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Filho do nacionalista António Marques Monteiro revela: “Quando houver alguém com vontade de escrever a verdadeira história, irão saber muitas coisas”

A família recorda-o todos os anos, no mês de Julho. Por dois motivos: o aniversário natalício  e a data do seu desaparecimento físico. Porém, é no mês de Fevereiro, que a sua passagem por este mundo se revelou preponderante para os ideais, que defendera em vida, enquanto político engajado na defesa da independência de Angola.  António Marques Monteiro, nacionalista, ligado ao Processo dos 50,  consagrou a sua vida, defendendo pessoas e objectivos. Gente que sentia na carne a humilhação, a agressão física e a negação à liberdade. Nas suas veias fervilhava a revolta e no seu coração, um profundo amor por Angola, pátria amordaçada por um sistema colonial e opressor.

De formação seminarista, António Marques Monteiro lidou de perto com uma proeminente figura do nacionalismo angolano, cônego Manuel das Neves, que influenciaria  de forma determinante o seu discurso contestatário à ordem colonial estabelecida no país.

Os maus tratos infligidos nas Cadeias de São Paulo e Casa de Reclusão em Luanda e no Tarrafal, em Cabo Verde, com torturas físicas e psicológicas, iriam acabar com a vida ( a 26 de Julho de 1967),  de um dos principais activistas do Movimento para a Independência de Angola (MIA), que se fundiu mais tarde ao MPLA.

A História omitiu o seu nome e, incompreensivelmente, não consta da galeria dos heróis que deram o seu melhor por esta Angola.

A família que sofreu na carne as injustiças do regime está dispersa pela Europa, digerindo no silêncio, o abandono em que foram relegados.

Um dos filhos, Jorge Monteiro, editor e proprietário do Portal de Angola, dá corpo ao sentimento que reina na família do nacionalista, num desabafo, em forma de entrevista, que a seguir publicamos:

New Press – Assinalou-se o 4 de Fevereiro, que evoca o início da luta armada, em Angola. Sendo o seu pai, António Marques Monteiro, uma figura ignorada do célebre Processo dos 50, que lembranças tem dessa data? Onde é que estava quando isso
ocorreu?

JORGE MONTEIRO – Disse “figura ignorada”,  mas somente para os sem memória! A ideia do meu pai era lutar por uma sociedade mais justa.  Acredito que todos eles tinham essa idéia, mas foi uma luta contra barreiras difíceis de transpor. A dificuldade de comunicação, do conhecimento, e até os medos, faziam com  que os activistas tivessem  de se auto-politizar…; de se unirem em pequenas comunidades, para estudarem formas de luta e de acção.  Houve a revolta, o grito, a demonstração do descontentamento e foi a génese do que aconteceu a partir daí: o dia 4 de Fevereiro 1961, o início da Luta Armada, que deu origem ao 11 de Novembro de 1975, o dia da Independência de Angola! Um dos “ignorados”  (António Marques Monteiro), nem sequer estava vivo quando a bandeira foi hasteada.

Tinha morrido aos 26 de Julho de 1967. Foi esquecido por isso? Talvez… mas foi um homem que escreveu assim, em julgamento:
– “Ouviu Vossa Excelência a leitura da minha contestação e apenas quero acrescentar que Portugal não perderá em ceder Angola aos angolanos, porquanto saberemos ser gratos e terá em cada um de nós um amigo sincero e leal. Peço transmitir ao Governo-geral, a fim de levar ao conhecimento do Governo central, o meu desejo de uma reunião em mesa redonda, para se decidir da proclamação da Independência de Angola”, –  São palavras de um indivíduo que tinha conhecimento político, que queria a Independência e mais: pensava fazê-lo por meios pacíficos. Ele sabia que Portugal poderia ganhar sendo parceiro e não país colonizador. Tudo isso foi escrito pelo seu punho há mais de 50 anos, prevendo o que está a acontecer hoje, com Portugal virado para Angola e esta, a beneficiar de estatuto privilegiado. Esse pensamento redigido pelo seu punho foi apreendido pela PIDE, podendo ser visto nos arquivos da Torre do Tombo em Lisboa, ou através deste link: Manuscritos
As lembranças ainda estão presentes porque marcaram toda a minha trajectória de vida. Ainda me lembro das idas à cadeia para visitar o meu pai. Íamos todos (os 7 filhos), para a Casa de Reclusão e lá encontrávamos outras pessoas na mesma situação. Aí bebíamos um pouco, muito pouco, a esperança e vivíamos de ajudas que os familiares nos davam. Ver o meu pai, encarcerado, sem ter hipóteses de voltar para casa, que já não tínhamos, habitando em casa de familiares é uma experiência traumatizante. Imagine quem é que recebia em sua casa uma família constituída por 8 elementos? Quem? Muito poucas!

Mesmo assim houve quem fosse solidário e nos abrigou por algum tempo. E depois fomos entregues à nossa “sorte”,  crescendo no limiar da pobreza.
Quando se dá o  “4 de Fevereiro” vivíamos no bairro de São Paulo na casa de um irmão da minha mãe (o meu tio Augusto Figueiredo), que também fora detido pela PIDE e encarcerado na prisão de São Paulo.

NP  – E o seu pai onde é que estava, na altura?

JM – O meu pai estava encarcerado na Casa de Reclusão. Era um dos presos que seria libertado se essa tentativa tivesse sido  bem sucedida…

NP  – Sei que durante muito tempo foram forçados a viver da solidariedade familiar, por serem filhos de um preso político. Como faziam face às agruras da vida, numa sociedade que humilhava os nacionalistas angolanos?

JM – Foi muito difícil. Como disse há pouco, nós éramos 8 pessoas. A minha mãe e os seus filhos, a mais velha tinha 16 anos (faria 17 anos em Setembro desse ano de 1961), uma adolescente que teve de largar os estudos para ajudar, e o mais novo com 3 anos, vivendo todos no mesmo quarto e sempre marginalizados na Rua. Éramos “os filhos do terrorista”, diziam, até na escola, havia desconfiança em relação a nós, mesmo depois do meu pai morrer. Algumas ajudas… sim! Mas pessoas houve que nos conheciam e viravam a cara para não nos cumprimentarem, ou para não terem de comunicar connosco. Começou aí a nossa revolta e que dura até hoje.

Já reparou que nenhum dos filhos do “Antonico” beneficiou de ajudas… e a Independência aconteceu há 37 anos. Porque será? Nem uma bolsa de estudos, nem uma mão estendida para um benefício… Nada! Se calhar é por isso que é um dos “esquecidos”…

NP  – Porque é que António Marques Monteiro não consta da grelha dos homenageados, quando na prática se revelou como um dos activistas do nacionalismo angolano?
JM – Porque o que interessa na nossa sociedade é o “hoje”! Mas sabe que sinto orgulho por ser filho do António Marques Monteiro, porque há solidariedade e reconhecimento dos que partilharam com ele as cadeias por onde esteve. E quando falo com outros ex-presos políticos, sinto que há amizade e simpatia da parte deles, e houve união e companheirismo, a luta era uma só, mas era de todos.

NP – O nacionalista Mendes de Carvalho conhecia o mano “Antonico”, que conheceu nas lides contestatárias. Não tem tido contactos com a sua família, para saber dos vossos problemas?

Temos tido poucos contactos, mas sempre que solicitamos e nos aproximamos, o Tio Mendes de Carvalho, soube dizer presente, tentamos que houvesse uma pensão para a minha mãe e ele disponibilizou-se completamente, assim como todos os outros do “Processo dos 50”, mas infelizmente a minha mãe morreu em 2003, sem conseguir o apoio que pretendia.

NP – O que é que a família tem feito para perpetuar a memória de António Marques Monteiro?
JM – Quase nada, devíamos ser mais activos nesse sentido, porque o que lemos nas obras que foram surgindo sobre a época de 1958/59, falam muito pouco das actividades políticas do meu pai. Recentemente fiz umas pesquisas e criei na Wikipédia, uma forma de  exaltar a sua pessoa e descobri muito material, entre outros manuscritos seus que demonstram o carácter, o empenhamento e a convicção com que defendeu ideias, como aquelas que a seguir se descrevem:

– “Aceito tudo quanto a meu respeito consta dos autos, essencialmente a tudo quanto se refere aos actos que pratiquei, com vista à obtenção da Independência de Angola.

A este respeito apenas tenho a acrescentar que pretendi e pretendo a Independência total, imediata e incondicional de Angola. Neste momento em que o povo de Angola se vem batendo e morrendo pela sua libertação, resta congratular-me com a perfeita identificação e a vontade patente de todos os meus compatriotas.

Pode pois este tribunal deliberar como entender sobre a minha pessoa, sendo certo porém que os meus actos foram de carácter pacífico e legitimados pelo direito natural e internacional.” Isso foi tirado dum manuscrito apreendido pela PIDE, e eu pergunto: uma pessoa com este discurso é um político menor? É pessoa para cair no esquecimento?

NP  – Já alguma vez houve uma abordagem do assunto com a direcção do MPLA, no sentido de integrar o nome do seu pai, na lista dos heróis da luta de libertação?

Nunca! Até hoje só nos entregaram uma medalha comemorativa dos 50 anos do “Processo” e foi-nos dada pela Associação do Processo dos 50 e não pelo Estado.

NP – A Torre do Tombo, em Lisboa, tem documentação do julgamento que ditou a prisão de António Marques Monteiro, cujo testamento pode-se considerar um subsídio para a história da luta de libertação nacional. A família tem mais dados que possa disponibilizar para os historiadores?

JM – Há alguma informação, mas os historiadores querem outros nomes, mais recentes que não caíram no esquecimento, quando houver alguém com vontade de escrever a verdadeira história, irão saber muitas coisas. Até coisas que reveladas, poderão não coincidir com o que já foi dito…

NP  – O que é feito da família Monteiro?

JM – Está unida, envelhecida, com problemas… mas sempre com orgulho nos nossos progenitores, no seu passado, no nosso passado. Não pode haver futuro escondendo dos mais novos nomes e valores que fundaram o nacionalismo angolano e o MPLA. O meu Pai faz parte inquivoca da História do Nacionalismo Angolano e da fundação do MPLA.

Perdemos recentemente o meu irmão Armindo, que tinha vontade de regressar e terminar os seus dias na terra onde nasceu. Não foi possível. Grande parte de nós, com problemas de saúde e outros…

Mas, com grande dignidade, caminhamos para o Outono da vida, nos países que nos vão aceitando, com vontade de regressar, mas com as dificuldades de recomeçar, sem meios e sem lugar para estar. Alguns de nós continuarão a sonhar, mas com a convicção de que será cada vez mais difícil concretizarmos os nossos desejos, nomeadamente: morrer no solo Pátrio…

António Marques Monteiro, uma história singular de patriotismo.

Fonte: New Press, London. 2013

BIOGRAFIA

António Marques Monteiro (Antonico), (LuandaAngola, 19 de Julho de 1918Luanda, 26 de Julho de 1967), activista, político e nacionalista, membro do MIA (Movimento para Independência de Angola), cuja fusão com outros movimentos deram essência ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

Filho de António Monteiro e de Maria da Nazaré Nunes, Neto de Manuel Correia Nunes e de Nga Dona Ana João, descendente de famílias da ilha do Cabo e do Mussulo, Luanda.

Foi funcionário do Banco de Angola, em Luanda.

De formação Seminarista, esteve ligado ideológica e politicamente ao Monsenhor Cónego Manuel das Neves e a Joaquim Pinto de Andrade, organizando diversas reuniões clandestinas para promoverem estratégias e debaterem questões políticas relacionadas a independência de Angola.

Um dos integrantes do Processo dos 50, processo esse que pela sua importância, daria conhecimento internacional da luta pelo direito à independência de Angola.

Foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) em 5 de Junho de 1959, por razoes da forte tortura, internado no Hospital Psiquiátrico de Luanda e mais tarde encaminhado para a Casa de Reclusão (Fortaleza do Penedo) Forte do Século XVII, sito no actual Porto Comercial de Luanda, Boavista, onde se encontrava no momento em que grupos de patriotas angolanos, tomavam de assalto com catanas e outros utensílios de defesa as cadeias de Luanda, a 4 de Fevereiro de 1961, dia do inicio da luta armada em Angola.

Assumiu a sua autodefesa renegando o advogado militar sugerido pela PIDE, uma vez que a sua a advogada Dra. Maria do Carmo Medina tinha sido retida em Portugal pela PIDE, não podendo comparecer ao tribunal para a sua defesa. Em 2 de Dezembro de 1961, foi condenado a uma pena de prisão de segurança, para cumprimento da pena deu entrada no Campo de Concentração do Tarrafal Ilhas de Cabo Verde, no dia 25 de Fevereiro de 1962. Contestou a pena que lhe foi imposta alegando que a sua luta era justa, pacífica, e que era um direito seu, natural e internacional, e que pretendia pura e simplesmente, a independência total, imediata e incondicional de Angola conforme manuscrito a mão que se junta em anexo.* Manuscritos Gravemente doente, vitima dos maus tratos, foi libertado em Dezembro de 1964 vindo a falecer em Luanda no dia 26 de Julho de 1967.

Casado com Aurora dos Santos Figueiredo Monteiro, e pai de 7 filhos: Maria Ester da Nazareth dos Santos Monteiro, António Marques Monteiro Júnior, Arlete Maria de Fátima dos Santos Monteiro, Jorge Eduardo dos Santos Monteiro, Ana Paula dos Santos Monteiro, Armindo Augusto dos Santos Monteiro, Alberto Acácio dos Santos Monteiro.

Em 1975 após proclamação da independência de Angola, foi homenageado pelo Governo, com a atribuição de uma Rua, com o seu nome, no Bairro da Maianga em Luanda, Rua António Marques Monteiro.

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7 COMENTÁRIOS

  1. Interessante a história deste senhor. Não conhecia de facto este nome grande do moderno nacionalismo angolano. Já ouvi falar do processo dos 50′ mas estava longe de pensar que havia um homem com tamanha grandeza de pensamento e acção política. Divulguem mais documentos para que possamos conhecer o lado oculto da nossa história.

  2. Bom trabalho jornalístico.Se a Sociedade,o Estado e o
    M.P.L.A. por ignorância e perversidade postergaram um dos mais brilhantes filhos de Angola,é encorajador e justo, ver e sentir que a família na pessoa do seu filho, continuam a honrar a sua memória, contrariando os argumentos mentirosos
    que sustentam todo o embuste perversivo que é aquele País.
    Ao se fazer justiça a este Eminente Político, resgatar-se-ia a memória de outros tantos milhares de anónimos que deram as suas vidas pela liberdade e dignidade dos indígenas Angolanos.

  3. Li com atenção o depoimento do meu irmão e congratulo-me de ser filha de António Marques Monteiro. Nós éramos umas crianças quando ele foi preso. Fomos bastante maltratados e ainda hoje sinto-me marginalizada pelo País que me viu nascer e crescer e por quem o nosso pai deu a vida. Por falta de segurança fomos obrigados a sair da nossa Pátria e por ela fomos esquecidos.

  4. Depois de ter lido a entrevista que o meu irmão Jorge deu sobre o meu Pai fiquei deveras emocionada,concordando inteiramente com o seu conteudo,desejando que continue com a sua luta pela reposição da imagem, a que o nosso Pai tem direito!

  5. Grande Jorge..
    Recuperar a memoria e a imagem do primo Antonico, e completar a historia do nosso pais… Lamento k os governantes nao saibam dar valor aos homens k deram tudo para honrar o povo angolano..
    Bem haja…
    Soube da morte da prima Aurora, e mais recentemente do Mingo. lamento profundamente …. Aquele abraco

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