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Em Memória do Abraço

“Ensaia um sorriso e oferece-o a quem não teve nenhum.

Agarra um raio de sol e desprende-o onde houver noite.

Descobre uma nascente e nela limpa quem vive na lama.

Toma uma lágrima e pousa-a em quem nunca chorou.

Ganha coragem e dá-a a quem não sabe lutar.

Inventa a vida e conta-a a quem nada compreende.

Enche-te de esperança e vive à sua luz.

Enriquece-te de bondade e oferece-a a quem não sabe dar.

Vive com amor e fá-lo conhecer ao Mundo”.

Recorro-me desta citação de Ghandi para incorrer na interrogação dos dias e do seu significado para recordar alguém que fazia da elegância das suas palavras, do bom trato e da sua fala, uma forma de cativar os que tinham e tiveram o privilégio de com ele conviver e conhecer. O sol que nascia em Lisboa na passada quinta-feira em nada fazia prever que o anoitecer podia trazer a chegada de uma notícia tão triste. O quotidiano da vida reserva-nos de forma inesperada e por vezes de forma súbita situações muito difíceis de gerir no plano das emoções e da nossa própria condição humana. E falar das pessoas que nos são especiais e queridas, nunca é uma tarefa fácil. É um exercício difícil de pensamento porque fica tanto por dizer. Porque nos interrogamos de novo sobre a nossa frágil existência e do nosso olhar face à vida. O tempo fixa à memória, o tempo da lembrança, dos gestos, dos sonhos e do devir dos dias. Inevitavelmente a memória constitui um fator de identificação humana e é essa marca, o sinal de um tempo que nos reporta aos lugares de pertença, à infância, à juventude, aos registos dos dias e às perguntas da nossa existência. E questionei-me como o faço em vários períodos da minha vida. E a notícia que ouvia ao telefone a partir de Luanda deixava-me de novo interrogado sobre nós próprios e sobre as pessoas que nunca esquecemos e estimamos. Impunha a mim próprio uma questão: quem somos? O que somos? Como referi um dia, à memória dos dias, juntam-se as memórias dos afetos e do próprio tempo. O passado aborda-nos, o presente questiona-nos e eis que de novo estamos perante o paradigma da morte. Não acreditei no que ouvia. No final da manhã desse triste dia 7 de Fevereiro de 2013 referia à sempre atenciosa sua irmã Mary-Vandúnem que tinha um postal para entregar ao João. Com ela ia sabendo do seu estado de saúde. O postal era uma saudação e a expressão da esperança e da fraternidade com o João. Esse postal não foi entregue porque à noite o Paulo Barros dizia-me: faleceu o Dr. João. A tristeza batia de novo à porta do coração e da alma para relembrar o nosso compasso com a incógnita da vida. O tempo por vezes não ameniza o próprio tempo e muito menos a dor. Apesar da diferença geracional, tive o privilégio do João (era a forma com que me permitiu sempre trata-lo) aceitar-me no seu convívio e na sua estima. Foram alguns anos até ao último Abraço. Com ele, com o ZéZé, outro parente deste triângulo de afetos apesar de ambos pertencerem a outra geração pude em variadas circunstâncias partilhar dias, vivências, ideias e o sonho da terra. Por muito longe que se esteja, o nosso chão e ponto de partida com a vida que foi e é Luanda, era também uma razão forte para este olhar de admiração que perdurará para sempre pelo João. Até na contradição das ideias, o nosso saudoso João era uma pessoa que sabia ouvir, compreender, tolerar e perdoar. Era notável no modo como tratava os outros. Esta impressão ficou inscrita em mim em múltiplos momentos. Com o João tive a honra de receber ensinamentos e conselhos. No nosso último encontro, mantinha a serenidade e o traço de uma pessoa extraordinária e preocupada com os outros. E também com o futuro. Como escreveu um dia Dorival Caymmi, “ é doce morrer no mar/nas ondas verdes do mar/É Doce morrer no mar/ Nas ondas verdes do mar/nas ondas verdes do mar/Nas ondas verdes do mar / A noite que ele não veio foi/ Foi de tristeza para mim/ Saveiro voltou sozinho/ Triste noite foi para mim/ É doce morrer no mar/Nas ondas verdes do mar/ É doce morrer no mar /Nas ondas mar /Saveiro partiu de noite foi/Madrugada não voltou/Marinheiro bonito/ Sereia do mar levou/ É doce morrer no mar”. A existência humana tem um tempo de sonho. Sentir-me-ei eternamente grato pelo seu olhar sobre a vida, Angola, a vida, o mundo e a arte de comunicar. Esta evocação de sentimentos e de pertenças necessárias ao espaço-tempo de cada pessoa, constitui também o reconhecimento por alguém muito especial e que nunca esquecerei. A todos os familiares sem exceção, parentes, amigos e colegas, fica a sentida expressão da minha admiração e dos meus sinceros sentimentos nesta hora de dor. Em Memória do Abraço trocado no passado dia 31 de Dezembro de 2012, fica meu querido e saudoso João, a minha eterna Admiração e Gratidão. Num próximo encontro entregarei o postal. Estamos Juntos. (opais.net)

Gabriel Baguet Jr

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