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Angola revisitada

Angola: Um Gigante com Pés de Barro é o mais recente trabalho do historiador luso-angolano Carlos Pacheco, uma das referências da historiografia angolana. A obra, uma coletânea das crônicas que o autor publicou na imprensa portuguesa entre 2001-2006, descreve acontecimentos recentes da história de Angola, cobrindo várias temáticas, desde a economia, a história e a política.

E, como tem sido hábito do historiador, reporta à sua própria experiência e a ela junta as pesquisas bibliográficas e de arquivo (PIDE-DGS) para dar corpo à obra. E para que não restem dúvidas, sustenta a informação com a realização de entrevistas com intervenientes que vivenciaram os acontecimentos mais recentes, testemunhos registrados na primeira pessoa e que reforçam todo o trabalho de investigação do autor.

A primeira parte do título da obra deixa logo adivinhar parte do seu conteúdo: Angola. O autor propõe-se a fazer um retrato dos acontecimentos mais marcantes que aquele país tem vivenciado no período de tempo referido. Carlos Pacheco propõe-se a falar de Angola, e não das suas riquezas energéticas, das suas potencialidades econômicas ou mesmo do recente crescimento econômico. Ele enfoca as fragilidades, a real situação do país, que fazem com que esse gigante econômico se apresente na realidade com pés de barro, disfarçados, mas que, mais dia, menos dia, se quebrarão.

Como bom historiador, Carlos Pacheco cruza as diversas fontes de informação, o que conduz a descrições de acontecimentos de modo bastante realista. Os fatos apresentados conduzem o leitor a uma viagem complexa ao lado mais ofuscado da realidade (social, política e econômica) angolana, levando-o a questionar tudo o que se tem ouvido sobre o país.

O autor inicia a obra com um debate em torno da questão do petróleo e da sua importância não só para a economia de Angola, mas, sobretudo, para os políticos que governam aquele país, que, em troca do apoio internacional, cedem o petróleo aos grandes centros económicos

mundiais, servindo assim ao seu interesse pessoal, e não ao bem-estar dos cidadãos angolanos, o que torna Angola um petro-estado debilitado.

Na parte II, Crimes de lesa-humanidade – quiçá uma das partes mais sensíveis do livro, pois o autor surge como testemunha principal –, retrata os acontecimentos do 27 de Maio de 1977. (1)

De acordo com o autor, não se pode falar de paz e reconciliação enquanto o “estado não der provas palpáveis de querer devolver a memória e a dignidade aos desaparecidos politicos […] homenagear os mortos e oferecer-lhes uma tumba condigna” (p. 64). Na parte III, A colaboração da Intelligentsia com a ditadura, o autor escreve uma carta aberta a Pepetela2 (e a todos que participaram nos referidos acontecimentos), pedindo-lhe que reconheça os seus atos e o seu papel no referido acontecimento.

Carlos Pacheco salienta que, ao final desses anos passados, não pretende incriminar ou julgar ninguém, apenas “anseia derramar luz sobre fatos do passado de maneira a poder descrever e explicar a história com mais rigor” (p. 78), o que, do ponto de vista do autor, não tem sido feito.

Em seguida, Carlos Pacheco procura corrigir algumas “falsificações da história” em relação aos acontecimentos mais marcantes da história daquele país. De acordo com o autor, os acontecimentos do 4 de Fevereiro de 19613 não se devem ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que, segundo o autor, não existia antes de 1960.4 Como inspirador da revolta esteve o cônego Manuel Joaquim Mendes das Neves, que ao longo dos anos “presenciou cenas horríveis de espancamentos […] trabalho forçado que corria impune […] violências e extorsões na arrecadação do imposto de palhota […]” (p. 101).

Outra falsificação da história prende-se com a criação do MPLA. De acordo com o autor, o “movimento” não nasceu do ventre do Partido Comunista Português (PCP), como se tem feito crer, e sim foi fundado por Viriato da Cruz, “o verdadeiro pai do MPLA e seu secretário-geral até 1962” (p. 138), sendo as suas figuras primárias Azancot de Menezes, Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz e Eduardo Macedo dos Santos. 5

Carlos Pacheco critica igualmente o “culto à personalidade do Grande Chefe” que ainda hoje é feita em torno de Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola. O autor questiona a sua corrente marxista-leninista (p. 145) e considera a sua breve governação desastrosa (p. 147). De igual forma, carateriza Jonas Savimbi como tendo um feitio exuberante, um “homem obcecado que talvez se julgasse a encarnação de um «messias tropical»” (p. 181).

Nas partes V e VI, o autor questiona a política seguida pelo MPLA nos últimos anos, nomeadamente a política da intolerância e de saque às riquezas do país em nome pessoal. Refere-se também à expec expectative que se criou em torno da permanência ou do afastamento do presidente José Eduardo dos Santos, bem como a incapacidade que tem demonstrado em construir um estado democrático e moderno, dando como exemplo o sonho da construção de um “estado nacional negro, genuíno” (p. 200), em detrimento do mérito e das virtudes.

A parte VII, A Teia dos Mencheviques Portugueses em Angola, retrata a ligação entre Portugal e Angola nos primeiros anos depois da independência do país.

O autor destaca o papel de Costa Martins, antigo membro da Comissão Coordenadora do MFA (Movimento das Forças Armadas) e ministro de vários governos provisórios em Portugal. Costa Martins também foi uma das vítimas do 27 de maio de 1977, e foi nessas condições que o autor travou conhecimento com esse militante português.

Impossível refletir sobre a história de Angola sem abordar a questão do nacionalismo cabindense e o desejo dos seus habitantes de ver o enclave independente do resto de Angola. Carlos Pacheco aborda a situação da FLEC-FAC,6 a posição do governo angolano e a incerteza quanto ao futuro da região.

Na parte IX, As virtudes pouco civilizatórias de Portugal em África, o autor faz uma viagem no tempo e caracteriza brevemente o lado obscuro da colonização portuguesa no continente, marcado, sobretudo, por pilhagens e discriminação rácica.

O livro termina com as reflexões do autor sobre o continente africano (partes X e XI). O autor, que ao longo da obra se mostra sempre muito crítico em relação à situação de Angola, transfere igualmente a sua crítica para a situação do continente africano e aponta os grandes grupos econômicos internacionais como responsáveis pelo saque que a África tem sido alvo ao longo dos séculos: o tráfico de escravos, a política colonialista europeia, que levou à “destruição das suas economias, sociedades e culturas” (p. 272), a exploração dos recursos naturais e, mais recentemente, as políticas neocolonialistas adotadas.

É uma obra que enriquece certamente a historiografia angolana e aponta pistas para outros caminhos, outras fontes, demonstrando que muito ainda está para ser estudado e analisado. Carlos Pacheco abre, assim, caminho para outros historiadores e investigadores desenvolverem a sua pesquisa, com o objetivo de demonstrarem a veracidade histórica dos acontecimentos mais recentes.

Contudo, a linguagem acusatória utilizada ao longo da obra deixa transparecer uma certa revolta pessoal do autor por ter vivenciado alguns dos acontecimentos descritos. Verifica-se, portanto, uma certa dificuldade de distanciamento em relação ao objeto de estudo, que pode condicionar a interpretação da informação. No entanto, a pesquisa bibliográfica, a consulta de arquivos, bem como as entrevistas, reforçam as ideias defendidas ao longo da obra.

Denota-se igualmente uma falta de aprofundamento das questões assinaladas, isto é, o autor analisa partes de acontecimentos para caraterizar um todo: a questão do petróleo, o 27 de maio de 1977, a intervenção externa, a política do MPLA, para caraterizar a situação atual de Angola. Falta, da parte do autor, um diagnóstico social completo e aprofundado que nos permitisse perceber os impactos das questões levantadas no quotidiano dos angolanos.

De igual forma, e apesar de o autor ter realizado pesquisa bibliográfica e de arquivo, não se vê, no fim da obra, uma compilação da bibliografia consultada. No entanto, não deixa de ser uma referência importante para se conhecer a história recente de Angola. Por tudo o que foi dito, será realmente Angola um gigante com pés de barro ou o barro que se tenta moldar e agigantar?

Data de recebimento da resenha: 28/09/2012

Data de aprovação da resenha: 09/11/2012

PACHECO, Carlos. Angola: um gigante com pés de barro e outras reflexões sobre a África e o mundo. Lisboa: Nova Vega, 2011, 359 p.

Ermelinda Liberato

Doutoranda em Estudos Africanos, Desenvolvimento Econômico e Social em África (Centro de Estudos Africanos do Instituto Universitário de Lisboa)

NOTAS

1. Tentativa de golpe de Estado ocorrida no dia 27 de maio de 1977, dois anos após a independência. Esse acontecimento marcou negativamente a história de Angola porque, em consequência dele, foram dizimados e torturados milhares de angolanos. Também a própria história do MPLA ficou marcada, pois o golpe foi desencadeado por militantes daquele movimento, alguns dos quais ocupavam cargos no governo da altura.

2. Reconhecido escritor angolano.

3. Início da luta armada contra o colonialismo português.

4. O MPLA e os seus militantes defendem que o movimento foi criado em 1956.

5. Tese defendida pelo autor, na sua obra: MPLA: Um Nascimento Polémico. Lisboa: Editora Vega. 1997. 212 p.

6. Frente de Libertação do Enclave de Cabinda – Forças Armadas de Cabinda.

 

Ermelinda Liberato

(revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/view/22411)

 

 

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Não compreendo porque Portugal é referenciado sempre tão negativamente nos jornais, revistas e livros, os portugueses também foram colonizados, invadidos, saqueados, humilhados desde o tempo do Império Romano,das Invasões Francesas e da Monarquia Espanhola e no entanto sabemos, virar a página e perceber que foram outras épocas, com outros costumes e sobretudo muita falta de cultura sobre as pessoas que emigravam para as colónias africanas, falta realmente abrirem muito mais os horizontes, não se comcentrem em suaves vinganças na escrita, estão retrocedendo em vez de avançar no mundo. Eu sou Português e minha amada mulher é Angolana, na altura que começámos a namorar, ou seja à 25 anos atrás, foi muito difícil para nós podermos passear na rua livremente de mão dada todas as pessoas olhavam para nós como se fossemos criminosos, aconteceu até em um restaurante o empregado que era cabo-verdiano, não quis servir-nos à mesa por sermos mistos deixem-se de tristezas e revoltas, porque eu branco, sofro à 25 anos de racismo de pretos e brancos, como sobrevivo? é simples! como todos os brancos e pretos evoluídos fazem, tratar com desprezo mentes pequenas, atrasadas e paradas nos tempos que acreditam no racismo para justificarem incompetência actualmente, assim Angola até pode ser toda de ouro e diamante, mas falta-lhe tudo o resto!

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