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Ana Clara Guerra Marques: ‘A dança ajuda a definir o meu sentido de vida’

“A dança enquanto arte, é sempre produto de uma inquietação de quem cria, podendo mostrar-nos o lado “ menos humano “ que todos nós temos e muitas vezes não nos permitimos admitir “. Ao reflectir e ao olhar sobre a dança, afirma que a “ mesma não se encerra nas memórias e nas heranças, mas o interessante é transportá-la para outros contextos e linguagens”. Quem é o diz, é Ana Clara Guerra Marques, Directora Artística da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, mas também Bailarina e Coreógrafa angolana. Decorria o ano de 1991, quando na bagagem dos sonhos, transforma a utopia em realidade e funda a primeira companhia profissional em Angola.

Do seu vasto trabalho, destacam-se várias obras, com as quais cria novas formas e conceitos de espectáculo, como Corpusnágua, Solidão, 1 Morto & os Vivos, 5 Estátuas para Masongi, para as quais trabalha em conjunto com alguns dos mais reconhecidos escritores, pintores e escultores angolanos, nomeadamente Manuel Rui Monteiro, Pepetela, Jorge Gumbe, Masongi Afonso, Mário Tendinha, Francisco Van-Dúnem e António Ole. Em Mea Culpa, Palmas, Por Favor!,Neste País…; Agora não dá!, Tou a Bumbar, Os Quadros do Verso Vetusto e O Homem que Chorava Sumo de Tomates, a coreógrafa assume um outro olhar na relação com o seu trabalho. Em 1995 recebe o prémio “Identidade” pela UNAC (União Nacional dos Artistas e Compositores) e em 2006 são-lhe atribuídos o “Diploma de Honra do Ministério da Cultura” e o “Prémio Nacional de Cultura e Artes” na categoria Dança, pela sua contribuição nos campos do ensino, criação artística, investigação e cultura no nosso país.

Possui o grau de Mestre em Performance Artística – Dança com a tese «Sobre os Akixi a Kuhangana entre os Tucokwe em Angola. Em entrevista a O País, Ana Clara Guerra Marques referiu que “dança é uma forma de celebrar o ser humano em todas as suas potencialidades e valências. A vida, certamente e o sonho, às vezes”. Com Paisagens Propícias a estrear na primeira semana de Dezembro em Luanda, a Coreógrafa homenageia o trabalho do antropólogo e escritor Ruy Duarte de Carvalho.

A dança é um estado de arte permanente?

A meu ver, um olhar sobre a Dança deverá ter em conta o facto de ela ser uma actividade de motricidade exclusivamente humana, cujo elemento de sustentação é o movimento corpóreo e onde existe sempre uma intenção (mais ou menos explícita) de comunicação. Estando sempre associada a um determinado contexto sociocultural e político, ela possui diversas abrangências e aplicações como a arte, o ritual, o social, a terapia, a catarse, a educação, a formação, o lúdico, a recreação, entre outras. Portanto, nesta diversidade de contextos apenas se fala de arte quando a dança é produto da reflexão e acontece de forma intencional, ultrapassando a sua natureza material. Ou seja, quando existe uma intenção de transmitir algo, através de uma linguagem simbólica e codificada a que se associa sempre uma preocupação estética.

A dança humaniza a alma e o corpo?

A dança é, como referi, uma actividade exclusivamente humana. Todavia ela não pode servir apenas para o deleite de quem faz e de quem vê. A dança, enquanto arte, é sempre produto de uma inquietação de quem cria, podendo mostrar-nos o lado “menos humano” que todos nós temos e muitas vezes não nos permitimos admitir.
Olhando para a trajectória do trabalho notável que tem feito há uma clara evidência no resgate da memória e das tradições angolanas. É com base nesse legado que pensa sonhar o futuro da dança em Angola?

É uma opção, mas não a única possibilidade que defendo. A dança, como qualquer actividade artística, não se encerra nas memórias e nas heranças. Ela reflecte contextos determinados, actuais e, no caso da dança contemporânea, ela serve para expressar as inquietações do próprio coreógrafo. O artista deve ser uma pessoa atenta e com responsabilidades sociais e a arte pode ser uma forma de intervenção.

No entanto, quando se recorre à “tradição”, o interessante está em transportá-la para outros contextos, revelá-la através de outras linguagens e de outras propostas estéticas. Pode ser uma forma até de a actualizar, de a revalidar, de a revitalizar e de a perpetuar, sem que, para isso, sejamos obrigados a copiar ou a reproduzir os seus cânones e os seus aspectos formais.
Vários estudiosos têm referido que as diferentes artes de cada nação, não só enriquecem o património cultural, como prestam um serviço social e cultural qualificado ao bem comum. Isso tem sido o grande objectivo da Companhia de Dança Contemporânea que dirige?

Atendendo ao que acima referi, sem dúvida. A CDC Angola é um colectivo activo e, infelizmente, o único que na nossa cena artística actual, no plano da dança, continua a propor novos horizontes para a dança, dando a conhecê-la numa perspectiva de arte. Ao ter provocado uma ruptura na cena da dança em Angola (a qual, se excluirmos as danças patrimoniais, ainda hoje se caracteriza por uma preocupante e quase exclusiva actividade lúdica e de recreação), a nossa Companhia não se desvia do eixo da valorização da dança em Angola insistindo em ser um colectivo que contribui para o incremento do património imaterial angolano, o qual, não se pode circunscrever ao património herdado.

A dança é uma forma de celebrar o sonho e a vida?

É uma forma de celebra o ser humano em todas as suas potencialidades e valências. A vida, certamente, e o sonho, às vezes.
O que a move face à arte da dança e como é que a dança tem transformado a sua vida?

O que me move é esta possibilidade de desafio e questionamento permanentes que a dança (sublimada na sua forma de arte) me dá.
Paisagens Propícias é um espectáculo de dança inspirado no vasto universo que o escritor e antropólogo Ruy Duarte de Carvalho deixou a Angola. Esta coreografia a estrear muito oportunamente é uma viagem no tempo, nas cores, nos cheiros e na representação de um lugar na memória?

Também. E é, sobretudo, uma celebração aos povos do sul de Angola através de tudo o que foi o Ruy Duarte, enquanto pessoa de múltiplas valências. É um revisitar de memórias e de lugares através do estado actual e das histórias das pessoas que com ele conviveram ou não.
A dança pode levar ao campo e às cidades novas emoções e distintas formas de olhar o quotidiano?

Sem dúvida. A dança e continuamos a falar no plano da arte, tem a capacidade de intervir e de transformar, sem deixar de maravilhar. Através da dança podemos levar o público a perceber, a reconhecer, a lembrar-se e a reconhecer-se no que determinada peça de dança lhes está a propor. Os sinais emitidos revelam sempre alguma mensagem mais ou menos codificada com a qual as pessoas se identificam. Por outro lado, a dança transforma o olhar das pessoas, desenvolvendo nelas o gosto e o sentido de apreciação estética. Revela-lhes os lugares mágicos onde acontecem histórias que todos conhecemos.

Para quando a internacionalização da Companhia de Dança Contemporânea?

A CDC Angola apresentou já cerca de 108 espectáculos em 11 países e 22 cidades.

Obviamente que, se ela existisse num contexto onde o seu trabalho fosse realmente um orgulho nacional e ela fosse reconhecida como uma das grandes embaixadoras das artes e da cultura angolanas nos vinte anos da sua existência, o número de espectáculos, países e cidades seria o dobro ou o triplo.

De todas as formas, o nosso trabalho é, cada vez mais, alvo do reconhecimento dos coreógrafos estrangeiros que nos visitam e de outras pessoas que, em Angola, possuem sensibilidade e conhecimentos no campo das artes e da cultura.

Somos o colectivo sacrificado, o que abriu e continua a abrir caminho num terreno agreste. Temos esta missão e a nobreza histórica de termos sido os primeiros e os mais persistentes. Hoje há uma maior abertura que sabemos decorrente do nosso árduo labor.

Mas ainda temos vida e a esperança de poder partilhar e mostrar ao mundo que Angola tem uma companhia profissional com nível e qualidade bastante para mostrarmos o que o país vale neste campo.
“ Na dança não é suficiente apenas sentir o que se faz, mas transmitir o que se sente”. Concorda com este pensamento e foi este modo de sentir a dança que transmitiu aos seus alunos?

Claro. Ainda que as nossas condições técnicas não sejam as melhores, devemos ser honestos, verdadeiros, transparentes quando dançamos. E isso quer dizer que temos de ter sempre um objectivo. Não dançamos por dançar. Isso não é arte.

No processo artístico, duas coisas se conjugam: saber sentir o que fazemos – quando um coreógrafo nos pede algo específico – e temos de vestir o “personagem”, a ideia e incorporá-la e aí, transmitir o que se sente, pois só convencemos o público se nós mesmos estivermos convencidos do que estamos a fazer.
No plano museológico, hoje verifica-se por todo o mundo espaços museológicos temáticos. Defende, considerando o vasto património das danças tradicionais e a consequente abertura à dança contemporânea, a criação de um Museu da Dança em Angola?

Um museu temático é sempre uma mais-valia, mas tem de existir acervo. Infelizmente o espólio da CDC foi todo roubado e vandalizado, aquando da nossa interrupção. Havias roupas e adereços de cena lindíssimos, com o valor acrescentado de tudo ter sido criado e executado à mão por pessoas ligadas, primeiro, à Escola de Dança e, depois, à Companhia. Para além do valor material tinha também um valor emocional. Era o início da nossa história da dança cénica através dos objectos. Essas roupas que eu e outros vestimos seriam uma das provas da qualidade e universalidade do nosso trabalho, mas também de que ele sempre foi um trabalho enraizado na nossa cultura e sociedade.

Relativamente às nossas danças patrimoniais, seria, sem dúvida, uma forma de preservar elementos e sinais de actividades e eventos, alguns dos quais, já em vias de extinção.
Estar no palco é também um estado de alma. A dança é o seu sentido de vida?

Eu diria que a dança me ajuda a definir o meu sentido de vida. (opais.net)

Gabriel Baguet Jr.
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