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Representatividade simbólica da Sala Cordeiro da Matta

20130225103113feira_internacional_Cordeiro da Matta faleceu há 119 anos e continuam vivos os ideais de defesa dos valores culturais endógenos, de uma figura notável da história literária angolana do século XIX.
Das conferências e lançamentos às exposições de fotografias e artes plásticas, parte substancial da representatividade angolana na Feira Internacional do Livro de Havana, decorreu num espaço designado Sala Cordeiro da Matta uma prestigiante homenagem ao “Fundador da Literatura Pátria”, investigador, jornalista e poeta e homem voltado para as questões identitárias da sua terra.
A reabilitação da figura de Cordeiro da Matta pelo Ministério da Cultura pode ser o início de um amplo projecto de divulgação da sua vida e reedição da sua obra, para o conhecimento e vulgarização do seu legado nos meios académicos e junto da geração estudantil mais jovem.
Eminente personalidade das letras, Joaquim Dias Cordeiro da Matta nasceu no dia 25 de Dezembro de 1857 em Cabiri, Concelho de Icolo e Bengo, depois da instalação do prelo em Angola, em 1845, facto que veio revolucionar o processo de reprodução da imprensa escrita.
Cordeiro da Matta, uma das figuras angolanas mais multifacetadas do século XIX, foi, para além de investigador, poeta e jornalista, um notável pedagogo, historiador, filólogo, folclorista, cronista e romancista e a dimensão intelectual da sua obra e zelo enciclopédico levaram estudiosos e investigadores a reconhecer o prestígio da cultura e tradição da região dos quimbundos.
Numa linha de continuidade iniciada em 1864, em que pontificaram nomes como Saturnino de Sousa e Oliveira e Manuel Alves de Castro Francina, que assinam o clássico “Elementos Gramaticaes da Língua Nbundu”, um opúsculo com 20 provérbios, desembarca em Luanda em 1885 o padre suíço Héli Chatelain, “misssionário dotado de uma vasta e sólida cultura que iria alargar o conhecimento público da literatura tradicional angolana”, parafraseando Carlos Ervedosa. De facto, Héli Chatelain “era possuidor de uma extraordinária capacidade de trabalho e servido por um brilhante e multifacetado espírito e dedicou-se, durante 22 anos, à etnografia e ao estudo aprofundado do português e do quimbundo, a par de uma intensa actividade noutros campos do intelecto, exigida pela sua filiação a organismos científicos e humanitários da Europa e da América”.

Emancipação da literatura

Sobre Héli Chatelain e a necessidade de Angola possuir uma literatura com identidade própria, Cordeiro da Matta, companheiro do padre suíço, diz o seguinte no final da nota preambular do seu livro “Philosophia em Provérbios Angolenses”: “Terminando esta nota, pedimos aos nossos compatriotas que dediquem algumas horas d’ócio ao estudo do que Angola tiver de interessante, para termos uma literatura nossa. Um distinto estrangeiro, Héli Chatelain, excelente carácter, que há dedicado a sua vida e inteligência ao bem deste continente, preferindo padecer mil incomodidades em África a viver com honras e riquezas no luxo da Europa e América – sem mira de lucros pecuniários – eis o que nos escreveu sobre tão importante assunto: É preciso que os próprios filhos do país, cheios do santo zelo pelas cousas pátrias, desenvolvam a literatura nascente; e como a união faz a força, é mister que se reúnam os poucos que sentem na alma o fogo sagrado, é mister que este fogo queime e consuma as mesquinhas rivalidades e vaidades pessoais, de modo que cada um se regozije da prosperidade do colega”. Mais adiante, Joaquim Dias Cordeiro da Matta lança um apelo: “Por isso, patrícios meus, embora vos custe, embora seja com sacrifício, dedicai algumas horas de lazer para a fundação da literatura pátria”.

Jornalismo e literatura

Como jornalista, Cordeiro da Matta sobressaiu nos jornais “Arauto Africano” e “O Farol do Povo”, tendo colaborado em várias publicações como “Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro” (1879 – 1892) e “Jornal de Luanda” (1870). Do conjunto da obra do autor chegada até nós, de que se contam muitos livros desaparecidos, constatam-se preocupações de natureza sociológica em “O loandense da alta e baixa esfera” (1891) e “Doutor Gaudêncio”, lirismo e narrativa literária em “Delírios” (1888) e “Contos angolanos e Cronologia de Angola”, filosofia e recolha proverbial em “Filosofia Popular em Provérbios Angolenses” (1891), preocupações de natureza linguística e lexical no seu “Dicionário Quimbundo-Português”, e pedagógicas e didácticas na “Cartilha Racional para se aprender a ler o quimbundo”, segundo a cartilha maternal de João de Deus. Como historiador deixou-nos a “História de Angola”, publicada em folhetins do jornal “Pharol do Povo”.

Línguas e autores

Francisco Soares escreve que “as inclinações literárias do pai levaram-no a participar também no citado ‘Almanach de Lembranças’, onde Cordeiro da Matta ganhou vulto em todo o espaço da língua portuguesa”. Poliglota, “dominava o português, quimbundo e tinha conhecimentos de latim e francês”. Cordeiro da Matta cita nos seus escritos a Marquesa de Alorna, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Gonçalves Crespo, Bulhão Pato, Luz Soriano, Tomás Ribeiro, Pinheiro Chagas, Júlio César Machado e Teixeira de Bastos. Francisco Soares depreende que leu Gonçalves Dias e João de Lemos e “algumas das suas soluções formais aparentam-se às do poeta simbolista brasileiro Cruz e Sousa, um filho de escravos”.

Poesia de Cordeiro da Matta

O elogio da mulher e o amor, associados à contemplação da natureza, dominam a criação poética de Cordeiro da Matta: “Em manhã fria, nevada/ dessas manhãs de cacimbo/em que uma alma penada/ não se lembra de ir ao limbo, eu vi formosa, correcta/não sendo europeia dama/a mais sedutora preta/ das regiões da Quissama/mal quinze anos contava/e no seu todo brilhava/o ar mais doce e gentil!/tinha das mulheres lindas/ as graças belas, infindas/de encantos, encantos mil./Nos lábios, posto que escuros,/viam-se-lhes risos puros/em borbotões assomar./ Tinha nos olhos divinos/revérberos cristalinos/e fulgores… de matar!/ radiava-lhe na fonte/ – como em límpido horizonte/radia mimosa luz,/da virgem casta a candura/que sói dar à formosura/a graça que brota à flux!…/embora azeitados panos/ lhe cobrissem os lácteos pomos/ denunciavam os arcanos/de dois torneados gomos.”
A obediência ao esquema rimático alternado denota um conhecimento das técnicas de versificação, reiterado no poema Negra: “Negra! Negra! como a noite/d’uma horrível tempestade/mas linda, mimosa e bella/como a mais gentil beldade!” e em Kicola: “Nesta pequena cidade/ vi uma certa donzella/de fada, huri e deidade”, texto que reflecte a “bivalência cultural” do seu autor.

(jornaldeangola.com)

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