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Palavra na Hor@gá : fraude académica, tragédia nacional!

Gustavo1-227x300Declaração de interesses: não tenho, nunca tive e nem pretendo vir a ter qualquer tipo de participação em estrutura alguma do ensino privado em Angola.

A denúncia relativa à existência de 500 candidatos à Universidade Agostinho Neto, portadores de diplomas académicos falsos, é tão chocante quanto indigna é a forma como a nova geração de estudantes encara o ensino público no nosso país. A verdade, nua e crua, porém, é que não se tratam apenas de 500 certificados falsos.

Estes números, já em si arrepiantes, podem, no entanto, duplicar ou mesmo triplicar! Dito de outra forma, a Universidade Agostinho Neto e demais instituições do ensino superior ou médio, públicas e privadas, estão a ser assaltadas, em plena luz do dia, por uma quadrilha de gangsters que só consegue sobreviver acorrentada à fraude!

Dir-me-ão que a falsificação de certificados de habilitações literárias não é um passivo exclusivo de Angola e dos angolanos. Na verdade não é! Mas o que temos nós a ver com o que, nesta matéria, se possa passar em Kinshasa, em Goianas ou em Madrid? Ou que a Ministra da Educação da Alemanha, Annette Schavan tenha sido acusada de plagiar a sua tese de doutoramento?

Ou ainda que a jornalista portuguesa, Clara Pinto Correia, da revista “Visão” em Portugal, tenha manchado a sua carreira profissional por ter dado à estampa como seus, artigos que não eram da sua autoria? Ou ainda que o super-minstro Relvas, do mesmo Portugal, tenha sido “adubado” durante dois anos, para concluir uma pretensa licenciatura? É tempo, pois, de deixarmos de pretender atenuar os nossos erros, falhas e violações à ética, com o que, de negativo, se passa noutros países, recorrendo ao estafado argumento de que em Portugal, em França, nos Estados Unidos ou na Rússia, também há corrupção.

Pois há! Mas, o que nos importa que haja corrupção nestes países se, cá dentro, não somos capazes de adoptar medidas profilácticas para, ao menos, a estancar?

De que vale falarmos da desgraça alheia nesta matéria se, cá dentro, não conseguimos ser um exemplo de higiene social para termos legitimidade moral para sairmos de casa de cabeça erguida e sem rabos de palha?

De que vale agarrarmo-nos às saias da vizinha se, cá dentro, estamos a transportar o ensino público e privado da fase da desgraça para a etapa superior de uma tragédia nacional? De que vale atribuir o nome de Agostinho Neto à nossa principal universidade se não temos mecanismos para a prestigiar? De que vale tudo isso se, o nosso ensino está transformado num filme de ficção digno de figurar no anedotário nacional?

Ora, ao deixarmos exibir pacífica e serenamente esta película, se não nos assumimos como participantes directos desta monumental fraude, todos nós, governantes e governados, fazemos parte de uma fauna que se está a comportar declaradamente como cúmplice de um verdadeiro atentado ao ensino!

Mas, porque será que, afinal, somos todos cúmplices dessa fraude? Porque passamos a gerar filhos, que por culpa dos pais, fazem parte de uma geração que, em estado de degradação mental, nutre ostensivo desdém pelas actividades académicas. Porque decidimos dar guarida a bandos de detentores de diplomas do ensino superior falsos, que não se coíbem de se apresentarem à sociedade com um curriculum sem curriculum…

Porque aceitamos coabitar com doutos senhores mestrados ou doutorados, que não hesitam em exibir-nos as suas monstruosas falsidades. Porque estamos a fazer dos estabelecimentos de ensino público e privado autênticos “off-shores” académicos, que dão à sociedade a imagem de “alternes” criados para entretenimento social de professors e supostos estudantes, que se erguem, triunfantes, uns e outros, como bustos de si próprios… Porque ao serem apadrinhados pela fraude e venerados por se comportarem como vigaristas, esses senhores, na vida pública não só fazem gala de transpirar soberba incompetência por todos os poros, como expõem a ignorância, como a soberana mãe do seu desgraçado atrevimento intelectual…

Porque aceitamos que a nossa paisagem social esteja a ser conspurcada com peritos na arte de bem manobrar as “xerôx”, peritos esses, que, no afã de se pré-lavarem como escritores, uns ou, de impressionarem a plateia com inovações, que não passam de plágios decalcados de legislação estrangeira, outros, esquecem-se até de apagar as origens documentais e autorais dos seus plágios…

Esses são os nossos ilustres peritos, distintos plagiadores não assumidos, que hoje se apresentam geneticamente modificados não pela meritrocracia e pelo saber apenas mas… pela vaidade e arrogância que o dinheiro cozinhado debaixo da mesa lhes suscita. Porque diferentemente da Alemanha onde a Ministra da Educação e o anterior Ministro dos Negócios Estrangeiros, apanhados “com as calças na mão”, demitiram-se de imediato, por aqui os nossos falsificadores de diplomas e plagiadores de primeira, mesmo depois de caídos na malha do detector de mentiras, já provaram que não conseguem impôr-se senão pela via da fraude…

Estamos, pois, no estado em que estamos porque decidimos elogiar a falcatrua, a jactância e a mediocridade e, porque, insatisfeitos com isso, não hesitamos em evidenciar um desprezo abominável pela cultura, pela decência e pela sapiência.

Andamos, com isso, a proporcionar aos nossos filhos e netos, um deprimente espectáculo de ignorância e de vulgaridade sem graça que, neste nosso deserto cultural, nos está a transformar a todos, governantes e governados, em artistas de uma perigosa imbecilização colectiva.

A falsificação como subproduto da nossa indigência social está, deste modo, a erguer-se entre nós como arma de descrédito do próprio Estado e o país já não esconde uma condição patológica tão deprimente, que a honradez e a honestidade parecem ter sido banidas definitivamente do nosso ADN… O desprezo pelo saber é tão chocante que não admira, por isso, que tenhamos edifícios em construção a serem fiscalizados por falsos engenheiros; ou pretensos advogados que de leis percebem menos do que os seus constituintes; ou políticos famosos que até conseguem distinguir a NATO da OTAN; ou comentaristas que consideram o electromagnetismo como parte da álgebra linear; ou supostos licenciados em física a pretenderem que a lei de Newton varie conforme o clima ou o ponto do globo ou ainda estudantes do ensino médio que juram, a pés juntos, que frequentam a   “onzíma “ classe ao invés de décima primeira classe ou como “economistas” declaram solenemente que a prova dos nove nem sempre dá certo!

Se é verdade que estamos diante de uma verdadeira calamidade, a forma como as nossas crianças e alguns jovens “doutores” escrevem, se não é trágica, é dramática, desoladora e dolorosa! Provavelmente nunca ouviram falar em José Maria Relvas…

Compreendo que para essa gente seja difícil acreditar que o conhecimento vale mais do que milhões de dólares!

Essa gente deveria saber que o saber não tem preço! Mas, como escreveu Martin Amis, “a brigada dos iletrados está a vencer”! Porquê? A resposta está contida nesta alerta de Mário Vargas LLosa, Prémio Nobel da Literatura em 2010:

Em vez de ideias, discutimos comida”E – acrescento eu – também dinheiro, muito dinheiro e carros de luxo para glorificar a nossa miséria cultural e imbecilidade intelectual…

GUSTAVO COSTA (Director Novo Jornal)

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Está tão cru mas tão fiel, este retrato do nosso ensino superior! Sou professora universitária há 30 anos e acompanhei o crescer da corrupção e a decadência de valores dentro da universidade – e não só da UAN. Quero acreditar que já se chegou ao fundo e que não é possível descer mais. Hoje é normal ameaçar-se de morte um professor que realmente trabalhe e não se deixe corromper; também é normal venderem-se teses inventadas (a que pomposamente chamam trabalhos de pesquisa); e ninguém questiona o copianço de trabalhos na internet (mais pesquisa…) porque os “professores” cirandam de universidade em universidade e não têm tempo para estar nas salas de aula. Depois de anos e anos a fazer-se a malandrice às escondidas, finalmente perdeu-se a vergonha e já há cotas para que os familiares e amigos dos funcionários das públicas, entrem no ensino superior – o exame de acesso é só mesmo para aceder às tais cotas. Mas isso já lhes confere habilitação para leccionar no secundário ou médio -iniciando um fluxo de incompetência e irresponsabilidade que irá fatalmente desaguar na própria universidade. O ensino superior transformou-se num excelente negócio, imoral e criminoso. Como se chegou a esta situação? Que professores temos? Porque é que que nada se fez ou se faz? Como é que a Educação, um componente vital da soberania e do desenvolviemento do país, chegou a este ponto? Finalmente, há mais de uma dezena de universidades em Angola e só a UAN detectou certificados falsos – alguma coisa não está bem!

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