Suíça. Aí se reúne com Mário Amaral que também “tinha fugido num navio que o Dinis, empregado lá do banco, lhe arranjou”, lembra-se Ferreira Neto.

Na prisão de Caxias, os presos da Família contam os dias e as noites, que somam quatro meses. Com Manuel Ricardo E.S., José Maria E.S., Carlos E.S Mello, o comandante Ricciardi, Jorge e José Manuel E.S, estavam também José Roquette, o duque de Palmela, José de Mello, Spínola, irmão do general, e Quirino Mealha, presidente do Borges & Irmão. Dias depois, entrava a administração do Sotto Mayor, compondo os metros quadrados mais financeiros do País.

Manuel Piçarra não esquece aqueles dias, nem as conversas com Manuel Ricardo: “Disse-me que, se dali saísse um dia, iria começar tudo de novo. Que não tinha dinheiro seu. Apenas tinha amigos e vontade de recomeçar. Tinha, e ali me referia, grande sentido de família, que queria unida para o regresso.”

Amigos no Mundo

Ironicamente, a revolução terá ajudado a evitar a possível queda dos Espíritos na quarta geração. Segundo Thomas Mann, é nessa altura que a ambição cede ao desperdício e a união familiar dá lugar ao estilhaço dos interesses.

Mas os quatro meses de prisão dos mais destacados homens da Família, a fuga a salto para Espanha, em Agosto de 1975, e o refúgio numa “finca” perto de Toledo, sem muito dinheiro e fora do País, reúnem a família no essencial: o nome.

É uma época de escolhas. Entregues a si próprios num mundo desconhecido, é como se estivessem prisioneiros da sua liberdade. Continuar juntos? Por onde começar? Em que lugar assentar? Que apoios privilegiar? Em que sectores apostar? Com quem contar?

Os homens da Família encontram-se em Londres nesse mesmo Verão Quente de 1975 para desenharem uma estratégia. Reúnem-se na casa emprestada de um amigo romeno, Richard Stern, um poiso de exílio para banqueiros portugueses e princesas do Leste, com as suas famílias.

Os contactos apontam destinos. Os Espírito Santo estão em Londres porque contam com o apoio precioso, de instalações e telefones, do Rea Brothers, presidido pelo velho amigo, Walter Solomon. O banqueiro, feito Sir pela rainha de Inglaterra, falará dos amigos portugueses a Genscher [Hans-Dietrich Genscher, à época vice-chanceler alemão e ministro dos Negócios Estrangeiros de Helmut Schmidt] e outros notáveis europeus. Visitas antigas de Cascais, como Bernardo da Holanda e os Rockefeller, estão presentes em pequenas recomendações que valem milhões.

A história oficial reduz a 20 mil dólares (3500 contos) a base de reconstrução do grupo. Algumas casas de Lisboa são vendidas e parte do seu recheio cai nas mãos de antiquários estrangeiros que aproveitam a incerteza revolucionária para comprar a baixo preço. “Não há obras de arte que reconstruam grupos. Quanto muito, ajudam as pessoas a sobreviver”, dirá Ricardo Salgado, em 1994. “Mas tínhamos activos intangíveis como a confiança e o conhecimento”. Aquilo a que o “Wall Street Journal” intitula de “nome mágico que atrai a magia”. Ou a finança. O suficiente para começar um projeto tecnicamente simples de capital de risco.

Banqueiros sem banco, os Espírito Santo continuam a ser recebidos como nos melhores anos. Em Setembro de 1975, Manuel Ricardo não deixa de ser convidado para a reunião anual do FMI, em Washington. No jantar oferecido pelo Banco Mundial, o presidente McNamara dá-lhe a direita ao som de uma solidária salva de palmas. É o descontentamento para os representantes do Banco de Portugal e o crédito internacional para o novo Grupo Espírito Santo. Pouco depois, o Banco Mundial aposta no desenvolvimento do grupo na área agrícola no Brasil e no Paraguai.

A liderança de Manuel Ricardo E.S. é reforçada no estrangeiro. Gere consensos e é determinado. Nesta fase, alguns membros da família passam para segundo plano. Na mesma linha, técnicos qualificados do banco, como José Roquette e Mário Mosqueira do Amaral, entram como accionistas da casa nova.

O regresso

O Brasil parece o destino preferencial. Em pleno desenvolvimento económico e com estabilidade política forçada, atrai fortes correntes de capital, especialmente dos Estados Unidos. Ricardo Salgado voara para lá, logo em Junho de 1975. Falara com o ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonson, que lhe abrira as portas nos ramos financeiro e agro-industrial. António Espírito Santo tem incentivos para projectos no Brasil e no Paraguai. Constrói uma cidade no meio do nada, a 90 quilómetros das cataratas do Iguaçu. De tal maneira fica ligado àquela nova terra que, como pedira, as suas cinzas seriam lá depositadas em 1995.

A onda de portugueses que vai para o Brasil depois da revolução tem uma atitude parecida com a dos príncipes russos do pós-guerra no exílio de Paris. Forma um grupo queixoso. “Usam um discurso que amplia os domínios que lhes tinham sido tomados. E gozam a infelicidade com galões de exílio político que os distingue dos emigrantes portugueses de sempre”.

Por contraste, a turma Espírito Santo mantém-se “calada na praia do lado”. Tinha sido um dos objetivos da vanguarda de Abril. “Mas abusava da discrição. Cultivava uma snobeira de sinal contrário: silenciosa e trabalhadora”, lembra-se quem ficava a meio da praia.

Na verdade, seria exactamente o apoio dos emigrantes portugueses dos anos 20 uma das chaves dos Espírito Santo nas terras de Vera Cruz. David Guimarães, banqueiro, e António Carlos Almeida Braga, accionista controlador da seguradora Atlântico-Boavista, dão o primeiro empurrão financeiro ao grupo no Brasil. Uma palavra deixada cair por Manuel Queirós Pereira na direcção do Manufacturers Hannover e algum apoio pessoal também seriam providenciais para a descolagem dos primeiros negócios.

As alianças feitas nos anos da véspera da revolução com o Chase e com o City Bank, traduzem-se agora em sociedade e empréstimos bonificados.

A cultura de trabalho da Família manifesta-se com a exigência dos primeiros tempos. Manuel Ricardo instala-se em Londres sem staff doméstico. Enquanto o seu irmão António vive num apartamento no Rio com mais dez ou doze técnicos que trouxera de Angola para recomeçar o grupo agrícola. “Teria casa à sua disposição, mas quis ficar ali com todos os outros”, lembra Ferreira Neto.

As equipas que quiseram continuar com os Espírito Santo formavam um “activo” importante para o arranque lá fora. “Fiquei encarregado de transmitir aos empregados da Cassequel [de Angola] que a família Espírito Santo não lhes garantia mundos e fundos no Brasil. Mas teriam subsistência se quisessem continuar a trabalhar com eles.” Cerca de 100 quadros quiseram.

Miami, Suíça, Paraguai, Bahamas, Zaire, Luxemburgo e Londres são novos pontos cardeais para o relançamento dos Espírito Santo em mais de 30 empresas. Sempre com uma postura pouco aculturada, “iguais, com as mesmas piadas e o mesmo clima de grupo em cada sítio”, diz um colaborador.

Um clima de grupo que também conhece divisões. A decisão de voltar para Portugal, por exemplo, tarda por falta de consenso. A matriarca, Isabel E.S., ficara em Azeitão com o apoio do filho Bernardo. Tal como a duquesa de Palmela, sua irmã, ficara no Calhariz. Também Mary Cohen ficara no País com as quatro filhas. Portam-se como âncoras que são. Defendem o território e acolhem os emigrados nos Natais que se seguem a 1978.

E nem a AD, entre 1979 e 1983, convence os Espírito Santo ao regresso a Portugal. Será Mário Soares, em 1984, com o socialismo meio fechado na gaveta, a incitar Manuel Ricardo E.S. a voltar para o País em força. O banqueiro pondera o convite do primeiro-ministro e logo lhe refere as indemnizações devidas.

Assiste-se à austeridade do Bloco Central, mas adivinha-se a retoma da economia na véspera da entrada na Europa. Os indicadores favorecem os optimistas e a Família não terá dificuldades em convencer os parceiros do Crédit Agricole a abrirem o Banco Internacional de Crédito, em Lisboa, no final de 1986. Mas só depois da revisão constitucional de 1989 será possível tentar recuperar o controlo das empresas e do banco.

O grupo cria músculo financeiro. Parte da holding financeira está cotada nas Bolsas de Luxemburgo e de Londres. A conquista de Nova Iorque dá-se em 1991. Um sucesso que garante manchetes nos jornais americanos. A próxima escala será Lisboa. A família quer de volta as duas jóias: a Tranquilidade e o BESCL.

A custo ganha a seguradora. O banco será mais fácil. Se na Tranquilidade foi decisivo o apoio do Crédit Agricole, no BESCL o grupo terá do seu lado os potenciais concorrentes, que se inibem da corrida respeitando o direito histórico.

Manuel Ricardo conduz o banco a bom porto, mas não terá o gosto de ver o BESCL de novo nas mãos dos seus. Morre, inesperadamente, em Março de 1991.

Uma questão de confiança

Em Setembro desse ano, os Espírito Santo podem, finalmente, subir ao 15º andar no número 195 da Avenida da Liberdade. Eliminam os tabiques que então dividiam as salas de cada administrador e recuperam o clássico open space em que sempre conduziram os seus interesses. Na imensa sala – claríssima – com fronteiras de vidro sobre a Avenida alinham-se agora as oito secretárias dos administradores, todas viradas para o centro, como se de uma távola redonda se tratasse. “A união familiar dá trabalho. As pessoas têm de falar”, explica José Manuel Espírito Santo.

A rara colecção de quadros que animava os gabinetes dos homens do Estado passou para os corredores e salas comuns daquela espécie de olimpo financeiro. Sobrou fleuma para não caçar os trabalhadores, que a 11 de março de 1975 pegaram em armas para prender a administração. “Recomeçar sem passado” foi o verbo. Ou nem tanto.

Há várias lições que se tiram da ruptura de 1975 e da estreia internacional. Não voltam a apostar tudo em Portugal e elegem um regime de joint venture para os novos projectos. Repetem o exemplo do primeiro avô, José Maria Espírito Santo. “Saem bem dos negócios, no tempo exacto para o investimento financeiro. As passagens pela Telecel e pela Petrogal são os melhores exemplos dessa política. E mantêm uma rede de influência com profissionais da sua confiança em sectores estratégicos”, diz um observador.

O tempo e o número dos parentes tem efeitos corrosivos implacáveis para qualquer clã. “Estão todos no mail da Fundação e são convidados para tudo o que aqui acontece”, diz Maria João Bustorff, [no ano 2000] directora da Fundação Ricardo Espírito Santo, “mas só aparecem10 por cento”.

Os Espírito Santo mantêm-se unidos e dispersos. O ramo do primeiro irmão – José – isolou-se. Em 1975, apesar de ser o único com alguma folga financeira fora do País, aposta timidamente na reconstrução do grupo.

Ricardo E.S – o segundo irmão – teve apenas quatro filhas o que, pela matriz varonil do grupo, atrasou por uma geração o acesso dos descendentes a cargos de chefia. Um dos genros, o comandante Ricciardi, assume a presidência do grupo em Março de 1991, ao mesmo tempo que Ricardo Salgado (neto) lidera a holding financeira.

Haveria mais escolha entre os onze filhos do terceiro irmão (Manuel) no unidíssimo ramo Arnoso Espírito Santo. A sucessão terá sido mais pacífica do ponto de vista técnico do que familiar. Mas os irmãos de Manuel Ricardo estavam ligados a projetos especializados. Apenas o primo Ricardo Salgado se mantivera sempre na área financeira, acompanhando a estratégia de conjunto com o presidente anterior. De qualquer modo, a seis meses de recuperação do BESCL não havia lugar para divisões.

Hoje [ano 2000], há apenas duas dezenas de Espíritos que se entregam à “firma”. Três administradores, um director e dois juniores no BES. É regra da casa começarem pelo balcão. Como regra é, serem apurados apenas os que dão garantias de não fazer estragos. Ao banco e ao nome dentro do banco. “As decisões são tomadas de uma maneira muito objetiva”, garante Ricardo Salgado.

Mas esse não é o trunfo da durée da única dinastia financeira que chegou aos nossos dias: “Houve um Norte. Assente na confiança no seu nome e na ‘fairness’ ou neutralidade, se preferir”, define Augusto Athaíde [em 2000].

Parece que a história chegou ao fim. A Família resgatou o seu banco e, depois da fusão com o BPI, devolveu-lhe o primeiro lugar no topo do ranking privado português. Esgotado o sonho da reconquista, sobra a rotina da manutenção. Ricardo Salgado contraria: “A história nunca chega ao fim, é um processo contínuo, que espero ser sustentado.”

Publicado originalmente na edição de 3 de março de 2000 na revista do jornal “O Independente” (dinheirovivo.pt)

 

 

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