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Tomás Sapwanale e a clandestinidade

Tomás Sapwanale. Para muitos, o nome pode não ter significado para a história do país. Mas quando recuamos no tempo conseguimos perceber que se trata de alguém que também deixou a sua assinatura naquele que foi o processo determinante para a afirmação da liberdade dos angolanos. Ele faz parte de um grupo de pessoas que lutaram na clandestinidade contra o colonialismo português.
O Jornal de Angola procurou por ele e hoje trá-lo nestas páginas para uma viagem sobre o seu papel no processo de luta contra a opressão colonial, que veio dar lugar à independência do país. Encontramo-lo na sua residência, à rua Angélica Tavares, no centro da cidade de Ondjiva. É uma casa modesta, ainda da era colonial. O “boa tarde” soa em tom vivo. A saudação é calorosa. Altura média, forte e com caixa de óculos, o homem apresenta sinais de muita vitalidade e lucidez, apesar dos seus 73 anos.
Da sua memória saltam muitas histórias verídicas sobre aquele que foi um dos processos mais sangrentos do continente africano de luta contra o colonialismo. Cada narração despertava uma curiosidade. A história de Tomás Sapwanale inicia em 1959, quando foi rusgado na sua aldeia, algures na Môngua, uma comuna da província do Cunene, para cumprir o serviço militar obrigatório no exército português.
Do Cunene foi transportado para a vizinha província da Huíla, com outros angolanos, onde cumpriu a recruta. Da Huíla foi para Luanda, colocado no então Quartel-General, na área da Polícia Militar, com a patente de cabo indígena. É nesta unidade onde começa a sua história como militante do MPLA, depois de conhecer um colega chamado Marcos Kassanga, por sinal também natural do Cunene, com quem criou uma grande amizade.
“Eu posso afirmar aqui que fui um homem de sorte, porque quando fui para o MPLA, em 1959, era muito jovem, com 19 anos. Era militar do exército colonial e tinha poucos conhecimentos porque só tinha a 4ª classe. Na mesma companhia militar chamada “SS” estava também um nacionalista que se simpatizou muito comigo, chamado Marcos Kassanga, do município do Kuvelai”, conta.
Marcos Kassanga, sublinha, já estava envolvido totalmente na clandestinidade e também já esteve preso na casa da reclusão, mas depois de libertado foi posto sob controlo no Quartel-General. “Esse senhor é que me despertou. E depois apareceu um conterrâneo aqui mesmo de Ondjiva, João Batista Traves, e ficamos um grupo de três. Depois apareceu o João Evangelista Vailonda, o primeiro delegado do MPLA aqui no Cunene”.
Já com João Vailonda, os três reuniam-se constantemente, até que num belo dia de 1960 Marcos Kassanga tomou a iniciativa de ir apresentar os seus companheiros ao Presidente da República. “Fomos ter com o camarada Agostinho Neto. Quem nos levou foi o Kassanga, sem nos dizer onde íamos e com quem íamos ter. Só fiquei a saber lá. Aí encontramos Neto, o camarada Américo Boavida e um senhor branco chamado José Meireles, do Partido Comunista Português”, lembra.

Do encontro com Neto saíram importantes orientações e estratégias de trabalho. Mas Tomás Sapwanale já fazia distribuição de panfletos do MPLA que recebia dos colegas do partido. No folheto continha uma chamada de atenção: “leia com cuidado e rasga, os brancos não devem saber”. Mas a mensagem principal era a de despertar os angolanos para assumirem uma atitude de revolta contra os maus tratos a que eram submetidos.
“Eu recebia os panfletos e guardava-os no bolso. Na Polícia Militar, quando saíssemos em serviço à noite, de camião, eu ficava isolado num canto da carroçaria onde deixava alguns folhetos.
No dia seguinte, muitos colegas tomavam contacto com a informação”, relata o nacionalista.
Contou que a distribuição de panfletos era a sua actividade do dia-a-dia durante a clandestinidade, uma tarefa que também se estendia às outras unidades militares. “Os folhetos diziam ‘cuidado, o português está a comer arroz com feijão e você arroz simples, ele veste boa calça e você calções. Temos que estar unidos e lutarmos unidos”.

Mendes de Carvalho

Tomás Sapwanale disse ter assistido à condenação de Agostinho Mendes de Carvalho, em 1960, aquando do julgamento dos presos políticos, tendo o considerado como um nacionalista “muito atrevido”.
“Mendes de Carvalho era muito atrevido, não tinha medo. Em 1960 foi julgado no Tribunal Militar e condenado a 16 anos, por ser um nacionalista. Assisti à leitura da sentença. Depois da sentença, já na viatura para seguir para a prisão, ele meteu a cabeça pela janela e disse para o juiz: “olha esses 16 anos não são nada, a independência vai chegar daqui a nada”, conta.
O nacionalista afirmou que Mendes de Carvalho foi uma figura que mereceu muito respeito porque ele não temia nada, nem com tantas ameaças do colono. Mas Sapwanale regressa à sua história. Depois de terminar o serviço militar, deixa Luanda no dia 28 de Janeiro de 1961 de regresso ao Cunene, mas bem orientado para trabalhar na clandestinidade. No Cunene, veio com a missão de dirigir um ataque ao quartel dos portugueses na vila de Xangongo, onde poderiam conseguir armas para ir atacar a cadeia do Peu-Peu, para libertar os angolanos que ali se encontravam presos.
“Não conseguimos praticar a acção porque eles já tinham despertado, depois de ter acontecido a revolução do 4 de Fevereiro. Nós já éramos suspeitos, para além de não possuirmos armamento. As nossas armas eram flexas e alguns canhangulos”, relata.
Revela que depois do 4 de Fevereiro, o trabalho da clandestinidade tornou-se mais difícil. Os sobas já tinham sido orientados para que qualquer pessoa que estivesse a falar mal do governo fosse denunciado, para ser imediatamente preso. Depois de ver que a perseguição pela PIDE era uma constante, Tomás Sapwanale foge para a vizinha Namíbia, em companhia de Adão Sebastião “Kafuchi”, que conheceu no Lubango, na condição de soldado da tropa portuguesa que se encontrava em convalescença depois de ter sido ferido algures no Norte de Angola num confronto com as forças do MPLA.
“Estivemos juntos durante um ano em Shomeba a trabalhar como contratados. Criamos aí um comité de mobilização e recrutamento dos angolanos que se encontravam na Namíbia a trabalhar. Aos fins-de-semana deslocávamo-nos a outras cidades para criar subcomités e mobilizar outros, entre os quais muitos intelectuais”, conta. Este trabalho começou em 1966 e só terminou em 1970. (jornaldeangola.com)

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