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Elinga-Teatro “A arte de bem representar”

Albino Carlos Foto: Angop
Albino Carlos
Foto: Angop

Nos seus vinte e cinco anos de existência, não encontro a melhor forma de homenagear o nosso melhor e emblemático grupo de teatro do que realçar as obras que a referida agremiação artísticocultural vem interpretando para o grande público.

Porque a história do Elinga Teatro é tecida pelo trabalho que tem realizado ao longo dos tempos, procurando, tanto quanto permite a arte de bem fazer teatro, se não transformar o mundo, pelo menos mudar a forma de pensar Angola.

Na continuada senda de fazer teatro de qualidade, o percurso do Elinga é recheado de verdadeiras obras-primas, na sua maioria magistralmente criadas por Mena Abrantes, tão somente o mais persistente dos persistentes e, sobretudo, o mais brilhante fazedor de teatro da nossa praça.

elingalogo24Do manancial de obras do Elinga Teatro, destacam-se “A mesa ou a Canção do Desespero”, “ O armário e a cama”, “Os velhos não devem morrer”, “Há vagas para moças de fino trato”, “A última viagem do príncipe perfeito”, “A revolta da casa dos ídolos” e muito recentemente “A Orfã do Rei”, monólogo que definitivamente consagrou Mel Gambôa como uma das mais promissoras intérpretes do nosso meio teatral.

Atendendo que teatro é arte e arte é vida, o teatro do Elinga espelha a arte da vida angolana, pelo que, para mim, confesso admirador do grupo teatral, o Elinga atingiu a maioridade em termos de representação quando colocou em cena a história de Kimpa Vita, a profetisa ardente do Reino do Congo.

Definitivamente, a História de Angola está a ser feita. A referida obra cénica, pretendendose uma restituição histórica de um acontecimento histórico, foi abraçada com empenho officinal e espírito de missão, de tal sorte que longe de almejar um ajuste de contas com o passado colonial, afigura-se tão-somente como uma exaltação da memória colectiva do percurso revolucionário do povo angolano, elemento importante no processo de construção e consolidação da nossa identidade nacional.

Kimpa Vita, a profetisa ardente, é uma obra que espelha o choque de cultura e civilizações na aurora colonial, um episódio que mostra que a longa travessia da noite colonial foi tremendamente marcada por sombras, fantasmas e pesadelos, mortes, injustiças e desumanidades, e que só graças aos exemplos de bravura e patriotismo herdadas dos melhores filhos da Mátria Angola foi possível atingir-se a luz da liberdade de modo que hoje todos os angolanos possam orgulhar-se de serem os verdadeiros senhores do destino de um país livre e soberano, próspero e fraterno.

Com efeito, Angola é um edifício cujos caboucos foram erguidos com sangue, lágrimas e suor dos seus melhores filhos, uma nação nascida sob o signo do ferro e do fogo.

Kimpa Vita foi a justiceira feiticeira congolesa que combateu as forças do mal vindo das águas tumultuosas do kalunga nguma. Ela alcançou a imortalidade sobretudo por se ter rebelado contra as atrocidades cometidas pela Igreja Católica a 2 de Julho de 1707, saindo chamuscada pelas chamas da Fogueira da Inquisição mandadas atear a mando de D. Pedro IV Nsanu-a-Mbemba. Na altura, ela contava apenas com 22 anos de idade e já era uma sombra na decadência do Reino do Congo.

Definitivamente, o Elinga Teatro atingiu a maioridade com a representação de Kimpa Vita. Com assinatura reconhecida de Mena Abrantes, os espectadores são levados a percorrer com o olhar atento sombras e luzes imaginativamente tecidos por forma a prender os espíritos errantes; a espaços e no silêncio dos movimentos cadenciados das sombras, os espectadores são tocados pelos sublimes acordes retirados da alma dorida de um batuque e de uma guitarra com se brotados da alma dos antepassados, sons que despertando os sentidos, afastam os fantasmas de todas as guerras que de sangue manchou o chão sagrado dessa terra amaldiçoada pelos homens mas bafejada pelos deuses.

O espectáculo dura apenas uma hora, mas são sessenta intensos minutos que calam fundo na alma porque percorrida por sombras e passos da longa noite colonial.

E como a história dos povos se confunde com a história dos seus heróis, a actuação da personagem principal de “Kimpa Vita – a profetisa ardente” (Anabela Vandiane) não podia ser mais sublime: ela exibe uma segurança nos movimentos e nos passos bem medidos no preenchimento dos espaços digno de uma Rainha, empolga as massas com o seu discurso incendiário e também incendeia os corações com o jingosar do seu corpo, o olhar firme e penetrante com uns olhos que no escuro do palco brilham como as estrelas cintilantes de Mbanza Congo. Pela soberba actuação de Kimpa, todos os actors são soberbos no desempenho dos seus papéis.

O teatro é mesmo assim: a imaginação supera as carências de materiais e meios, pelo que a cenografia acasala excelentemente com os desenhos e luzes.

O texto é uma malha tecida com imaginação e engenho e a música ecoa perfeitamente no silêncio da noite, tão perfeita que silencia o rumor do espanto deslumbrante da assistência extasiada.

A História de Angola está a ser reescrita. O Grupo Elinga Teatro faz história escrevendo a história do teatro angolano. ALBINO CARLOS (jornal Cultura)

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